Uma década de análise tática

Neste 12 de outubro de 2018 minha atuação como analista tático de futebol completa dez anos. O marco está gravado nos registros do blog Preleção (que, na verdade, foi lançado com o nome Prancheta, mas mudou em menos de 20 dias) com uma postagem sobre amistoso da Seleção Brasileira de Dunga contra a Venezuela, em 12/10/2008, sob o título “Dunga e os Invencíveis” -> aqui está.

Assistira, um ano antes, às aulas do curso de formação do Sindicato dos Treinadores do Rio Grande do Sul, e de lá saí cheio de ideias. A meta não era me tornar um treinador – até porque o curso, apesar da carteirinha, na prática não habilita para tal (é mais um workshop) – mas sim encontrar referências teóricas sobre o jogo. Talvez a gurizada de hoje, com toda a fartura de livros, artigos, sites e blogs, não imagine como era difícil estudar futebol há apenas uma década.

A aula que mais me chamou atenção foi da lenda Cláudio Duarte, que falou sobre sistemas táticos e apresentou uma espécie de evolução da pirâmide. No pen drive do curso constava ainda uma palestra do então analista de desempenho do Grêmio, Rafael Vieira, precursor da profissão no futebol brasileiro – nosso “Moneyball”. Fiquei fascinado. Entre outras informações, havia esta imagem do Grêmio de Mano Menezes e Rafael Vieira, utilizando o 4-1-4-1 (descrição que jamais havia sido abordada por imprensa ou público brasileiros), em um trabalho de vanguarda que eles desenvolveram no país:

Captura de Tela 2018-10-11 às 11.05.55

Trabalhava como correspondente da Zero Hora em Pelotas em 2007, quando e onde fiz o curso, e um ano depois assumi uma “editoria” de futebol do interior no falecido clicRBS, retornando a Porto Alegre.

Além da minha atividade principal (motivada pela grande repercussão da cobertura do futebol de Pelotas com o blog Cidade Futebol) propus a criação de um espaço exclusivo para análise tática. Com a equipe de arte, criamos uma identidade visual para os “botõezinhos”, e até onde se sabe, este foi o primeiro local específico sobre tática no futebol que foi ao ar na grande imprensa brasileira (corrijam-me se estiver enganado).

Na época o PVC era nosso precursor na televisão, embora não falasse exclusivamente sobre tática, e lembro que o André Rocha foi contemporâneo digital do Preleção, mas não recordo onde ele hospedava o site. Ele viria a me suceder no GE com o Olho Tático, ou seja, o espaço sobre pensamento tático no maior site de esporte do país havia se estabelecido, e não houve retrocesso nisso desde então.

Se vocês lerem o texto de abertura perceberão o quanto o meu embasamento era superficial – comparado com o que sabemos hoje – mas ainda assim era considerado “denso” por jornalistas (sem ser generalizado, pontualmente) que passaram a combater o trabalho (“brasileiro não tem capacidade de entender”, diziam…”futebol é bola na rede, deixa de bobagem”).

Em uma luta, é preciso ir às armas. Contra detratores e opositores, busquei firmar posição utilizando muitos termos estrangeiros (box-to-box, winger, enganche, doble pivote, e por aí vai) para atrair os interessados em estudar e afastar os chacoteiros de plantão. Também assumi o controle dos comentários de leitores, liberando apenas os que contribuíam ao debate – todos estavam avisados que haveria censura deliberada a clubistas e odiosos em geral.

Naquele tempo – obsessivo como sou – incomodava-me a falta de padrão em descrições de sistemas/esquemas. Porque um só tem 3 faixas de campo (4-3-3) e outro tem 4 (4-2-3-1)? Para manter um padrão, chamava o 4-2-3-1 de 4-5-1, mas aos poucos tive de me render à maioria (ainda assim, até hoje me incomoda essa falta de padrão…haha).

Cheguei no início a fazer um resumão em Word das aulas do curso do Sindicato e disponibilizei para download, com o pouco que sabia a respeito de tática, estratégia e sistemas/esquemas. Depois, com mais informações, publiquei um e-book sobre análise tática, que teve mais de 40 mil downloads gratuitos, e hoje está totalmente atualizado/repaginado/ampliado, disponível como bibliografia do curso “Pergunte ao Jogo” do projeto Footure.

Um ano depois o blog deu um salto de qualidade quando o então treinador colorado Tite me municiou com livros da sua coleção pessoal e CDs com mapas de calor manualmente elaborados pelo Maurício Dulac (seu analista, até hoje com ele na Seleção, e agora também auxiliar de Odair no Inter). Uma dessas obras era parte da bibliografia do curso de treinadores da UEFA, em italiano (Fondamenti di Tattica Calcistica, se não me engano) traduzida página-a-página pelo Tite de próprio punho. Também tinha “Mourinho: porquê de tantas vitórias” e um livro do professor Ricardo Drubsky. Não à toa, quando ele deixou o Inter, na despedida o abracei e acabei com um cisco nos olhos.

Na mesma época, importei o livro “Inverting the Pyramid” do britânico Jonathan Wilson (recentemente traduzido pelo André Kfouri na editora Grande Área, sob o nome “A Pirâmide Invertida”) e publiquei uma série de posts com a resenha desta obra-prima. Assim como descobri os primeiros sites mais elaborados de scouting disponíveis, o principal era o StatsZone da Four Four Two (hoje funciona apenas como aplicativo) onde haviam mapas de passes, de movimentação…informações ultra-detalhadas para a época, uma verdadeira Disneylândia para o blog.

Daí em diante, em 2011, levei o blog para o globoesporte.com (sob o nome Tabuleiro), onde trabalhei por um ano, mas não fui feliz. Pedi demissão, abandonei a carreira, e em 2012 criei o departamento de análise de desempenho das categorias de base do Grêmio (utilizando um velho notebook pessoal, uma prancheta de madeira, folhas de ofício e uma caneta bic durante meses, sem local definido e contra alguma resistência de colegas por não ser egresso da educação física).

Enfim, são 10 anos nessa correria, estudando, aprendendo, e compartilhando o conhecimento adquirido. Ministrei muitas palestras e cursos de 2008 até agora. Passei anos carregando um bloquinho onde fazia anotações a cada jogo assistido. Orgulho-me demais das escolhas que fiz, da iniciativa e principalmente da persistência diante das contrariedades.

Com a saída da imprensa e a imersão no clube, onde fiquei 6 anos (4 deles como coordenador da análise de desempenho profissional) criei este blog pessoal que praticamente não atualizo, mas serve de referência para toda a teoria que me guia. É engraçado ver nas estatísticas que ele recebe mais de 100 acessos diários, de gente que encontra nele textos sobre tática organizados em forma de e-book (na categoria “Livro em Capítulos”)

Hoje recebo de vez em quando recados de amigos na timeline do Twitter dizendo que começaram o estudo lá no Preleção, e até me comovo. Caminhamos juntos nessa jornada de busca pela compreensão das complexidades do futebol. É um aprendizado infinito, porque o jogo se transforma diariamente, e a produção de conhecimento teórico é cada vez mais farta e de fácil acesso. Ganhamos a batalha, e a guerra.

Futebol, definitivamente, não é só bola na rede.

 

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Mapeamento de gols e bolas paradas na Copa 2018

Publiquei no site da empresa Performance – Análise de Desempenho dois levantamentos por mim realizados, com enfoque no estudo dos gols.

Para quem quiser analisar os dados mapeados e as imagens, aqui estão os links:

Análise comparativa da origem dos gols marcados nas Copas de 2014 e 2018

Mapeamento das defesas utilizadas em escanteios na Copa 2018

Bélgica 2×1 Brasil – os comportamentos belgas

Chamou a atenção de todos que acompanharam a Bélgica desde agosto de 2016, quando Roberto Martínez assumiu o cargo de treinador da seleção nacional, a alteração da estrutura defensiva apresentada no confronto das quartas-de-final da Copa do Mundo 2018. Se durante quase dois anos no cargo Martínez havia estabelecido o 3-4-3 como sistema padrão, defendendo-se em 5-4-1 (ou, como diria o auxiliar de Tite, Cléber Xavier, em 5-2-2-1 – devido ao baixo comprometimento defensivos dos atacantes de lado Hazard e Mertens), houve uma pequena reforma na vitória de 2×1 sobre o Brasil. Mas apenas na fase defensiva.

Como é de praxe nas equipes que passaram a se utilizar deste 3-4-3 e suas variações, recentemente consagrado por Antonio Conte no Chelsea, a fase ofensiva desenha um 3-2-5. Forma-se aquela “grande roda de bobo”, com zagueiros espalhados na saída de 3, alas abertos e adiantados, e o trio ofensivo dando profundidade, com os dois volantes por dentro. Este comportamento não se alterou na Bélgica das quartas-de-final:

Na imagem acima, em jogada que origina o escanteio do 1º gol belga, De Bruyne sai da posição mais central do ataque para participar da construção, enquanto Fellaini se projeta, mantendo o 3-2-5 com Hazard e Lukaku (este, fora da imagem, aberto na esquerda de ataque).

A grande alteração foi na fase defensiva. Desfazia-se a estrutura de três zagueiros, armando uma linha de quatro, seguida de um tripé de meio-campistas, e três atacantes à frente: um 4-3-3 clássico (revelado na imagem abaixo). Como De Bruyne foi o atacante central, com liberdade de movimentação – a figura conhecida do falso 9 – alguns analistas viram um losango, mas para mim De Bruyne partia da frente para recuar, e não o contrário, portanto reconheço um 4-3-3. Vale destacar, entretanto, que a fria numerologia não é o mais importante na análise, serve apenas de referência para entendermos os movimentos e comportamentos.

Na estrutura anterior, Chadli estaria alinhado à defesa, com Lukaku adiantado e Hazard/De Bruyne à frente da linha de volantes, ora marcando lateralmente, ora formando um quadrado no meio (a já citada variação defensiva entre 5-4-1 e 5-2-2-1). Como sempre destaco, o mais importante na análise tática é encontrar os porquês, ou seja, as respostas que expliquem os comportamentos identificados. Então…porque Roberto Martínez fez estas mudanças na fase defensiva?

Em função do estudo do adversário, é a resposta principal, seguida de muitas justificativas: percebendo que, durante a Copa, o Brasil adotou um ataque posicional (jogadores em geral estabelecidos nos seus espaços, independentemente da posição da bola), o treinador belga criou referências quase individuais de marcação. Acredito que o ataque posicional tenha lhe dado segurança para configurar encaixes que não resultariam em desorganização/abertura de espaços, afinal, os alvos estariam restritos a determinados setores (Willian sempre aberto na direita, Marcelo sempre aberto na esquerda, Paulinho sobre um corredor interno no centro/direita, Jesus na referência, Coutinho e Neymar variando nas posições internas do triângulo com Marcelo – um entrelinhas, o outro na base…).

Desta forma, o 4-3-3 nada mais foi do que uma estrutura desenhada em função do ataque posicional brasileiro, uma projeção da Bélgica sobre os adversários. Com isso, casou laterais com extremos (Meunier e Neymar, Vertonghen e Willian), um zagueiro em Jesus e o outro sobrando (Alderweireld e Kompany), dois meias internos pegando os meias brasileiros (Fellaini em Coutinho, e Chadli – a “jogada de mestre” desta estratégia – fechando as subidas de Paulinho) e De Bruyne recuando sobre Fernandinho, deixando os dois zagueiros livres, como podemos ver nas duas imagens abaixo:

Notem que, na 2ª imagem acima, tanto Chadli como também Fellaini estão de costas para a bola, ambos procurando contato visual com seus alvos PREFERENCIAIS – Chadli mantendo Paulinho sob vigilância, e Fellaini monitorando Coutinho. Mas porque coloquei “preferenciais” em caixa alta? Porque não eram encaixes individuais “exclusivos”. Como disse antes, o ataque posicional do Brasil permitia que, no terço defensivo com a bola pelo lado, houvesse trocas circunstanciais de marcação.

Para que isso tivesse sucesso, duas contextualizações importantes: Lukaku na direita e Hazard na esquerda não acompanhavam os laterais brasileiros. Pelo contrário, a ordem era permitir que eles apoiassem para se manter adiantados ocupando este espaço, preparados para o contra-ataque; e Witsel não tinha um alvo preferencial, era uma espécie de coringa, para compensar a ausência de atribuições defensivas de Hazard e Lukaku.

Vejam que, ao passar Marcelo na esquerda, a Bélgica formava um quadrado de marcação no lado: o lateral Meunier responsável pelo alvo em amplitude (se não fosse Neymar, qualquer outro); Fellaini pegando o interior na base da criação (se não fosse Coutinho, qualquer outro); Witsel encaixando na linha de passe que se colocasse às costas de Fellaini; e o zagueiro Alderweireld muito próximo na cobertura. Ou seja, nesta zona do campo – corredor lateral no terço defensivo – os encaixes deixavam de ser individuais, e passavam a ser setorizados, dentro deste CAIXOTE com quatro marcadores – lateral, meia, volante e zagueiro.

Nesta 1ª imagem, Meunier está com Marcelo, Alderweireld vigia de perto Coutinho, e Fellaini pega Neymar. Witsel faz a cobertura. É um quadrado de marcação com superioridade de 4×3. Notem ainda que Chadli, por não estar no lado atacado, não abandona Paulinho, e assim fecha o corredor de subida pelo qual o camisa 15 brasileiro havia marcado um gol contra a Sérvia, Kompany pega Jesus e o lateral oposto sobra por trás:

Novamente vemos a Bélgica em superioridade, desta vez de 4×2, neste caixote pelo lado – isso porque Coutinho demora a se projetar. Com isso, Fellaini pega Neymar, Meunier pega Marcelo, Witsel espera Coutinho e Alderweireld sobra:

Mais uma vez podemos observar o caixote com superioridade de 4×3 pelo lado no terço defensivo elaborado pela Bélgica, bem protegida mesmo sem a participação de Lukaku. Agora, Meunier pega Jesus aberto, Witsel está com Neymar e Fellaini com Coutinho (Marcelo não passou), enquanto Alderweireld sobra. Como Willian ensaia uma flutuação, Chadli fecha sua linha de passe pela frente, mas mantém contato visual com Paulinho, podendo trocar de marcação sinalizando a um de seus companheiros livres (Kompany ou Vertonghen):

O mesmo acontecia no lado esquerdo de defesa, comportamento que foi menos observado porque Fágner apoiava menos do que Marcelo – parte natural do ataque posicional brasileiro, já que a amplitude na direita era papel de Willian. Vejam novamente a superioridade de 4×3 mesmo sem o retorno de Hazard: Chadli sai de Paulinho para pegar Fágner (lembrando que o encaixe preferencial era desfeito no terço defensivo de acordo com a leitura da jogada no lado atacado); Vertonghen pega Willian e o coringa Witsel completa os encaixes com Paulinho, enquanto Kompany aproxima bastante para a cobertura:

No 1º tempo, o único problema aconteceu quase aos 24min devido a um erro de leitura individual, desfazendo o caixote e liberando Marcelo – no entanto, Miranda errou o passe e a bola saiu. Witsel encaixou em Coutinho e assim liberou Fellaini para pegar Neymar, que flutuava. O lateral Meunier, ao invés de fazer a leitura e “entregar” Neymar a Fellaini, esperando Marcelo na posição mais recuada do quadrado de marcação, foi junto com o camisa 10 brasileiro e abriu o corredor. Se Miranda acerta o passe, Marcelo avançaria livre, com tempo e espaço, batendo de frente no 1×1 com Alderweireld, com boas chances de vitória:

Este plano, considerado arriscado por, na prática, defender-se com 7 jogadores, mostrou-se efetivo no 1º tempo. Mesmo deixando 3 jogadores à frente (De Bruyne fechando Fernandinho na saída, e depois baixando para pegar os rebotes completamente livre e iniciar contra-ataques, mais Lukaku e Hazard abertos), sempre estabelecia-se superioridade de 4×3 nos lados da área, referenciado pelo ataque posicional. Estava tudo sob controle, ao que parece.

É claro que o futebol se condiciona pelo resultado, e ao abrir o placar com um belo ataque à 1ª trave em escanteio (o gol foi contra, mas a jogada foi intencional, com Kompany antecipando Jesus e Fernandinho sem receber bloqueio) a estratégia belga assentou-se, produzindo boas oportunidades de contra-ataque, principalmente na direita com Lukaku, tendo em De Bruyne a peça chave para se desvencilhar de Fernandinho, pegar as sobras e construir as saídas rápidas de frente, desmarcado. Apesar disso, o gol de contra-ataque foi após um escanteio, não fazendo parte, portanto, deste plano da bola rolando – vale destacar que o 3º gol belga contra o Japão também foi contra-ataque de escanteio, ou seja, um padrão.

No 2º tempo o Brasil estancou os contra-ataques com encaixes individuais e postura mais agressiva com a bola. Foram 17 finalizações contra apenas uma, poderia ter empatado e até virado. Parece-me, entretanto, que a Bélgica contava com isso: manteve o plano original e assumiu o risco do bombardeio, condicionada pelo 2×0 parcial e tendo 45 minutos para defendê-lo. Como diria o treinador de Rocky Balboa, “não importa o quanto você bate, mas sim o quanto aguenta apanhar”. A Bélgica apanhou no final, mas ficou de pé e os dois socos no início da luta foram determinantes.

A grande atuação de Courtois endossou a confiança belga neste jogo mental/emocional, a cada defesa do goleiro a classificação mostrava-se mais próxima. Courtois influenciou tanto o jogo que não apenas tranquilizou seus jogadores como também interferiu nas finalizações brasileiras, afinal, nas claras chances perdidas, Renato Augusto e Coutinho erraram exatamente por tentar o último milímetro do canto do gol – senão, provavelmente pensaram, Courtois pegaria. Chutaram para fora.

Aqui vocês podem assistir à análise em vídeo destes comportamentos belgas:

Análise da Bélgica contra o Brasil na Copa de 2018 from eduardocecconi on Vimeo.

Fluminense no 3-4-3

Sob sugestão do amigo jornalista e analista de desempenho Carlos Eduardo Mansur, fui conferir o 3-4-3 utilizado pelo Fluminense do técnico Abel Braga em recente vitória sobre o Flamengo, no Campeonato Carioca 2018. Isso porque ele sabe o quanto este modelo repaginado modernamente pelo italiano Antonio Conte no Chelsea chama a minha atenção.

A estrutura inicial é a mesma, com 3 zagueiros, alas e volantes alinhados, e dois meia-atacantes “fechados” e próximos do centroavante – tanto que no Wyscout o esquema (a “linha de ônibus”) é descrito por 3-4-2-1:

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É o que se pode perceber com a bola ao iniciar a construção tricolor:

Captura de Tela 2018-02-27 às 16.13.30

A organização ofensiva foi bem agressiva, com muitos ataques rápidos e/ou diretos, tanto buscando proximidade com os atacantes, como acionando o pivô pelo chão e pelo alto para ganhar a 2ª bola com forte aproximação, como podemos ver neste frame:

Captura de Tela 2018-02-27 às 16.13.44

A importância da amplitude “aguda” com os alas
Houve, entretanto, diferenças nos movimentos que se observam no Chelsea, se comparados ao Flu – destacando que Abel recém começa a utilizar essa estrutura, e muita coisa ainda será treinada e trabalhada conforme suas predileções. Destaco, por exemplo, a importância de manter a amplitude e a profundidade com os dois alas ao mesmo tempo.

Tendo um trio ofensivo central, os alas abertos e adiantados formam uma linha de 5 ofensiva que empurra a defesa adversária e dá espaço para que volantes e zagueiros trabalhem na construção/preparação das jogadas de ataque. Sem esta amplitude – principalmente no lado oposto – a posse pode ficar “trancada” em um setor, sem conseguir sair da pressão, prejudicando a circulação e consequentemente a progressão.

Reparem como houve distintos momentos do Fluminense neste quesito: primeiro, um frame sem amplitude no lado oposto; depois, um lance com amplitude no lado oposto – resultou em gol, com Sornoza recebendo da direita e tendo a opção de circular para a progressão do ala Marlon fazer o cruzamento:

Captura de Tela 2018-02-27 às 16.14.08Captura de Tela 2018-02-27 às 16.14.27

Sem amplitude no lado oposto, ou seja, com um ala demasiadamente conservador, a equipe se vê forçada a finalizar a jogada por onde iniciou, ou então perder terreno para trocar o corredor utilizando a linha defensiva, e recomeçar do próprio campo após ter chegado ao terço final. Do contrário, formando a linha de 5 ofensiva, a circulação/troca de corredor pode ocorrer com maior agilidade, no terço final, e causando desequilíbrio na estrutura defensiva adversária – “espaçando” a primeira linha.

Abordagem do ala-direito
Outro comportamento que se repetiu muitas vezes – portanto, um padrão – principalmente no 1º tempo foi a abordagem alta do ala Gilberto pela direita. E, o que mais chamou a atenção, foi como ele procurou agredir o lateral-esquerdo adversário mesmo que o atacante Marcos Júnior estivesse fazendo o mesmo. Ou seja, formou dobras de marcação sobre o lateral Trauco no início da construção do Flamengo, provocando um efeito dominó de compensações encaixadas por zagueiros e volantes, e consequentes aberturas de espaços exploradas pelo adversário.

Captura de Tela 2018-02-27 às 16.14.48Captura de Tela 2018-02-27 às 16.15.03Captura de Tela 2018-02-27 às 16.15.14

Em nenhum momento observei o mesmo comportamento pela esquerda com Marlon, que sempre “deixou” Sornoza fazer o combate e esperou mais recuado, sem expor o zagueiro do setor. Fica a dúvida se havia uma orientação específica para esta pressão dupla sobre Trauco, ou se foi iniciativa de Gilberto.

Eu sei que no Chelsea o ala faz uma abordagem muitas vezes alta e agressiva, e pode acontecer com uma dobra do atacante deste setor – formando na prática duas linhas de quatro sem a bola – mas o habitual nestes casos é que o atacante oposto feche os espaços centrais, assim como a linha defensiva se direcione ao lado atacado, ações que podem diminuir a quantidade de espaços disponíveis ao adversário.

Em todo caso, no 2º tempo – com a vitória até então parcial de 3 a 0 – Gilberto diminuiu a agressividade das abordagens e o Fluminense passou a marcar de forma mais equilibrada no 5-4-1 em bloco baixo, assumindo um comportamento muito observado no Chelsea de Conte: extremos pela frente para puxar os contra-ataques mais “descansados”:

Captura de Tela 2018-02-27 às 16.37.14O vídeo com esta análise pode ser visto abaixo – a edição foi realizada com o software Tactical Advanced, a partir de imagens obtidas via Wyscout:

 

Analogias táticas entre futebol e NFL

Escrevi há poucos anos, nas páginas do saudoso Impedimento, uma analogia entre princípios táticos do futebol e do futebol americano. Afinal, são dois esportes coletivos de progressão no campo adversário, contando com 11 jogadores de cada lado, guardadas as grandes diferenças nas regras e nas medidas do campo (105×68 contra 109×49, respectivamente).

O principal contexto a ser levado em consideração, para mim, é o fracionamento das jogadas no futebol americano – todos se posicionam para o snap (ponto de partida da bola oval), movimentam-se a partir dele,e reconfiguram-se assim que a progressão é interrompida. Já no futebol,  as jogadas sucedem-se e as paradas se dão apenas devido a infrações ou quando a bola cruza as extremidades (saídas ou gols).

Assimilada esta diferença – e seu impacto nos movimentos – ainda assim podemos extrapolar conceitos muito aplicados nos jogos da NFL para o futebol. Se quiserem recordar, entre outros posts neste aqui falei sobre os princípios do nosso futebol, desenvolvidos pelo professor Israel Teoldo.

O que mais me atrai ao assistir às partidas da NFL é a leitura dos espaços, com rotas de recebedores planejadas para atrair marcadores, induzir adversários ao erro e assim abrir espaços para a progressão do alvo principal do quarterback. Um princípio bastante útil no futebol, principalmente sul-americano, onde se praticam as marcações por encaixe (seja setorizado, seja individual): mais de um jogador se movimenta, trazendo consigo o seu perseguidor, enquanto o portador da bola faz a leitura do melhor espaço que se abriu diante desta sincronia de movimentos; escolhido o alvo, executa o passe – seja em profundidade, seja entrelinhas – para aquele que se movimentou na direção do espaço mais relevante, enquanto os marcadores se batem feito baratas.

Vejam como os times da NFL trabalham estes conceitos de mobilidade para atrair marcadores em várias frentes, indução ao erro, leitura de espaços e penetração, entre outros.

No último domingo a ESPN transmitiu um jogaço entre Cowboys e Packers, em Dallas, vencido pelos visitantes no último lance. Até lá, os QBs Dak Prescott (Dallas) e Aaron Rodgers (Green Bay) proporcionaram um espetáculo de inteligência de jogo e tomada de decisão, associados – claro – a companheiros com as mesmas virtudes e ao imenso trabalho tático das comissões técnicas.

Comecemos por esse TD dos Cowboys. Na 1ª figura vemos os Packers marcando em 4-3 com nickel (quatro na linha de scrimmage, três linebackers na secundária – um deles marcando individual o recebedor no slot), mais dois cornerbacks individualizados nas pontas e dois safetys na sobra. Cowboys atacando com 3 recebedores, um tight end para bloquear e um running back ao lado do lançador.

Feito o snap, na 2ª figura, Dak Prescott recorre ao playaction (quando o quarterback finge entregar a bola ao running back, corredor que vem detrás). Este movimento induz os defensores a imaginar que a jogada será terrestre – e os safetys decidem adiantar-se para bloquear a corrida.

Mas Prescott não entrega a bola ao corredor. Ao perceber que atraiu a defesa inteira para a linha de scrimmage, identifica o grande espaço aberto na red zone – para onde dirige-se o corredor que saiu da posição slot (“menos aberto” que os dois wide receivers “ponteiros”). E aí faz o passe para um jogador que, graças ao playaction – e à leitura equivocada dos defensores – está no 1×1 e em vantagem física (mais alto e mais rápido) que seu marcador:

espaco_um

Em outro TD os Cowboys novamente atraíram a marcação dos Packers para a zona central, mesmo sem o uso do “playaction”. A jogada chamada posicionou 8 jogadores na linha de scrimmage, mais o running back recuado. Notem que os 2 safetys (os homens da “sobra”) da defesa distanciam-se do lado direito do ataque dos Cowboys – o “free safety” está recuado, do centro para a esquerda adversária, enquanto o “strong safety” repete o erro de leitura e adianta-se para combater uma jogada terrestre.

O que faz o QB Dak Prescott? Assim que o safety se adianta, faz o lançamento às costas do cornerback adversário, para um recebedor no 1×1, sem cobertura próxima, com grande espaço para atacar a profundidade e em vantagem física – mais veloz e mais alto:

espaco_dois

Duas vezes algozes, entretanto, os Cowboys foram vitimados pelo mesmo princípio logo depois, quando foi a vez dos Packers lançarem iscas aos marcadores para abrir uma situação de 1×1 pelo lado.

O QB Aaron Rodgers também faz uso do “playaction”, fingindo passe para o running back. Este movimento, somado à grande concentração de 7 jogadores na trincheira, atrai os linebackers e safetys dos Cowboys para a frente, buscando interromper uma suposta corrida.

Aí fica fácil para ambos – lançador e recebedor – perceberem o grande espaço às costas dos 4 jogadores observados na 3ª imagem; um ataca a profundidade, o outro faz o passe, touchdown:

espaco_tres

São conceitos muito observados no futebol, onde cada vez mais as equipes trabalham para atrair encaixes de marcação – jogadores que se movimentam não para receber, mas como “iscas” que tiram defensores de lugar e abrem espaços para outros infiltrarem-se.

Ainda em Dallas x Green Bay o próprio QB dos anfitriões correu até a end zone graças a esta combinação de movimentos sincronizados causando desequilíbrio/desorganizando a defesa adversária.

Esta chamada exige grande inteligência do QB, velocidade de raciocínio e de execução, e precisão na hora de tomar a decisão. É a chamada “read option”, situação de corrida com pelo menos duas possibilidades – é o lançador que decide na hora quem vai ficar com a bola.

Primeiro, o Dallas abre 3 corredores para a sua direita, atraindo a atenção de 3 marcadores individuais. Além disso, vejam que o tight end posicionado mais à esquerda da linha de scrimmage (1ª imagem) propositalmente permite que o seu bloqueador ultrapasse-o, dando a ele a ideia de que o caminho está livre para tacklear o portador da bola.

Neste momento, Prescott faz a leitura, na fração de segundos na qual ele encosta a bola oval no peito do running back, que a abraça: se o marcador está vindo na direção do QB, ele entrega para o corredor; se o marcador está vindo na direção do running back, ele fica com ela. Alta sincronia de movimentos e entrosamento. Ilusionismo.

E foi o que aconteceu – Prescott percebe que o marcador dirige-se ao corredor, acreditando estar com ele a bola; aí o QB faz a finta e corre em direção à end zone, onde aquele tight end que saiu correndo está bloqueando a única pessoa capaz de pará-lo. Touchdown baseado em inteligência de jogo e tomada de decisão, duas virtudes que no futebol que nós conhecemos diferenciam os craques dos jogadores médios.

readoption

Já em outra partida, vitória do Seattle Seahawks fora de casa sobre o Los Angeles Rams, também assistimos a um TD baseado na criação de vantagem para o recebedor – deixá-lo no 1×1 com espaço, sem cobertura, e com maior capacidade física.

Com 6 jogadores na linha de scrimmage, 1 running back e 2 corredores abertos na direita, os Seahawks atraem a marcação dos Rams para a zona central, onde concentram-se 10 marcadores. Eles têm certeza que sairá dali uma corrida, ou um passe para a direita.

Mas, na esquerda, o recebedor está em grande vantagem: mano-a-mano, sem ninguém para cobrir o marcador, tendo muito espaço à sua frente e maior capacidade física. O QB Russel Wilson faz um passe “back shoulder”, direcionado ao ombro mais distante do marcador, permitindo que o recebedor proteja a bola oval com o corpo – como um lance de pivô no futebol. Touchdown.

Quantas vezes não assistimos no futebol a uma equipe trocando passes, circulando de lado a outro e assim induzindo a marcação para direcionar-se toda até um setor, quando então vem a inversão longa que pega lá no lado contrário à origem da jogada um atacante no 1×1, sem cobertura próxima, e na iminência de entrar na área, bastando um drible ou uma condução em velocidade para definir em gol?

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Para encerrar, estes bloqueios matadores realizados pelos Jacksonville Jaguars na surpreendente vitória fora de casa sobre os Pittsburgh Steelers. O quarterback está “encostado na parede”, lá no início do próprio campo. Mas, graças a 5 bloqueios realizados na esquerda – um deles com o right guard deslocando-se até seu lado contrário – abre-se uma avenida para o corredor atravessar 90 jardas sem ser incomodado.

É algo que pode (e já é, em muitos times) ser utilizado em lances de bola parada no futebol, seja contra marcações individuais, seja por zona (bloqueadores abrem espaço para o alvo da batida atacar a bola sem ser tocado):

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Touchdown de ponta a ponta lembrando que o futebol americano é um esporte altamente tático, extremamente complexo e acima de tudo COLETIVO. Todos cumprem seu papel na jogada, como operários, sem ambicionar brilho individual acima daquele que vai levá-los a pontuar.

Guardiola e a “saída de 3” em 2017

Assistir às equipes treinadas por Guardiola é acompanhar uma diversidade infindável de cenários – embora sempre alicerçados em dominação, controle, imposição e obsessão pelo gol. A partir desta ideia ele molda suas equipes conforme as características dos jogadores disponíveis, o estudo do adversário, as circunstâncias do confronto…conforme o contexto, enfim. Não é refém de uma distribuição rígida – até porque recorre a modelos híbridos, permitindo ao espectador identificar diferentes desenhos nas fases ofensiva e defensiva.

Nesta temporada ele tem partido de duas plataformas. Em 9 jogos oficiais foram 6 com posicionamento inicial em 4-1-4-1 (ou 4-3-3 para os puristas); noutros 3 confrontos ele aplicou o 3-1-4-2 (ou 3-5-2, como queiram) – sistema preterido a partir da 5ª rodada da Premier League.

O mais interessante para mim, entretanto, não é a alternância entre dois sistemas iniciais, mas sim a semelhança entre a organização ofensiva destas duas plataformas: sempre partindo da “saída de 3” com um jogador à frente, formando praticamente um losango para a construção das jogadas – a primeira fase da posse de bola.

Este relatório produzido pela empresa Wyscout apresenta o 3-1-4-2/3-5-2 utilizado na estreia fora de casa contra o Brighton:

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São 3 zagueiros, 1 volante, 2 meias, 2 alas abertos e 2 atacantes centralizados; já no confronto mais recente, contra o Chelsea, a base foi o 4-1-4-1/4-3-3 – a tradicional linha defensiva de quatro com 2 zagueiros e 2 laterais, 1 volante, 2 meias, 2 extremos/pontas e um atacante de referência.

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Partindo do 3-1-4-2, a construção com 3 homens não exige nenhum movimento. Na prática, os jogadores mantêm seus posicionamentos iniciais, apenas projetando-se no campo adversário – ainda mais sendo este mais fraco, e conhecedor de suas limitações ao permitir que Guardiola praticasse o jogo de imposição ofensiva e absoluto controle da posse no campo de ataque:

ataque_brighton

Os 3 zagueiros estão no ataque, tendo o volante Fernandinho à frente (como se fosse um losango para a saída de bola); os 2 alas estão em amplitude máxima simultânea (bem abertos, “pisando na linha” ao mesmo tempo) e em profundidade (adiantados, na linha dos atacantes).

Além disso, os 2 meias e os 2 atacantes projetam-se, formando um quarteto de intensa movimentação no corredor central, entre as linhas, alternando quem recua para buscar, quem ataca a profundidade (infiltração), quem aproxima do ala com a bola para criar triângulos, enfim…aplicando com intensidade os princípios do jogo ofensivo já conhecidos pelos frequentadores do blog.

Parêntese ao assunto do post (a semelhança entre a saída de 3 partindo de dois sistemas iniciais diferentes): olhem a tensão que provoca sobre o adversário atacar praticamente com uma linha de 6 jogadores em profundidade, tendo 2 abertos e 4 centralizados – ainda por cima com a qualidade técnica e a inteligência de Silva, De Bruyne, Gabriel Jesus e Aguero. É caso para os zagueiros pedirem adicional por insalubridade!

Na prática, como já disse, todos estão nas suas regiões de atuação delimitadas pelo sistema tático. Agora vejam a fase de construção da organização ofensiva contra o Chelsea, partindo do 4-1-4-1:

ataque_chelsea

Também uma saída de 3 (o zagueiro Stones está fora da imagem); e, ao contrário do jogo contra o Brighton, envolvendo uma complexa movimentação sincronizada:

  • o lateral-direito Walker fecha na linha do zagueiro Otamendi para ser o 3º homem, com Stones por trás deles;
  • o lateral-esquerdo Delph (meia de origem) fecha pela frente do volante Fernandinho, na linha do meia De Bruyne;
  • o meia-esquerda Silva adianta-se e centraliza;
  • os 2 extremos (Sterling e Sané) são os responsáveis pela amplitude máxima simultânea, atuando extremamente abertos e adiantados, na linha do atacante de referência Gabriel Jesus.

Na prática, com a bola o City saiu completamente da base em 4-1-4-1 para organizar-se no velho 3-4-3 com meio-campo em losango da escola holandesa, muito utilizado na década de 90 por Barcelona e Ajax com Cruyff e Van Gaal, por exemplo, e mais recentemente lembro o Atlético Nacional de Osório fazendo o mesmo, assim como La U e Seleção do Chile com Sampaoli, e diversas equipes de Marcelo Bielsa.

Contra um time mais forte, ele conta com menos jogadores em profundidade sobre a linha defensiva adversária, mas compensa com mais jogadores no corredor central, controlando o setor sem perder a agressividade. Na amplitude, ao invés dos alas do 3-5-2, estão os extremos – mais incisivos e com maior capacidade de vitória pessoal.

Se a gente for “viajar na maionese geométrica” podemos ver 3 sucessivos losangos nesta organização ofensiva: o inicial, formado pela saída de 3 mais Fernandinho; o intermediário, com Fernandinho, Delph e os dois meias; e o final, com Silva, os extremos e o atacante.

Escrevo apenas para ilustrar que na análise tática os sistemas iniciais são o que o próprio nome diz – pontos de partida, apenas – e que o relevante é identificar movimentos, sincronias e padrões de comportamento. Afinal, são dois sistemas diferentes, com jogadores de características diferentes, que levam ao mesmo propósito na fase de construção – a saída de bola.

Já na organização defensiva as semelhanças acabam. Do 3-5-2 o City variou para defesa em 5-3-2 contra o Brighton, enquanto contra o Chelsea sem a bola a equipe retornava ao posicionamento inicial em 4-1-4-1, como se percebe nas imagens abaixo:

defesa_brighton.png

defesa_chelsea.jpg

Encerro lembrando que o mesmo City, com o mesmo Guardiola – na temporada passada – e partindo do mesmo 4-1-4-1 apresentou-nos uma saída de 3 diferente (já falei disso no blog noutra vez): ao invés de fechar um lateral como o 3º homem, recuou o volante central, fechou os 2 laterais como armadores tendo os 2 meias à frente, mantendo extremos em amplitude máxima – um 3-4-3 com meio-campo em quadrado (ao invés de losango), voltando no tempo ao W.M de Herbert Chapman no Arsenal dos anos 30:

guardiola_dois

Guardiola, enfim. Sempre uma aula, e uma inspiração.

Pressão alta e agressividade no 4-3-1-2

Em 2016, buscando alternativas táticas ao 4-2-3-1 usual, o então técnico do Grêmio – Roger Machado – encomendou ao setor de análise de desempenho um estudo sobre o 4-3-1-2 (também conhecido por 4-4-2 losango). A ideia era produzir análises em vídeo dos comportamentos ofensivos e defensivos de diversas equipes, prospectando ideias que pudessem inspirar a construção de um novo modelo de jogo.

Produzimos análises do Chelsea de Mourinho, do Liverpool de Brendan Rodgers, do Hoffenheim de Markus Gisdol…entre outros. Mas o modelo que mais chamou a atenção já era conhecido, e muito: o do Rosario Central, que poucos meses antes havia eliminado o Grêmio da Libertadores.

Ressalto, antes de tudo, que não há conflito em compartilhar com os amigos tais informações pois não são sigilosas ou confidenciais, servindo apenas como objeto de estudo para aqueles que frequentam o blog ou minhas redes sociais em busca de subsídios para a evolução no entendimento de conceitos da teoria tática. Além disso, esta alternativa não durou mais que dois ou três jogos, depois dos quais Roger reconstituiu o 4-2-3-1 habitual.

Estrutura versátil
Este Rosario Central de Eduardo Coudet poderia ser descrito de várias formas em seu posicionamento inicial. Mantinham-se a linha defensiva e o tripé central formado por um primeiro volante e por dois carrilleros natos (podemos chamá-los, em português, de médio-apoiadores).

Mas o trio ofensivo assumia mais de uma cara: podia ser um 4-3-1-2, com enganche e dois atacantes; 4-3-2-1, a Árvore de Natal de Carlo Ancelotti, com dois meias-atacantes atrás do centroavante; ou até mesmo 4-3-3. Tudo isso dentro do mesmo jogo, com os mesmos jogadores, em função de circunstâncias da partida. Convencionamos chamar de 4-3-1-2 por considerarmos ser este o ponto de partida mais frequente para os movimentos do trio ofensivo.

Torre de marcação
Percebeu-se que o 4-3-1-2 e suas consequentes variações já citadas é um sistema propício para a criação de uma torre de marcação, concentrando seis jogadores escalonados em pelo menos quatro linhas – o que facilita movimentos de subida de pressão. Ao contrário de sistemas com extremos ou pontas, a concentração de seis jogadores sucedendo-se em linhas que poderiam ser desdobradas em 1-2-1-2 leva naturalmente a equipe a um ponto mais alto do campo adversário.

torre

Pressão sobre a bola e agressividade
Além da questão tática-estrutural, também devemos levar em consideração elementos comportamentais – jogadores agressivos, intensos e dinâmicos, ideais para a afirmação de comportamentos defensivos deste porte. O que fica evidente não apenas na análise das imagens, mas também dos números:

Em dois indicadores de performance monitorados por nós durante a Libertadores 2016, descritivos de agressividade na marcação, o Rosario Central estava em 2º lugar entre as aproximadamente 40 equipes (somando a fase prévia), ficando em ambos atrás apenas da Universidad de Chile – ainda com resquícios do modelo de jogo implementado por Jorge Sampaoli e preservado por seus sucessores/seguidores:

  • Na REC 5 (recuperação de bola em até 5 segundos após a perda, independentemente do local do campo) o indicador do Rosario Central era de 13,55%, perdendo apenas para os 16,08% da U de Chile;
  • Na PRE (quantidade de passes permitidos ao adversário na saída de bola) o indicador do Rosario Central era de 5,56 passes, atrás apenas dos 4.54 passes permitidos pela U de Chile até a realização de alguma intervenção;

Eram indicadores resultantes desta combinação de estrutura defensiva em torre alta e de comportamento agressivo dos jogadores – entre eles os apoiadores Aguirre, Montoya e Colmán, e os atacantes Cervi, Marco Rúben e Herrera.

Todos muito agressivos nas abordagens ao portador da bola e no fechamento às linhas de passe próximas. Além das facilidades proporcionadas pelo escalonamento das linhas de marcação a partir do 4-3-1-2, os jogadores acompanhavam a trajetória da bola em alta velocidade e abordavam os adversários buscando roubar a bola, e não apenas encurtando espaços com os pés cravados no chão. Para eles não bastava aproximar-se e parar, mas sim atacar o adversário na intenção de roubar/induzir ao erro/matar a jogada, com alta contundência:

pressao

agressividade

Em geral estes movimentos coordenados de subida de pressão com alta agressividade nas abordagens e no encurtamento das linhas de passe partiam de duas possibilidades: qualquer recuo de bola pelo adversário (jogadores acompanham a trajetória da bola) ou o simples comando do primeiro volante Musto, que a tudo orquestrava como um homem da sobra pela frente da linha defensiva. Nota-se na imagem abaixo o volante Musto com o braço estendido, ordenando a subida de seus companheiros, que prontamente atendem a um dos gatilhos da subida de pressão:

comando

Encaixes
Estas subidas de pressão não tinham preocupação com eventuais distanciamentos entre o bloco ofensivo e o bloco defensivo, ambos formados por 5 jogadores cada; os médio apoiadores, meias e atacantes poderiam atacar a saída adversária enquanto o primeiro volante e os defensores ficavam mais recuados.

O que os tranquilizava eram os encaixes muito próximos, buscando o total fechamento das linhas de passe. Ao mesmo tempo o portador da bola estava sob forte pressão de um ou até dois jogadores, induzido a acelerar a tomada de decisão e a diminuir o percentual de acerto técnico no gesto/execução da ideia elaborada às pressas, e ainda por cima sem linhas de passe abertas – tanto no centro de jogo como em profundidade:

encaixes

encaixes_dois

Princípios defensivos
Pode-se pensar que os encaixes e eventuais distanciamentos entre dois blocos resultavam em desorganização ou em falta de princípios, mas era o contrário. Podem conferir no capítulo Organização Defensiva aqui do blog o respeito a muitos dos princípios elencados pelo professor Rodrigo Leitão, entre eles flutuação, direcionamento, bloco, compactação e recuperação.

A rápida mudança de comportamento com abordagens em alta velocidade por uma torre de cinco jogadores muito próximos uns dos outros proporcionava muitos momentos de superioridade numérica do Rosario Central no centro de jogo mesmo que dentro do campo adversário. Portador pressionado por um ou dois jogadores, linhas de passe próximas fechadas, coberturas próximas e linhas de passe em profundidade também fechadas.

superioridade

Acima, vemos 5 jogadores fechando-se sobre 4 adversários, uma linha de passe próxima fechada, duas linhas de passe em profundidade fechadas, e o primeiro volante fazendo a cobertura – sobrando pela frente. Praticamente o mesmo acontece abaixo, após um movimento muito frequente do bloco ofensivo: caso o adversário conseguisse ultrapassar a pressão com um passe para a frente, todos estes jogadores recuavam e seguiam a trajetória da bola, “estrangulando” quem a recebia:

superioridade_dois

estrangulamento

Zona de pressão
A dupla de atacantes, propícia para este modelo de jogo, auxiliava na manutenção da bola na zona de pressão. Em geral eles fechavam as linhas de passe de retorno, e acabavam se dirigindo cada vez mais ao centro de jogo (o raio de ação mais próximo do portador), impedindo que a bola pudesse sair dali e devolvendo-a para a zona de pressão:

zona_pressao

Transição agressiva
Além disso, em momentos de perda da bola os jogadores que estavam atrás da linha do portador em geral corriam para a frente, e não para trás. A regra não era recompor as linhas e temporizar, mas sim manter o centro de jogo congestionado e impedir a progressão adversária imediatamente. Na imagem abaixo os três jogadores sinalizados iniciam movimentos para a frente a partir da perda da posse, recuperando-a rapidamente ainda na intermediária de ataque.

zona_pressao_dois

Tudo isso para descrever comportamentos possíveis a partir da estrutura 4-3-1-2 e suas consequentes variações, sem juízo de valor. Poderia ser qualquer outra equipe utilizada como exemplo, portanto, o que vale é a análise dos comportamentos, e não do caso específico. Abaixo está o vídeo que serviu de base para os frames que ilustram o post:

Pressão alta e intensidade no 4-3-1-2 from Eduardo Cecconi on Vimeo.

Juventus e o 3-4-3 que defende em duas linhas

Não é novidade o que faz o técnico Massimiliano Allegri com esta encantadora Juventus, finalista da Champions League 2016/17 após vencer o Monaco nas duas partidas semifinais. Mas é interessante estudar os movimentos ofensivos e defensivos de um modelo de jogo certamente inspirado no legado de Antonio Conte, seu antecessor.

À época, Conte partia de um 3-1-4-2 diferente do 3-4-3 de extremo sucesso conduzido por ele no Chelsea atualmente – análise aprofundada, com vídeo, clicando aqui. O posicionamento inicial com a bola era claro, e pelo protagonismo no futebol italiano, dava-se com alta ocupação do campo ofensivo – como vemos abaixo:

juve_um

O princípio ofensivo de amplitude máxima e profundidade simultâneas pelos alas, assim como faz hoje no Chelsea, também acontecia na Juve de Conte:

juve_sete

No entanto, Allegri mantém na Juve 2016/17 um comportamento defensivo que Antonio Conte não utiliza como padrão prioritário neste Chelsea: apesar de partir de um sistema com trio defensivo, o posicionamento sem a bola se dá em duas linhas de quatro. Primeiro, vejamos como Conte fazia na Juventus – ala do setor ataca a bola pela frente, alinhando-se ao tripé de meio-campo, enquanto o ala oposto bascula por trás do trio defensivo, que direciona-se ao setor atacado, formando as duas linhas de quatro:

juve_dois

No Chelsea nem sempre isso acontece. Partindo do 3-4-3, a equipe inglesa por vezes defende-se em duas linhas de quatro, mas por vezes defende-se em 5-4-1, com os dois alas na linha do trio defensivo, deixando a primeira abordagem no setor atacado para o extremo/atacante. Abaixo, as duas versões defensivas do Chelsea de Conte:

balanco_um

inicial_def

Partindo de um 3-4-3 que pode ser desdobrado em 3-4-2-1, se assim quiserem, Allegri estabelece como padrão prioritário sempre defender em duas linhas de quatro. Pelo menos foi o comportamento defensivo apresentado na vitória de 2 a 1 sobre o Monaco, que confirmou a classificação à final da liga europeia contra o Real Madrid.

inicial

Organização Defensiva
Não há um balanço entre ala do setor atacado pela frente, e ala oposto por trás dos zagueiros. Em geral, a combinação é sempre com o ala direito Dani Alves pela frente (independendemente da posição da bola), marcando como extremo, enquanto o ala esquerdo Alex Sandro alinha-se ao tripé de zagueiros, empurrando o defensor Barzagli para a “lateral-direita” da formação defensiva.

Destaca-se, ainda, o grande envolvimento tático do atacante Mandzukic, que se torna o extremo-esquerdo da fase de organização defensiva, também sem importar o posicionamento da bola, liberando Dybala para a faixa mais avançada com Higuaín. São vários os momentos-flagrantes deste posicionamento padronizado da Juve sem a bola:

linha_um

linha_Dois

linha_tres

linha_quatro

E, reiterando, a se destacar o grande comprometimento do Mandzukic, que em função do encaixe setorizado no setor da bola, recua com seu alvo até a linha dos zagueiros, enquanto Alex Sandro encurta/persegue seu alvo entrelinhas, e Dani Alves se mantém à frente da defesa, no lado oposto:

mandzu

Vale ressaltar também como o direcionamento ao lado atacado é agressivo. Mantém-se a estrutura em duas linhas, mas com forte estreitamento (compactação em largura), “estrangulando” o portador da bola e as linhas de passe próximas com encaixes encurtados e consequente superioridade no setor, induzindo o adversário a manter a bola nesta zona congestionada até a recuperação pela Juventus:

segundotempo

Organização Ofensiva
Já os processos ofensivos são muito mais próximos daqueles observados na Juve e no Chelsea de Antonio Conte. Principalmente no que diz respeito à amplitude e profundidade simultâneas dos alas, hoje os brasileiros Dani Alves e Alex Sandro.

Em geral, a Juventus de Allegri organiza-se ofensivamente em 3-2-5, com o trio de zagueiros bem aberto para manter amplitude no campo defensivo durante a fase de construção (o que permite circular a bola horizontalmente sem exigir o retorno dos alas), a dupla de volantes pela frente para receber o primeiro passe e buscar opções – por vezes contando com a presença de Dybala como um terceiro organizador – e buscando chegar ao terço ofensivo com 5 jogadores alinhados (alas abertos e adiantados, e um trio de atacantes com alta mobilidade no corredor central).

Construção – zagueiros abertos, dois ou três jogadores atrás da primeira linha de pressão adversária dando opção de passe:
construcao

Posicionamento em 3-2-5 – permitindo obviamente movimentações e trocas que oferecem novas configurações. Nota-se ainda que Dani Alves por vezes não mantém a amplitude na direita, atacando espaços internos, como fazia no Barcelona, talvez por iniciativa pessoal:
325

325_dois

Transições rápidas – alas em amplitude, mobilidade no corredor central, progressão em bloco (rápido desprendimento de pelo menos 7 jogadores em velocidade, atacando espaços):
bloco

Ocupação do campo ofensivo – com os alas em amplitude e profundidade, tendência é “empurrar” primeira linha de pressão adversária, abrindo espaço para a progressão dos zagueiros, que oferecem linhas de passe de retorno – também abertos – garantindo a manutenção da posse de bola e a circulação horizontal:
ocupacao

chiellini

Ocupação da área – o mesmo acontece no Chelsea de Conte…com alas em amplitude máxima, dando profundidade simultânea, enquanto zagueiros e volantes circulam a bola horizontalmente por trás, o trio ofensivo fica mais próximo da área. Isto permite que eles ingressem na zona de finalização em bom número, pela proximidade, e por não precisarem flutuar longe da área durante a fase de criação/preparação:

area

Para encerrar esta análise, abaixo está o vídeo do qual saíram estes frames todos:

Juventus 2016/17 – modelo de jogo from Eduardo Cecconi on Vimeo.

Padrões de construção da Seleção Brasileira de Tite

Há algumas semanas publiquei este vídeo no Twitter, e propus um breve debate, com a análise de movimentos elaborados pelo técnico Tite na fase de construção da Seleção Brasileira. À época, chamou a atenção o sentido de unidade explícito pela equipe, atraindo nove jogadores para as dinâmicas de passe no campo defensivo – o que proporcionava desvencilhar-se da pressão adversária; e, ao mesmo tempo, ultrapassada a pressão (no caso, dos uruguaios) em poucos segundos o Brasil contava com nove jogadores no campo ofensivo.

Resgato o assunto porque nesta semana viralizou no Twitter uma postagem com os mesmos princípios e sub-princípios revelados pelo Napoli, também saindo de uma intensa pressão adversária com dinâmicas de passe contando com pelo menos oito jogadores à frente da própria área – presume-se (o vídeo é curto) – que a progressão ao campo de ataque tenha se dado em bloco, da mesma forma que o Brasil.

Vocês podem conferir a dinâmica napolitana no link abaixo:

https://twitter.com/amcgovern25/status/861186968838955008/video/1

E o vídeo com a construção apoiada do Brasil está aqui:

Saída de bola da Seleção Brasileira from Eduardo Cecconi on Vimeo.

Mecanismos do 3-4-3 – possível tendência em desenvolvimento

Em geral as Copas do Mundo são eventos disseminadores de tendências táticas, principalmente exportando ideias para locais onde a evolução é mais lenta. O exemplo mais recente é o torneio de 2010 do qual, mesmo afirmado na Europa há uma década, o 4-2-3-1 partiu rumo à quase unanimidade.

Quatro anos depois Holanda, Costa Rica e Chile vieram à Copa sediada no Brasil apresentando versões interessantes de sistemas com três zagueiros – Sampaoli mais ofensivo com La Roja, enquanto holandeses e costa-riquenhos apresentando o 5-4-1 na fase defensiva.

Não chamou tanta atenção, até por não ser novidade – Conte à época fazia algo parecido na Juventus. Mas agora o treinador italiano empilha vitórias na Premier League levando ao Chelsea a base híbrida de três zagueiros com a qual fora bem sucedido na própria Juve e na seleção italiana.

Além das Copas, outro ponto disseminador de ideias é: resultado. E as campanhas recentes de Conte começam a influenciar equipes da Inglaterra, da Itália e até do Brasil. Estaríamos assistindo ao próximo capítulo da linha do tempo tática? O 5-4-1 / 3-4-3 de Conte? Autor do livro “A Inversão da Pirâmide” recentemente traduzido pelo jornalista André Kfouri, o também jornalista Jonathan Wilson, disse em entrevista à Zero Hora que não enxerga o modelo de jogo de Conte como algo inovador. Mas pode ser que ele mude de ideia.

Sistema híbrido
Já escrevi como os sistemas táticos têm se tornado cada vez mais híbridos – formações muito distintas entre as fases defensiva e ofensiva. E Conte está surfando nesta vanguarda. Com a bola a equipe parte do 3-4-3, mas sem a bola parte do 5-4-1:

inicial_def

inicial_of

Linha de 5 ofensiva
As variações na estrutura inicial, entretanto, não me parecem o principal aspecto do modelo de jogo do Chelsea. É interessante ver como a equipe sai da defesa em linha de 5 para o ataque em linha de 5.

Invariavelmente o Chelsea faz a reinversão da pirâmide, saindo do 5-4-1 para o 3-2-5: os dois alas oferecem amplitude e profundidade simultâneas, ambos abertos e espetados sobre a defesa adversária, empurrando o trio ofensivo para o corredor central, deixando os volantes por trás desta linha e mantendo o trio defensivo ao mesmo tempo aberto e adiantado – muitas vezes com dois zagueiros no campo de ataque:

325_um.jpg

Esta estrutura favorece o ataque posicional, facilitando a circulação de bola devido à permanência dos alas na amplitude e dos volantes no retorno. Define o lado, tenta progredir, e em caso de bloqueio, circula por trás e chega ao outro lado – ou faz a inversão longa. Enquanto isso, o trio de zagueiros também abre, proporcionando que a circulação se dê desde a primeira linha caso seja necessário, encontrando mais de uma alternativa para trocar o corredor e manter a posse.

Além da circulação facilitada, a linha de 5 ofensiva cria grande tensão sobre os zagueiros adversários, aproximando o trio de atacantes sobre a dupla de zagueiros.

O mais interessante é ver o caos provocado pela ausência de extremos – função muito valorizada nos sistemas em duas linhas, principalmente no 4-2-3-1. No Chelsea são Hazard e Pedro. Eles não jogam abertos. Atuam em uma zona quase central, num ponto-cego entre laterais, zagueiros e volantes adversários.

Na entrevista já citada à Zero Hora, Jonathan Wilson endossa esta observação:

“Esses dois jogadores abertos no trio de ataque são muito difíceis de marcar. Não ficam exatamente no meio, então é complicado saber de quem é a responsabilidade de vigiá-los”.

Os zagueiros já estão preocupados com Diego Costa; se buscarem Pedro e Hazard, ficam em inferioridade numérica. Se os laterais os acompanham, abrem os lados para os alas que estão espetados, forçando que os extremos desçam e formem uma linha defensiva de 6 jogadores para compensar. E se os volantes se ocupam deles, deixam o meia e o centroavante sobrecarregados com os dois volantes e os três zagueiros na construção em franca superioridade. O que fazer?

Reinversão da pirâmide
Embora este 3-4-3 se transforme em um 3-2-5 na fase ofensiva, muitas vezes um dos zagueiros se adianta à linha dos volantes, aumentando a superioridade no corredor central e incrementando ainda mais as possibilidades de circulação e de ataque posicional. Forma-se então o 2-3-5, a famosa Pirâmide consagrada na obra de Jonathan Wilson.

Na maioria das vezes é Azpilicueta quem se apresenta pela direita (lateral de origem utilizado como zagueiro), embora Cahill não esteja proibido de fazer o mesmo na esquerda. O espaço surge exatamente pela tensão que a linha ofensiva de 5 jogadores provoca nos adversários – empurra os extremos rivais para os lados da área e abre grande espaço ao avanço de um dos zagueiros. Este princípio deu origem inclusive a pelo menos dois gols de cruzamentos da direita pelo Azpilicueta: ataca o espaço, recebe livre e coloca na área:

235_um

235_dois

Esta é uma estrutura muito utilizada por Guardiola em todas as suas equipes. Encontrei em meus arquivos duas imagens, uma do Bayern e outra do City – ambas partindo do 4-3-3 para formar o 2-3-5 na fase ofensiva.

Alteram-se apenas os movimentos que levam a esta formação: enquanto Conte prefere alas na amplitude máxima, Guardiola quer os extremos na amplitude, deixando os laterais na linha de organização (na imagem do City podemos considerar muito mais um 3-2-5 pelo posicionamento do volante Fernandinho próximo aos zagueiros):

guardiola_um

guardiola_dois

Área ocupada
Conte aparenta estar certo quando pensa o jogo com os laterais na amplitude, e não com os extremos. Se fizesse o contrário, teria Hazard e Pedro – seus jogadores mais decisivos em 1×1 e finalização – distantes do gol. Colocando os alas em amplitude, ele aproxima Hazard e Pedro do centroavante Diego Costa e entre si, formando um trio de grande mobilidade e agressividade – como eu já disse, provocando tensão e caos nos zagueiros.

Outra beneficiada deste princípio é a ocupação da área: estando os três atacantes próximos uns dos outros, e no centro, em iminência de cruzamentos eles podem atacar rapidamente a área. Muitas vezes, ganhando a companhia do ala oposto (segunda imagem abaixo), dando ao ala com a bola entre 3 e 4 alvos para o cruzamento se transformar em assistência:

area_ocupada

area_dois

O mesmo princípio – amplitude máxima com os alas ao mesmo tempo – já era aplicado na Juventus. A diferença é o sistema inicial de base (um 3-1-4-2 que muitas vezes se transformava em 3-4-3 com meio em losango, pelos recuos de Tévez, ao contrário do 3-4-3 com meio em linha do Chelsea). Entretanto, na Juve a linha ofensiva acabava sendo de apenas 4 jogadores – alas abertos, centroavante e mais um por dentro, com os demais na área de criação central logo atrás:

juve_um

juve_sete

“Torre defensiva”
A primeira vez que entrei em contato com o conceito de “torre” foi na leitura do excelente livro “La Pizarra de Simeone”, explicando o modelo de jogo do treinador argentino no Atlético de Madri. Lá ele conta que trabalha com a organização em torre na fase ofensiva, mantendo 8 jogadores no corredor central, escalonados em pares – dois zagueiros, dois volantes, dois extremos centralizados e dois atacantes fechados – deixando os lados exclusivamente para os laterais em amplitude simultânea. Ele, inclusive, atribui estas ideia ao futebol brasileiro, principalmente pelo avanço agudo dos laterais:

simeone

No Chelsea, entretanto, a torre também é defensiva. Sem a bola, Conte tem por princípio que a contenção sobre o portador da bola seja feita prioritariamente pelo ala do setor, subindo seu posicionamento e realizando o combate aberto, o que mantém o ponta do setor na cobertura interna:

balanco_um

balanco_tres

balanco_dois

Este princípio acaba distribuindo a equipe muitas vezes em duas linhas de quatro sem a bola, porque os três zagueiros fazem a basculação na direção do lado atacado, trazendo consigo o ala oposto na primeira linha, enquanto o atacante do setor fica por trás do ala que ataca a bola e se alinha aos volantes. O mesmo acontecia na Juventus, que também trazia o ala para atacar a bola e o ala oposto para a basculação com os zagueiros:

juve_dois

Mas este 5-4-1 em duas linhas na fase defensiva, seguindo o princípio da contenção com o ala aberto (e não com o “extremo”, que permanece fechado) não apenas forma duas linhas como também apresenta uma torre quase inviolável no corredor central.

Pois vejam…se os dois atacantes marcam prioritariamente fechados (um na cobertura do ala que ataca a bola, o outro bem fechado para impedir a circulação), eles acabam formando um quadrado com os dois volantes logo atrás, sucedendo os zagueiros: uma torre, que pode ter 6 ou 7 jogadores – caso um dos zagueiros tenha saído em cobertura encaixada para os lados, são 6; caso contrário são 7, conforme as imagens abaixo:

torre_dois

torre_um

Não por acaso, um dos principais entusiastas deste modelo holandês-bielsista de variações dos três zagueiros – Jorge Sampaoli – já fez isso na seleção do Chile, e provavelmente deve continuar fazendo no Sevilla. Abaixo, encontrei nos meus arquivos este frame de uma organização defensiva com encaixes individuais em todos os setores do Chile contra a Espanha, formando uma torre central:

chile

Variação defensiva
Alguns adversários perceberam que Conte prefere seus alas atacando a bola pelo lado para manter esta torre superpovoando o corredor central e impedindo a circulação dos rivais – induz a saída pelo lado e ali cria um brete de difícil saída. E o que fizeram? Jogaram iscas aos alas do Chelsea, também com amplitude simultânea, impedindo-os de subir a pressão sobre o portador da bola.

Em geral, isso se conquista espelhando o 3-4-3 de Conte – já vi Tottenham, City e West Ham fazerem isso nesta temporada – provocando uma sucessão de 1×1’s que mantêm os alas do Chelsea na linha defensiva.

Nestes casos há uma variação, e quem aborda o portador é o atacante do lado, mantendo os alas na primeira linha e marcando em 5-4-1, o que diminui a vantagem no corredor central, desfazendo a “torre”:

balanco_quatro

balanco_cinco

Atalho no contra-ataque
O 5-4-1 que vira 3-4-3 que vira 2-3-5 (ou 3-2-5) proporciona também constantes subidas de pressão encaixadas, sem ser um sistema defensivo e reativo, como Holanda e Costa Rica fizeram com seus 5-4-1’s na última Copa do Mundo:

pressao

Tanto em bloco alto, pressionando com encaixes e adiantando zagueiros, como também em bloco médio, quando o Chelsea consegue executar o princípio de contenção com o ala, os contra-ataques são muito perigosos. Afinal, se os extremos não estão abertos e recuados perseguindo os laterais adversários até lá embaixo, mas sim estão centralizados e à frente dos blocos de marcação, consequentemente o caminho para o campo adversário é mais curto.

Com isso, Hazard e Pedro ao mesmo tempo se desgastam menos para marcar (apenas protegem os alas em coberturas centrais, fecham as possibilidades de retorno pelo meio e adiantam pressão) e ainda menos para contra-atacar. Estão próximos do campo adversário, em região central, e próximos um do outro, chegando em melhor condição no momento da transição ofensiva:

transicao

transicao_dois

Discordo de Jonathan Wilson quando ele subdimensiona a importância das ideias de Conte para a evolução tática no futebol. Ele mesmo era autor de uma excelente coluna no jornal inglês The Guardian, chamada ” The Question”, na qual lançava ponderações sobre conceitos que soavam vanguardistas e pioneiros – possíveis tendências, portanto.

Acredito que caberia num “The Question”: seria o 3-4-3 de Conte o próximo capítulo na linha do tempo tática?

Quem sabe. Afinal, é um sistema que inverte e desinverte a pirâmide no mesmo jogo – defende em linha de 5 e ataca com linha de 5 – encontra soluções para alguns paradigmas que estavam na zona de conforto dos enfrentamentos de extremos x laterais, e começa com resultados e bom desempenho a se disseminar por aí.

Vale ficar de olho. Abaixo, o vídeo que serve de base para os frames do post:

Modelo de jogo do Chelsea – temporada 16/17 from Eduardo Cecconi on Vimeo.