Analogias táticas entre futebol e NFL

Escrevi há poucos anos, nas páginas do saudoso Impedimento, uma analogia entre princípios táticos do futebol e do futebol americano. Afinal, são dois esportes coletivos de progressão no campo adversário, contando com 11 jogadores de cada lado, guardadas as grandes diferenças nas regras e nas medidas do campo (105×68 contra 109×49, respectivamente).

O principal contexto a ser levado em consideração, para mim, é o fracionamento das jogadas no futebol americano – todos se posicionam para o snap (ponto de partida da bola oval), movimentam-se a partir dele,e reconfiguram-se assim que a progressão é interrompida. Já no futebol,  as jogadas sucedem-se e as paradas se dão apenas devido a infrações ou quando a bola cruza as extremidades (saídas ou gols).

Assimilada esta diferença – e seu impacto nos movimentos – ainda assim podemos extrapolar conceitos muito aplicados nos jogos da NFL para o futebol. Se quiserem recordar, entre outros posts neste aqui falei sobre os princípios do nosso futebol, desenvolvidos pelo professor Israel Teoldo.

O que mais me atrai ao assistir às partidas da NFL é a leitura dos espaços, com rotas de recebedores planejadas para atrair marcadores, induzir adversários ao erro e assim abrir espaços para a progressão do alvo principal do quarterback. Um princípio bastante útil no futebol, principalmente sul-americano, onde se praticam as marcações por encaixe (seja setorizado, seja individual): mais de um jogador se movimenta, trazendo consigo o seu perseguidor, enquanto o portador da bola faz a leitura do melhor espaço que se abriu diante desta sincronia de movimentos; escolhido o alvo, executa o passe – seja em profundidade, seja entrelinhas – para aquele que se movimentou na direção do espaço mais relevante, enquanto os marcadores se batem feito baratas.

Vejam como os times da NFL trabalham estes conceitos de mobilidade para atrair marcadores em várias frentes, indução ao erro, leitura de espaços e penetração, entre outros.

No último domingo a ESPN transmitiu um jogaço entre Cowboys e Packers, em Dallas, vencido pelos visitantes no último lance. Até lá, os QBs Dak Prescott (Dallas) e Aaron Rodgers (Green Bay) proporcionaram um espetáculo de inteligência de jogo e tomada de decisão, associados – claro – a companheiros com as mesmas virtudes e ao imenso trabalho tático das comissões técnicas.

Comecemos por esse TD dos Cowboys. Na 1ª figura vemos os Packers marcando em 4-3 com nickel (quatro na linha de scrimmage, três linebackers na secundária – um deles marcando individual o recebedor no slot), mais dois cornerbacks individualizados nas pontas e dois safetys na sobra. Cowboys atacando com 3 recebedores, um tight end para bloquear e um running back ao lado do lançador.

Feito o snap, na 2ª figura, Dak Prescott recorre ao playaction (quando o quarterback finge entregar a bola ao running back, corredor que vem detrás). Este movimento induz os defensores a imaginar que a jogada será terrestre – e os safetys decidem adiantar-se para bloquear a corrida.

Mas Prescott não entrega a bola ao corredor. Ao perceber que atraiu a defesa inteira para a linha de scrimmage, identifica o grande espaço aberto na red zone – para onde dirige-se o corredor que saiu da posição slot (“menos aberto” que os dois wide receivers “ponteiros”). E aí faz o passe para um jogador que, graças ao playaction – e à leitura equivocada dos defensores – está no 1×1 e em vantagem física (mais alto e mais rápido) que seu marcador:

espaco_um

Em outro TD os Cowboys novamente atraíram a marcação dos Packers para a zona central, mesmo sem o uso do “playaction”. A jogada chamada posicionou 8 jogadores na linha de scrimmage, mais o running back recuado. Notem que os 2 safetys (os homens da “sobra”) da defesa distanciam-se do lado direito do ataque dos Cowboys – o “free safety” está recuado, do centro para a esquerda adversária, enquanto o “strong safety” repete o erro de leitura e adianta-se para combater uma jogada terrestre.

O que faz o QB Dak Prescott? Assim que o safety se adianta, faz o lançamento às costas do cornerback adversário, para um recebedor no 1×1, sem cobertura próxima, com grande espaço para atacar a profundidade e em vantagem física – mais veloz e mais alto:

espaco_dois

Duas vezes algozes, entretanto, os Cowboys foram vitimados pelo mesmo princípio logo depois, quando foi a vez dos Packers lançarem iscas aos marcadores para abrir uma situação de 1×1 pelo lado.

O QB Aaron Rodgers também faz uso do “playaction”, fingindo passe para o running back. Este movimento, somado à grande concentração de 7 jogadores na trincheira, atrai os linebackers e safetys dos Cowboys para a frente, buscando interromper uma suposta corrida.

Aí fica fácil para ambos – lançador e recebedor – perceberem o grande espaço às costas dos 4 jogadores observados na 3ª imagem; um ataca a profundidade, o outro faz o passe, touchdown:

espaco_tres

São conceitos muito observados no futebol, onde cada vez mais as equipes trabalham para atrair encaixes de marcação – jogadores que se movimentam não para receber, mas como “iscas” que tiram defensores de lugar e abrem espaços para outros infiltrarem-se.

Ainda em Dallas x Green Bay o próprio QB dos anfitriões correu até a end zone graças a esta combinação de movimentos sincronizados causando desequilíbrio/desorganizando a defesa adversária.

Esta chamada exige grande inteligência do QB, velocidade de raciocínio e de execução, e precisão na hora de tomar a decisão. É a chamada “read option”, situação de corrida com pelo menos duas possibilidades – é o lançador que decide na hora quem vai ficar com a bola.

Primeiro, o Dallas abre 3 corredores para a sua direita, atraindo a atenção de 3 marcadores individuais. Além disso, vejam que o tight end posicionado mais à esquerda da linha de scrimmage (1ª imagem) propositalmente permite que o seu bloqueador ultrapasse-o, dando a ele a ideia de que o caminho está livre para tacklear o portador da bola.

Neste momento, Prescott faz a leitura, na fração de segundos na qual ele encosta a bola oval no peito do running back, que a abraça: se o marcador está vindo na direção do QB, ele entrega para o corredor; se o marcador está vindo na direção do running back, ele fica com ela. Alta sincronia de movimentos e entrosamento. Ilusionismo.

E foi o que aconteceu – Prescott percebe que o marcador dirige-se ao corredor, acreditando estar com ele a bola; aí o QB faz a finta e corre em direção à end zone, onde aquele tight end que saiu correndo está bloqueando a única pessoa capaz de pará-lo. Touchdown baseado em inteligência de jogo e tomada de decisão, duas virtudes que no futebol que nós conhecemos diferenciam os craques dos jogadores médios.

readoption

Já em outra partida, vitória do Seattle Seahawks fora de casa sobre o Los Angeles Rams, também assistimos a um TD baseado na criação de vantagem para o recebedor – deixá-lo no 1×1 com espaço, sem cobertura, e com maior capacidade física.

Com 6 jogadores na linha de scrimmage, 1 running back e 2 corredores abertos na direita, os Seahawks atraem a marcação dos Rams para a zona central, onde concentram-se 10 marcadores. Eles têm certeza que sairá dali uma corrida, ou um passe para a direita.

Mas, na esquerda, o recebedor está em grande vantagem: mano-a-mano, sem ninguém para cobrir o marcador, tendo muito espaço à sua frente e maior capacidade física. O QB Russel Wilson faz um passe “back shoulder”, direcionado ao ombro mais distante do marcador, permitindo que o recebedor proteja a bola oval com o corpo – como um lance de pivô no futebol. Touchdown.

Quantas vezes não assistimos no futebol a uma equipe trocando passes, circulando de lado a outro e assim induzindo a marcação para direcionar-se toda até um setor, quando então vem a inversão longa que pega lá no lado contrário à origem da jogada um atacante no 1×1, sem cobertura próxima, e na iminência de entrar na área, bastando um drible ou uma condução em velocidade para definir em gol?

mano

Para encerrar, estes bloqueios matadores realizados pelos Jacksonville Jaguars na surpreendente vitória fora de casa sobre os Pittsburgh Steelers. O quarterback está “encostado na parede”, lá no início do próprio campo. Mas, graças a 5 bloqueios realizados na esquerda – um deles com o right guard deslocando-se até seu lado contrário – abre-se uma avenida para o corredor atravessar 90 jardas sem ser incomodado.

É algo que pode (e já é, em muitos times) ser utilizado em lances de bola parada no futebol, seja contra marcações individuais, seja por zona (bloqueadores abrem espaço para o alvo da batida atacar a bola sem ser tocado):

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Touchdown de ponta a ponta lembrando que o futebol americano é um esporte altamente tático, extremamente complexo e acima de tudo COLETIVO. Todos cumprem seu papel na jogada, como operários, sem ambicionar brilho individual acima daquele que vai levá-los a pontuar.

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Guardiola e a “saída de 3” em 2017

Assistir às equipes treinadas por Guardiola é acompanhar uma diversidade infindável de cenários – embora sempre alicerçados em dominação, controle, imposição e obsessão pelo gol. A partir desta ideia ele molda suas equipes conforme as características dos jogadores disponíveis, o estudo do adversário, as circunstâncias do confronto…conforme o contexto, enfim. Não é refém de uma distribuição rígida – até porque recorre a modelos híbridos, permitindo ao espectador identificar diferentes desenhos nas fases ofensiva e defensiva.

Nesta temporada ele tem partido de duas plataformas. Em 9 jogos oficiais foram 6 com posicionamento inicial em 4-1-4-1 (ou 4-3-3 para os puristas); noutros 3 confrontos ele aplicou o 3-1-4-2 (ou 3-5-2, como queiram) – sistema preterido a partir da 5ª rodada da Premier League.

O mais interessante para mim, entretanto, não é a alternância entre dois sistemas iniciais, mas sim a semelhança entre a organização ofensiva destas duas plataformas: sempre partindo da “saída de 3” com um jogador à frente, formando praticamente um losango para a construção das jogadas – a primeira fase da posse de bola.

Este relatório produzido pela empresa Wyscout apresenta o 3-1-4-2/3-5-2 utilizado na estreia fora de casa contra o Brighton:

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São 3 zagueiros, 1 volante, 2 meias, 2 alas abertos e 2 atacantes centralizados; já no confronto mais recente, contra o Chelsea, a base foi o 4-1-4-1/4-3-3 – a tradicional linha defensiva de quatro com 2 zagueiros e 2 laterais, 1 volante, 2 meias, 2 extremos/pontas e um atacante de referência.

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Partindo do 3-1-4-2, a construção com 3 homens não exige nenhum movimento. Na prática, os jogadores mantêm seus posicionamentos iniciais, apenas projetando-se no campo adversário – ainda mais sendo este mais fraco, e conhecedor de suas limitações ao permitir que Guardiola praticasse o jogo de imposição ofensiva e absoluto controle da posse no campo de ataque:

ataque_brighton

Os 3 zagueiros estão no ataque, tendo o volante Fernandinho à frente (como se fosse um losango para a saída de bola); os 2 alas estão em amplitude máxima simultânea (bem abertos, “pisando na linha” ao mesmo tempo) e em profundidade (adiantados, na linha dos atacantes).

Além disso, os 2 meias e os 2 atacantes projetam-se, formando um quarteto de intensa movimentação no corredor central, entre as linhas, alternando quem recua para buscar, quem ataca a profundidade (infiltração), quem aproxima do ala com a bola para criar triângulos, enfim…aplicando com intensidade os princípios do jogo ofensivo já conhecidos pelos frequentadores do blog.

Parêntese ao assunto do post (a semelhança entre a saída de 3 partindo de dois sistemas iniciais diferentes): olhem a tensão que provoca sobre o adversário atacar praticamente com uma linha de 6 jogadores em profundidade, tendo 2 abertos e 4 centralizados – ainda por cima com a qualidade técnica e a inteligência de Silva, De Bruyne, Gabriel Jesus e Aguero. É caso para os zagueiros pedirem adicional por insalubridade!

Na prática, como já disse, todos estão nas suas regiões de atuação delimitadas pelo sistema tático. Agora vejam a fase de construção da organização ofensiva contra o Chelsea, partindo do 4-1-4-1:

ataque_chelsea

Também uma saída de 3 (o zagueiro Stones está fora da imagem); e, ao contrário do jogo contra o Brighton, envolvendo uma complexa movimentação sincronizada:

  • o lateral-direito Walker fecha na linha do zagueiro Otamendi para ser o 3º homem, com Stones por trás deles;
  • o lateral-esquerdo Delph (meia de origem) fecha pela frente do volante Fernandinho, na linha do meia De Bruyne;
  • o meia-esquerda Silva adianta-se e centraliza;
  • os 2 extremos (Sterling e Sané) são os responsáveis pela amplitude máxima simultânea, atuando extremamente abertos e adiantados, na linha do atacante de referência Gabriel Jesus.

Na prática, com a bola o City saiu completamente da base em 4-1-4-1 para organizar-se no velho 3-4-3 com meio-campo em losango da escola holandesa, muito utilizado na década de 90 por Barcelona e Ajax com Cruyff e Van Gaal, por exemplo, e mais recentemente lembro o Atlético Nacional de Osório fazendo o mesmo, assim como La U e Seleção do Chile com Sampaoli, e diversas equipes de Marcelo Bielsa.

Contra um time mais forte, ele conta com menos jogadores em profundidade sobre a linha defensiva adversária, mas compensa com mais jogadores no corredor central, controlando o setor sem perder a agressividade. Na amplitude, ao invés dos alas do 3-5-2, estão os extremos – mais incisivos e com maior capacidade de vitória pessoal.

Se a gente for “viajar na maionese geométrica” podemos ver 3 sucessivos losangos nesta organização ofensiva: o inicial, formado pela saída de 3 mais Fernandinho; o intermediário, com Fernandinho, Delph e os dois meias; e o final, com Silva, os extremos e o atacante.

Escrevo apenas para ilustrar que na análise tática os sistemas iniciais são o que o próprio nome diz – pontos de partida, apenas – e que o relevante é identificar movimentos, sincronias e padrões de comportamento. Afinal, são dois sistemas diferentes, com jogadores de características diferentes, que levam ao mesmo propósito na fase de construção – a saída de bola.

Já na organização defensiva as semelhanças acabam. Do 3-5-2 o City variou para defesa em 5-3-2 contra o Brighton, enquanto contra o Chelsea sem a bola a equipe retornava ao posicionamento inicial em 4-1-4-1, como se percebe nas imagens abaixo:

defesa_brighton.png

defesa_chelsea.jpg

Encerro lembrando que o mesmo City, com o mesmo Guardiola – na temporada passada – e partindo do mesmo 4-1-4-1 apresentou-nos uma saída de 3 diferente (já falei disso no blog noutra vez): ao invés de fechar um lateral como o 3º homem, recuou o volante central, fechou os 2 laterais como armadores tendo os 2 meias à frente, mantendo extremos em amplitude máxima – um 3-4-3 com meio-campo em quadrado (ao invés de losango), voltando no tempo ao W.M de Herbert Chapman no Arsenal dos anos 30:

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Guardiola, enfim. Sempre uma aula, e uma inspiração.

Pressão alta e agressividade no 4-3-1-2

Em 2016, buscando alternativas táticas ao 4-2-3-1 usual, o então técnico do Grêmio – Roger Machado – encomendou ao setor de análise de desempenho um estudo sobre o 4-3-1-2 (também conhecido por 4-4-2 losango). A ideia era produzir análises em vídeo dos comportamentos ofensivos e defensivos de diversas equipes, prospectando ideias que pudessem inspirar a construção de um novo modelo de jogo.

Produzimos análises do Chelsea de Mourinho, do Liverpool de Brendan Rodgers, do Hoffenheim de Markus Gisdol…entre outros. Mas o modelo que mais chamou a atenção já era conhecido, e muito: o do Rosario Central, que poucos meses antes havia eliminado o Grêmio da Libertadores.

Ressalto, antes de tudo, que não há conflito em compartilhar com os amigos tais informações pois não são sigilosas ou confidenciais, servindo apenas como objeto de estudo para aqueles que frequentam o blog ou minhas redes sociais em busca de subsídios para a evolução no entendimento de conceitos da teoria tática. Além disso, esta alternativa não durou mais que dois ou três jogos, depois dos quais Roger reconstituiu o 4-2-3-1 habitual.

Estrutura versátil
Este Rosario Central de Eduardo Coudet poderia ser descrito de várias formas em seu posicionamento inicial. Mantinham-se a linha defensiva e o tripé central formado por um primeiro volante e por dois carrilleros natos (podemos chamá-los, em português, de médio-apoiadores).

Mas o trio ofensivo assumia mais de uma cara: podia ser um 4-3-1-2, com enganche e dois atacantes; 4-3-2-1, a Árvore de Natal de Carlo Ancelotti, com dois meias-atacantes atrás do centroavante; ou até mesmo 4-3-3. Tudo isso dentro do mesmo jogo, com os mesmos jogadores, em função de circunstâncias da partida. Convencionamos chamar de 4-3-1-2 por considerarmos ser este o ponto de partida mais frequente para os movimentos do trio ofensivo.

Torre de marcação
Percebeu-se que o 4-3-1-2 e suas consequentes variações já citadas é um sistema propício para a criação de uma torre de marcação, concentrando seis jogadores escalonados em pelo menos quatro linhas – o que facilita movimentos de subida de pressão. Ao contrário de sistemas com extremos ou pontas, a concentração de seis jogadores sucedendo-se em linhas que poderiam ser desdobradas em 1-2-1-2 leva naturalmente a equipe a um ponto mais alto do campo adversário.

torre

Pressão sobre a bola e agressividade
Além da questão tática-estrutural, também devemos levar em consideração elementos comportamentais – jogadores agressivos, intensos e dinâmicos, ideais para a afirmação de comportamentos defensivos deste porte. O que fica evidente não apenas na análise das imagens, mas também dos números:

Em dois indicadores de performance monitorados por nós durante a Libertadores 2016, descritivos de agressividade na marcação, o Rosario Central estava em 2º lugar entre as aproximadamente 40 equipes (somando a fase prévia), ficando em ambos atrás apenas da Universidad de Chile – ainda com resquícios do modelo de jogo implementado por Jorge Sampaoli e preservado por seus sucessores/seguidores:

  • Na REC 5 (recuperação de bola em até 5 segundos após a perda, independentemente do local do campo) o indicador do Rosario Central era de 13,55%, perdendo apenas para os 16,08% da U de Chile;
  • Na PRE (quantidade de passes permitidos ao adversário na saída de bola) o indicador do Rosario Central era de 5,56 passes, atrás apenas dos 4.54 passes permitidos pela U de Chile até a realização de alguma intervenção;

Eram indicadores resultantes desta combinação de estrutura defensiva em torre alta e de comportamento agressivo dos jogadores – entre eles os apoiadores Aguirre, Montoya e Colmán, e os atacantes Cervi, Marco Rúben e Herrera.

Todos muito agressivos nas abordagens ao portador da bola e no fechamento às linhas de passe próximas. Além das facilidades proporcionadas pelo escalonamento das linhas de marcação a partir do 4-3-1-2, os jogadores acompanhavam a trajetória da bola em alta velocidade e abordavam os adversários buscando roubar a bola, e não apenas encurtando espaços com os pés cravados no chão. Para eles não bastava aproximar-se e parar, mas sim atacar o adversário na intenção de roubar/induzir ao erro/matar a jogada, com alta contundência:

pressao

agressividade

Em geral estes movimentos coordenados de subida de pressão com alta agressividade nas abordagens e no encurtamento das linhas de passe partiam de duas possibilidades: qualquer recuo de bola pelo adversário (jogadores acompanham a trajetória da bola) ou o simples comando do primeiro volante Musto, que a tudo orquestrava como um homem da sobra pela frente da linha defensiva. Nota-se na imagem abaixo o volante Musto com o braço estendido, ordenando a subida de seus companheiros, que prontamente atendem a um dos gatilhos da subida de pressão:

comando

Encaixes
Estas subidas de pressão não tinham preocupação com eventuais distanciamentos entre o bloco ofensivo e o bloco defensivo, ambos formados por 5 jogadores cada; os médio apoiadores, meias e atacantes poderiam atacar a saída adversária enquanto o primeiro volante e os defensores ficavam mais recuados.

O que os tranquilizava eram os encaixes muito próximos, buscando o total fechamento das linhas de passe. Ao mesmo tempo o portador da bola estava sob forte pressão de um ou até dois jogadores, induzido a acelerar a tomada de decisão e a diminuir o percentual de acerto técnico no gesto/execução da ideia elaborada às pressas, e ainda por cima sem linhas de passe abertas – tanto no centro de jogo como em profundidade:

encaixes

encaixes_dois

Princípios defensivos
Pode-se pensar que os encaixes e eventuais distanciamentos entre dois blocos resultavam em desorganização ou em falta de princípios, mas era o contrário. Podem conferir no capítulo Organização Defensiva aqui do blog o respeito a muitos dos princípios elencados pelo professor Rodrigo Leitão, entre eles flutuação, direcionamento, bloco, compactação e recuperação.

A rápida mudança de comportamento com abordagens em alta velocidade por uma torre de cinco jogadores muito próximos uns dos outros proporcionava muitos momentos de superioridade numérica do Rosario Central no centro de jogo mesmo que dentro do campo adversário. Portador pressionado por um ou dois jogadores, linhas de passe próximas fechadas, coberturas próximas e linhas de passe em profundidade também fechadas.

superioridade

Acima, vemos 5 jogadores fechando-se sobre 4 adversários, uma linha de passe próxima fechada, duas linhas de passe em profundidade fechadas, e o primeiro volante fazendo a cobertura – sobrando pela frente. Praticamente o mesmo acontece abaixo, após um movimento muito frequente do bloco ofensivo: caso o adversário conseguisse ultrapassar a pressão com um passe para a frente, todos estes jogadores recuavam e seguiam a trajetória da bola, “estrangulando” quem a recebia:

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estrangulamento

Zona de pressão
A dupla de atacantes, propícia para este modelo de jogo, auxiliava na manutenção da bola na zona de pressão. Em geral eles fechavam as linhas de passe de retorno, e acabavam se dirigindo cada vez mais ao centro de jogo (o raio de ação mais próximo do portador), impedindo que a bola pudesse sair dali e devolvendo-a para a zona de pressão:

zona_pressao

Transição agressiva
Além disso, em momentos de perda da bola os jogadores que estavam atrás da linha do portador em geral corriam para a frente, e não para trás. A regra não era recompor as linhas e temporizar, mas sim manter o centro de jogo congestionado e impedir a progressão adversária imediatamente. Na imagem abaixo os três jogadores sinalizados iniciam movimentos para a frente a partir da perda da posse, recuperando-a rapidamente ainda na intermediária de ataque.

zona_pressao_dois

Tudo isso para descrever comportamentos possíveis a partir da estrutura 4-3-1-2 e suas consequentes variações, sem juízo de valor. Poderia ser qualquer outra equipe utilizada como exemplo, portanto, o que vale é a análise dos comportamentos, e não do caso específico. Abaixo está o vídeo que serviu de base para os frames que ilustram o post:

Pressão alta e intensidade no 4-3-1-2 from Eduardo Cecconi on Vimeo.

Juventus e o 3-4-3 que defende em duas linhas

Não é novidade o que faz o técnico Massimiliano Allegri com esta encantadora Juventus, finalista da Champions League 2016/17 após vencer o Monaco nas duas partidas semifinais. Mas é interessante estudar os movimentos ofensivos e defensivos de um modelo de jogo certamente inspirado no legado de Antonio Conte, seu antecessor.

À época, Conte partia de um 3-1-4-2 diferente do 3-4-3 de extremo sucesso conduzido por ele no Chelsea atualmente – análise aprofundada, com vídeo, clicando aqui. O posicionamento inicial com a bola era claro, e pelo protagonismo no futebol italiano, dava-se com alta ocupação do campo ofensivo – como vemos abaixo:

juve_um

O princípio ofensivo de amplitude máxima e profundidade simultâneas pelos alas, assim como faz hoje no Chelsea, também acontecia na Juve de Conte:

juve_sete

No entanto, Allegri mantém na Juve 2016/17 um comportamento defensivo que Antonio Conte não utiliza como padrão prioritário neste Chelsea: apesar de partir de um sistema com trio defensivo, o posicionamento sem a bola se dá em duas linhas de quatro. Primeiro, vejamos como Conte fazia na Juventus – ala do setor ataca a bola pela frente, alinhando-se ao tripé de meio-campo, enquanto o ala oposto bascula por trás do trio defensivo, que direciona-se ao setor atacado, formando as duas linhas de quatro:

juve_dois

No Chelsea nem sempre isso acontece. Partindo do 3-4-3, a equipe inglesa por vezes defende-se em duas linhas de quatro, mas por vezes defende-se em 5-4-1, com os dois alas na linha do trio defensivo, deixando a primeira abordagem no setor atacado para o extremo/atacante. Abaixo, as duas versões defensivas do Chelsea de Conte:

balanco_um

inicial_def

Partindo de um 3-4-3 que pode ser desdobrado em 3-4-2-1, se assim quiserem, Allegri estabelece como padrão prioritário sempre defender em duas linhas de quatro. Pelo menos foi o comportamento defensivo apresentado na vitória de 2 a 1 sobre o Monaco, que confirmou a classificação à final da liga europeia contra o Real Madrid.

inicial

Organização Defensiva
Não há um balanço entre ala do setor atacado pela frente, e ala oposto por trás dos zagueiros. Em geral, a combinação é sempre com o ala direito Dani Alves pela frente (independendemente da posição da bola), marcando como extremo, enquanto o ala esquerdo Alex Sandro alinha-se ao tripé de zagueiros, empurrando o defensor Barzagli para a “lateral-direita” da formação defensiva.

Destaca-se, ainda, o grande envolvimento tático do atacante Mandzukic, que se torna o extremo-esquerdo da fase de organização defensiva, também sem importar o posicionamento da bola, liberando Dybala para a faixa mais avançada com Higuaín. São vários os momentos-flagrantes deste posicionamento padronizado da Juve sem a bola:

linha_um

linha_Dois

linha_tres

linha_quatro

E, reiterando, a se destacar o grande comprometimento do Mandzukic, que em função do encaixe setorizado no setor da bola, recua com seu alvo até a linha dos zagueiros, enquanto Alex Sandro encurta/persegue seu alvo entrelinhas, e Dani Alves se mantém à frente da defesa, no lado oposto:

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Vale ressaltar também como o direcionamento ao lado atacado é agressivo. Mantém-se a estrutura em duas linhas, mas com forte estreitamento (compactação em largura), “estrangulando” o portador da bola e as linhas de passe próximas com encaixes encurtados e consequente superioridade no setor, induzindo o adversário a manter a bola nesta zona congestionada até a recuperação pela Juventus:

segundotempo

Organização Ofensiva
Já os processos ofensivos são muito mais próximos daqueles observados na Juve e no Chelsea de Antonio Conte. Principalmente no que diz respeito à amplitude e profundidade simultâneas dos alas, hoje os brasileiros Dani Alves e Alex Sandro.

Em geral, a Juventus de Allegri organiza-se ofensivamente em 3-2-5, com o trio de zagueiros bem aberto para manter amplitude no campo defensivo durante a fase de construção (o que permite circular a bola horizontalmente sem exigir o retorno dos alas), a dupla de volantes pela frente para receber o primeiro passe e buscar opções – por vezes contando com a presença de Dybala como um terceiro organizador – e buscando chegar ao terço ofensivo com 5 jogadores alinhados (alas abertos e adiantados, e um trio de atacantes com alta mobilidade no corredor central).

Construção – zagueiros abertos, dois ou três jogadores atrás da primeira linha de pressão adversária dando opção de passe:
construcao

Posicionamento em 3-2-5 – permitindo obviamente movimentações e trocas que oferecem novas configurações. Nota-se ainda que Dani Alves por vezes não mantém a amplitude na direita, atacando espaços internos, como fazia no Barcelona, talvez por iniciativa pessoal:
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325_dois

Transições rápidas – alas em amplitude, mobilidade no corredor central, progressão em bloco (rápido desprendimento de pelo menos 7 jogadores em velocidade, atacando espaços):
bloco

Ocupação do campo ofensivo – com os alas em amplitude e profundidade, tendência é “empurrar” primeira linha de pressão adversária, abrindo espaço para a progressão dos zagueiros, que oferecem linhas de passe de retorno – também abertos – garantindo a manutenção da posse de bola e a circulação horizontal:
ocupacao

chiellini

Ocupação da área – o mesmo acontece no Chelsea de Conte…com alas em amplitude máxima, dando profundidade simultânea, enquanto zagueiros e volantes circulam a bola horizontalmente por trás, o trio ofensivo fica mais próximo da área. Isto permite que eles ingressem na zona de finalização em bom número, pela proximidade, e por não precisarem flutuar longe da área durante a fase de criação/preparação:

area

Para encerrar esta análise, abaixo está o vídeo do qual saíram estes frames todos:

Juventus 2016/17 – modelo de jogo from Eduardo Cecconi on Vimeo.

Padrões de construção da Seleção Brasileira de Tite

Há algumas semanas publiquei este vídeo no Twitter, e propus um breve debate, com a análise de movimentos elaborados pelo técnico Tite na fase de construção da Seleção Brasileira. À época, chamou a atenção o sentido de unidade explícito pela equipe, atraindo nove jogadores para as dinâmicas de passe no campo defensivo – o que proporcionava desvencilhar-se da pressão adversária; e, ao mesmo tempo, ultrapassada a pressão (no caso, dos uruguaios) em poucos segundos o Brasil contava com nove jogadores no campo ofensivo.

Resgato o assunto porque nesta semana viralizou no Twitter uma postagem com os mesmos princípios e sub-princípios revelados pelo Napoli, também saindo de uma intensa pressão adversária com dinâmicas de passe contando com pelo menos oito jogadores à frente da própria área – presume-se (o vídeo é curto) – que a progressão ao campo de ataque tenha se dado em bloco, da mesma forma que o Brasil.

Vocês podem conferir a dinâmica napolitana no link abaixo:

https://twitter.com/amcgovern25/status/861186968838955008/video/1

E o vídeo com a construção apoiada do Brasil está aqui:

Saída de bola da Seleção Brasileira from Eduardo Cecconi on Vimeo.

Mecanismos do 3-4-3 – possível tendência em desenvolvimento

Em geral as Copas do Mundo são eventos disseminadores de tendências táticas, principalmente exportando ideias para locais onde a evolução é mais lenta. O exemplo mais recente é o torneio de 2010 do qual, mesmo afirmado na Europa há uma década, o 4-2-3-1 partiu rumo à quase unanimidade.

Quatro anos depois Holanda, Costa Rica e Chile vieram à Copa sediada no Brasil apresentando versões interessantes de sistemas com três zagueiros – Sampaoli mais ofensivo com La Roja, enquanto holandeses e costa-riquenhos apresentando o 5-4-1 na fase defensiva.

Não chamou tanta atenção, até por não ser novidade – Conte à época fazia algo parecido na Juventus. Mas agora o treinador italiano empilha vitórias na Premier League levando ao Chelsea a base híbrida de três zagueiros com a qual fora bem sucedido na própria Juve e na seleção italiana.

Além das Copas, outro ponto disseminador de ideias é: resultado. E as campanhas recentes de Conte começam a influenciar equipes da Inglaterra, da Itália e até do Brasil. Estaríamos assistindo ao próximo capítulo da linha do tempo tática? O 5-4-1 / 3-4-3 de Conte? Autor do livro “A Inversão da Pirâmide” recentemente traduzido pelo jornalista André Kfouri, o também jornalista Jonathan Wilson, disse em entrevista à Zero Hora que não enxerga o modelo de jogo de Conte como algo inovador. Mas pode ser que ele mude de ideia.

Sistema híbrido
Já escrevi como os sistemas táticos têm se tornado cada vez mais híbridos – formações muito distintas entre as fases defensiva e ofensiva. E Conte está surfando nesta vanguarda. Com a bola a equipe parte do 3-4-3, mas sem a bola parte do 5-4-1:

inicial_def

inicial_of

Linha de 5 ofensiva
As variações na estrutura inicial, entretanto, não me parecem o principal aspecto do modelo de jogo do Chelsea. É interessante ver como a equipe sai da defesa em linha de 5 para o ataque em linha de 5.

Invariavelmente o Chelsea faz a reinversão da pirâmide, saindo do 5-4-1 para o 3-2-5: os dois alas oferecem amplitude e profundidade simultâneas, ambos abertos e espetados sobre a defesa adversária, empurrando o trio ofensivo para o corredor central, deixando os volantes por trás desta linha e mantendo o trio defensivo ao mesmo tempo aberto e adiantado – muitas vezes com dois zagueiros no campo de ataque:

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Esta estrutura favorece o ataque posicional, facilitando a circulação de bola devido à permanência dos alas na amplitude e dos volantes no retorno. Define o lado, tenta progredir, e em caso de bloqueio, circula por trás e chega ao outro lado – ou faz a inversão longa. Enquanto isso, o trio de zagueiros também abre, proporcionando que a circulação se dê desde a primeira linha caso seja necessário, encontrando mais de uma alternativa para trocar o corredor e manter a posse.

Além da circulação facilitada, a linha de 5 ofensiva cria grande tensão sobre os zagueiros adversários, aproximando o trio de atacantes sobre a dupla de zagueiros.

O mais interessante é ver o caos provocado pela ausência de extremos – função muito valorizada nos sistemas em duas linhas, principalmente no 4-2-3-1. No Chelsea são Hazard e Pedro. Eles não jogam abertos. Atuam em uma zona quase central, num ponto-cego entre laterais, zagueiros e volantes adversários.

Na entrevista já citada à Zero Hora, Jonathan Wilson endossa esta observação:

“Esses dois jogadores abertos no trio de ataque são muito difíceis de marcar. Não ficam exatamente no meio, então é complicado saber de quem é a responsabilidade de vigiá-los”.

Os zagueiros já estão preocupados com Diego Costa; se buscarem Pedro e Hazard, ficam em inferioridade numérica. Se os laterais os acompanham, abrem os lados para os alas que estão espetados, forçando que os extremos desçam e formem uma linha defensiva de 6 jogadores para compensar. E se os volantes se ocupam deles, deixam o meia e o centroavante sobrecarregados com os dois volantes e os três zagueiros na construção em franca superioridade. O que fazer?

Reinversão da pirâmide
Embora este 3-4-3 se transforme em um 3-2-5 na fase ofensiva, muitas vezes um dos zagueiros se adianta à linha dos volantes, aumentando a superioridade no corredor central e incrementando ainda mais as possibilidades de circulação e de ataque posicional. Forma-se então o 2-3-5, a famosa Pirâmide consagrada na obra de Jonathan Wilson.

Na maioria das vezes é Azpilicueta quem se apresenta pela direita (lateral de origem utilizado como zagueiro), embora Cahill não esteja proibido de fazer o mesmo na esquerda. O espaço surge exatamente pela tensão que a linha ofensiva de 5 jogadores provoca nos adversários – empurra os extremos rivais para os lados da área e abre grande espaço ao avanço de um dos zagueiros. Este princípio deu origem inclusive a pelo menos dois gols de cruzamentos da direita pelo Azpilicueta: ataca o espaço, recebe livre e coloca na área:

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Esta é uma estrutura muito utilizada por Guardiola em todas as suas equipes. Encontrei em meus arquivos duas imagens, uma do Bayern e outra do City – ambas partindo do 4-3-3 para formar o 2-3-5 na fase ofensiva.

Alteram-se apenas os movimentos que levam a esta formação: enquanto Conte prefere alas na amplitude máxima, Guardiola quer os extremos na amplitude, deixando os laterais na linha de organização (na imagem do City podemos considerar muito mais um 3-2-5 pelo posicionamento do volante Fernandinho próximo aos zagueiros):

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guardiola_dois

Área ocupada
Conte aparenta estar certo quando pensa o jogo com os laterais na amplitude, e não com os extremos. Se fizesse o contrário, teria Hazard e Pedro – seus jogadores mais decisivos em 1×1 e finalização – distantes do gol. Colocando os alas em amplitude, ele aproxima Hazard e Pedro do centroavante Diego Costa e entre si, formando um trio de grande mobilidade e agressividade – como eu já disse, provocando tensão e caos nos zagueiros.

Outra beneficiada deste princípio é a ocupação da área: estando os três atacantes próximos uns dos outros, e no centro, em iminência de cruzamentos eles podem atacar rapidamente a área. Muitas vezes, ganhando a companhia do ala oposto (segunda imagem abaixo), dando ao ala com a bola entre 3 e 4 alvos para o cruzamento se transformar em assistência:

area_ocupada

area_dois

O mesmo princípio – amplitude máxima com os alas ao mesmo tempo – já era aplicado na Juventus. A diferença é o sistema inicial de base (um 3-1-4-2 que muitas vezes se transformava em 3-4-3 com meio em losango, pelos recuos de Tévez, ao contrário do 3-4-3 com meio em linha do Chelsea). Entretanto, na Juve a linha ofensiva acabava sendo de apenas 4 jogadores – alas abertos, centroavante e mais um por dentro, com os demais na área de criação central logo atrás:

juve_um

juve_sete

“Torre defensiva”
A primeira vez que entrei em contato com o conceito de “torre” foi na leitura do excelente livro “La Pizarra de Simeone”, explicando o modelo de jogo do treinador argentino no Atlético de Madri. Lá ele conta que trabalha com a organização em torre na fase ofensiva, mantendo 8 jogadores no corredor central, escalonados em pares – dois zagueiros, dois volantes, dois extremos centralizados e dois atacantes fechados – deixando os lados exclusivamente para os laterais em amplitude simultânea. Ele, inclusive, atribui estas ideia ao futebol brasileiro, principalmente pelo avanço agudo dos laterais:

simeone

No Chelsea, entretanto, a torre também é defensiva. Sem a bola, Conte tem por princípio que a contenção sobre o portador da bola seja feita prioritariamente pelo ala do setor, subindo seu posicionamento e realizando o combate aberto, o que mantém o ponta do setor na cobertura interna:

balanco_um

balanco_tres

balanco_dois

Este princípio acaba distribuindo a equipe muitas vezes em duas linhas de quatro sem a bola, porque os três zagueiros fazem a basculação na direção do lado atacado, trazendo consigo o ala oposto na primeira linha, enquanto o atacante do setor fica por trás do ala que ataca a bola e se alinha aos volantes. O mesmo acontecia na Juventus, que também trazia o ala para atacar a bola e o ala oposto para a basculação com os zagueiros:

juve_dois

Mas este 5-4-1 em duas linhas na fase defensiva, seguindo o princípio da contenção com o ala aberto (e não com o “extremo”, que permanece fechado) não apenas forma duas linhas como também apresenta uma torre quase inviolável no corredor central.

Pois vejam…se os dois atacantes marcam prioritariamente fechados (um na cobertura do ala que ataca a bola, o outro bem fechado para impedir a circulação), eles acabam formando um quadrado com os dois volantes logo atrás, sucedendo os zagueiros: uma torre, que pode ter 6 ou 7 jogadores – caso um dos zagueiros tenha saído em cobertura encaixada para os lados, são 6; caso contrário são 7, conforme as imagens abaixo:

torre_dois

torre_um

Não por acaso, um dos principais entusiastas deste modelo holandês-bielsista de variações dos três zagueiros – Jorge Sampaoli – já fez isso na seleção do Chile, e provavelmente deve continuar fazendo no Sevilla. Abaixo, encontrei nos meus arquivos este frame de uma organização defensiva com encaixes individuais em todos os setores do Chile contra a Espanha, formando uma torre central:

chile

Variação defensiva
Alguns adversários perceberam que Conte prefere seus alas atacando a bola pelo lado para manter esta torre superpovoando o corredor central e impedindo a circulação dos rivais – induz a saída pelo lado e ali cria um brete de difícil saída. E o que fizeram? Jogaram iscas aos alas do Chelsea, também com amplitude simultânea, impedindo-os de subir a pressão sobre o portador da bola.

Em geral, isso se conquista espelhando o 3-4-3 de Conte – já vi Tottenham, City e West Ham fazerem isso nesta temporada – provocando uma sucessão de 1×1’s que mantêm os alas do Chelsea na linha defensiva.

Nestes casos há uma variação, e quem aborda o portador é o atacante do lado, mantendo os alas na primeira linha e marcando em 5-4-1, o que diminui a vantagem no corredor central, desfazendo a “torre”:

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balanco_cinco

Atalho no contra-ataque
O 5-4-1 que vira 3-4-3 que vira 2-3-5 (ou 3-2-5) proporciona também constantes subidas de pressão encaixadas, sem ser um sistema defensivo e reativo, como Holanda e Costa Rica fizeram com seus 5-4-1’s na última Copa do Mundo:

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Tanto em bloco alto, pressionando com encaixes e adiantando zagueiros, como também em bloco médio, quando o Chelsea consegue executar o princípio de contenção com o ala, os contra-ataques são muito perigosos. Afinal, se os extremos não estão abertos e recuados perseguindo os laterais adversários até lá embaixo, mas sim estão centralizados e à frente dos blocos de marcação, consequentemente o caminho para o campo adversário é mais curto.

Com isso, Hazard e Pedro ao mesmo tempo se desgastam menos para marcar (apenas protegem os alas em coberturas centrais, fecham as possibilidades de retorno pelo meio e adiantam pressão) e ainda menos para contra-atacar. Estão próximos do campo adversário, em região central, e próximos um do outro, chegando em melhor condição no momento da transição ofensiva:

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Discordo de Jonathan Wilson quando ele subdimensiona a importância das ideias de Conte para a evolução tática no futebol. Ele mesmo era autor de uma excelente coluna no jornal inglês The Guardian, chamada ” The Question”, na qual lançava ponderações sobre conceitos que soavam vanguardistas e pioneiros – possíveis tendências, portanto.

Acredito que caberia num “The Question”: seria o 3-4-3 de Conte o próximo capítulo na linha do tempo tática?

Quem sabe. Afinal, é um sistema que inverte e desinverte a pirâmide no mesmo jogo – defende em linha de 5 e ataca com linha de 5 – encontra soluções para alguns paradigmas que estavam na zona de conforto dos enfrentamentos de extremos x laterais, e começa com resultados e bom desempenho a se disseminar por aí.

Vale ficar de olho. Abaixo, o vídeo que serve de base para os frames do post:

Modelo de jogo do Chelsea – temporada 16/17 from Eduardo Cecconi on Vimeo.

Processos de Comunicação aplicados à Análise de Desempenho

Ao aprofundar o estudo da Análise de Jogos Desportivos – conforme a escola de pensadores portugueses convencionou chamar – encontrei diversos pontos de convergência entre a teoria por eles aplicada e correntes da teoria da comunicação. Em especial nas diretrizes da investigação pelo método observacional.

Referência mundial no tema, o professor Júlio Garganta apresenta conceitos desenvolvidos pela norte-americana Lynda Baker na obra “Observation: A Complex Research Method”. Este parágrafo expõe uma excelente reflexão sobre a observação como método de pesquisa:

É o saber ver que suscita um problema profundo, porque não só qualquer teoria depende de uma observação, mas também porque qualquer observação depende de uma teoria. Deste modo, a observação sem propósitos padece, inevitavelmente, de miopia conceitual. Ao pretender entender o jogo, há que explicitar os respectivos níveis de evidência, porque são eles que permitem modelar os indicadores e os critérios que viabilizam a seleção, a identificação e a avaliação dos eventos. Acresce que a observação sistemática é um método de indagação complexo porque requer que o observador desempenhe um conjunto de funções e recorra a diferentes meios, incluindo os cinco sentidos. Por isso, a pesquisa observacional caracteriza-se por requerer um treino especializado dos observadores, no que respeita a ‘o quê, como e quando’”.

Além, evidentemente, de destacar a importância do embasamento teórico alicerçando esta investigação, notem ao final que o “saber ver” na prática é descrito como um “saber perguntar” ao jogo – o que está acontecendo, quando e onde?

O mesmo disse o professor Israel Teoldo Costa – que, apesar de brasileiro, integra a escola portuguesa de pensamento sobre os jogos desportivos – no artigo “Análise e avaliação do comportamento tático no futebol”. Para ele, todos sistemas modernos de observação e análise de jogo procuram responder às seguintes questões:

Quem executa a ação? Qual ação é realizada? Como a ação é realizada? Que tipo de ação é realizada? Onde a ação se realiza? Quando a ação se realiza? Qual é o resultado da ação?

Podemos reunir, entre os advérbios interrogativos utilizados por ele, os principais: o que, quem, onde e quando; podemos, ainda, substituir a ideia de “que tipo” pela palavra “como”, e a ideia “qual o resultado” por um dos porquês.

Neste ponto saímos do espectro futebolístico para ingressar na teoria da comunicação. A jornalista e escritora brasileira Ana Arruda Callado na obra “O texto em veículos impressos” explica o conceito de lead (ou lide), famigerado primeiro parágrafo tido por obrigatório em redações jornalísticas:

Também conhecido como cabeça ou abertura de uma matéria, o lead é o primeiro parágrafo de uma notícia e deve narrar, resumidamente, o fato mais relevante da série de fatos que compõem a notícia. Nele, são respondidos os seis elementos básicos da informação: o quê? (a ação), quem? (o agente), quando? (o tempo), como? (o modo), onde? (o lugar) e por quê? (o motivo)”.

Segundo o também jornalista Ricardo Noblat – no livro “A arte de fazer um jornal diário” o lead surgiu nos Estados Unidos no final do século XIX, “fruto das dificuldades de comunicação enfrentadas pelos jornalistas enviados para cobrir a Guerra de Secessão, entre os anos de 1861 a 1865. Nasceu por um acaso durante esse conflito militar. Embora possa ser interpretado por mentes mais paranóicas como algo arquitetado para acabar com o jornalismo literário, ele não apareceu com esse propósito. Durante a Guerra de Secessão, eram muitos os repórteres e poucas linhas de telégrafo disponíveis para a transmissão das matérias. Com a precariedade do sistema, era necessário que as informações mais importantes fossem passadas primeiro. Uma vez transmitido um único parágrafo de cada matéria, era transmitido o segundo, o terceiro e assim por diante”.

Os mesmos conceitos de investigação jornalística foram desenvolvidos nos anos 40 pelo norte-americano Harold Lasswell. O italiano Mauro Wolf, no livro “Teorias da Comunicação”, descreve desta forma o modelo de Lasswell:

Elaborado inicialmente nos anos 40, exatamente na época, de ouro da teoria hipodérmica, como aplicação de um paradigma para a análise sociopolítica (quem obtém o quê? quando? de que forma?), o modelo lasswelliano, proposto em 1948, explica que uma forma adequada para se descrever um ato de comunicação é responder às perguntas seguintes: quem diz o quê através de que canal com que efeito? O estudo científico do processo comunicativo tende a concentrar-se em uma ou outra destas interrogações”.

Acredito que a convergência entre o método observacional aplicado à análise de jogos desportivos e a teoria da comunicação esteja exatamente neste ponto: as perguntas que se faz ao fato observado.

Ao analista tático (de desempenho, de performance, qualquer que seja a denominação do cargo/função) cabe constantemente fazer estas perguntas enquanto observa o jogo: o que está acontecendo? Em que local do campo? Quais são os jogadores envolvidos? Em que fase do processo de construção ou de contenção? Com qual propósito? Quais as repercussões? E assim sucessivamente…encontrar os protagonistas de cada ação, os “atores” que interagem de forma sincronizada, complexa e reiterada, revelando padrões de comportamento táticos (e também técnicos) relevantes para a compreensão do jogo.

Estas perguntas, é claro, não prescindem do aporte teórico do futebol. Pois de nada adiantaria perguntar ao jogo sem entender as respostas que ele revela através da identificação de padrões de comportamento inerentes ao modelo de jogo sob observação.
O próprio Júlio Garganta falou sobre isso em artigo publicado em 2005:

Admitimos que o jogo pode responder a tudo o que lhe souberem perguntar. Esta convicção dá sentido à necessidade de se desenvolver argumentos fundantes duma teoria dos jogos desportivos, a partir de estudos e reflexões a propósito dos comportamentos táticos específicos reconhecidos como negativos ou como positivos, isto é, os que poluem ou oxigenam o jogo, respectivamente. Como tal, interessa recolher informação a partir da observação e interpretação de comportamentos proximais ou distais em relação aos modelos de organização considerados evoluídos, evitando a redundância de indicadores/variáveis. Na busca da identificação e interpretação dos comportamentos críticos do jogo, destaca-se a utilidade do registro e da interpretação, não tanto das quantidades perse, mas sobretudo das quantidades da qualidade. Por isso, temos vindo a chamar à atenção para a relevância do estudo do “enredo” do jogo, do respectivo fluxo, mais do que do comportamento pontual e avulso dos seus atores. O enredo, estando mais voltado para o processo do que para o produto, vive das interações dos comportamentos, condensadas na dinâmica dos jogadores e das equipes”.

E diz mais:

(…) torna-se decisivo reunir material com potencia informativo, o que se consegue através da classificação de símbolos e das suas ligações numa relação que exprime a organização dum sistema. A informação não está apenas ligada à quantidade, mas também à qualidade, não sendo, portanto plausível procurar obtê-la à custa da tortura dos dados, que consiste em dobrá-los até que nos forneçam os resultados pretendidos. Habitualmente a atenção do analista é dirigida para as regularidades dos comportamentos dos jogadores e das equipes, no mesmo, ou em vários jogos. As regularidades constituem, portanto, informação condensada que faz sentido. Ora, o nível de evidência modela os critérios e é modelado por eles”.

A professora espanhola Maria Teresa Anguera Argilaga, no artigo “Metodologia observacional en el deporte: conceptos básicos” reitera a importância de um método – ou seja, critérios – durante a observação:

Importa passar de uma observação passiva, portanto sem problema definido, com baixo controle externo e carente de sistematização, para uma observação ativa, sistematizada, balizada por um problema e obedecendo a um controle externo”, o que se obtém, acredito, aliando os métodos de observação com as perguntas recorrentes e os parâmetros táticos teóricos modernos – modelo de jogo, momentos do jogo, princípios e sub-princípios, etc.

Por isso o papel do analista de desempenho é similar ao do comunicador. Entendo sob esta perspectiva o modelo de jogo como uma forma de linguagem, elaborada pela mente criativa do técnico – e executada durante as sessões de treinamento – para ser reproduzida nas partidas. Sabendo perguntar ao jogo o analista consegue traduzir esta linguagem, identificar “o que o treinador quis dizer” e transmitir ao seu público (sejam treinador, jogadores, seguidores, ouvintes, espectadores…) o significado dos posicionamentos, movimentos e interações que caracterizam os padrões de comportamento da equipe sob observação.

A base está nos princípios. Pode-se fazer uma analogia entre eles e o que Mauro Wolf conceitua pelo termo “código”. Para haver sucesso nesta comunicação é preciso que emissor e receptor partilhem o mesmo conhecimento sobre estes códigos – no caso da teoria do futebol, os princípios de jogo. Diz Wolf:

Assim se evidencia, no esquema comunicativo, a existência de um outro elemento, o código. Para que o destinatário possa compreender corretamente o sinal, é necessário que, quer no momento da transmissão, quer no momento da recepção, se faça referência a um mesmo código. O código é um sistema de regras que confere a determinados sinais um dado valor“.

Na prática, todo o processo de análise dos jogos desportivos faz do analista um comunicador. Na essência. Não sabendo comunicar (perguntar ao jogo, interpretar as respostas, organizá-las e transmiti-las de forma clara ao seu público-alvo) por mais entendimento da teoria do jogo que ele tenha a mensagem vai se perder no caminho.

A evolução dos sistemas híbridos

Tem sido tão grande e tão veloz a evolução tática no futebol que em poucos anos paradigmas tidos por irreversíveis são quebrados. Aumentaram exponencialmente a produção de conhecimento teórico e a aplicação prática destas inovações por treinadores extraclasse. Também é cada vez mais farta a disseminação de tecnologias – hardware e software – para a análise, aprofundando a interpretação de dados com mapeamentos ultra-detalhados, quantitativos e principalmente qualitativos. Assim como os processos de treino acompanham esta acelerada evolução. Um a reboque do outro, todos levando o futebol a um elevado grau de excelência tática.

Há poucos anos o posicionamento inicial dos jogadores era determinante para se diagnosticar o sistema tático das equipes. Reconhecer o estatuto posicional dos jogadores (a “soma” das regiões do campo por eles ocupadas com as funções desempenhadas) bastava. Sem a bola, todos voltavam para os posicionamentos de origem, formando um desenho claro e que poucas variações proporcionava com a bola.

Segundo o português Julio Garganta, em referência a este passado recente do qual falávamos, “no futebol o conceito de sistema tem sido utilizado com um significado diverso. O que frequentemente se designa por sistema de jogo ou sistema tático, e se descreve através de siglas como 4-2-4, 4-3-3, 4-4-2, W.M, etc., restringe-se a um dispositivo, a uma distribuição topológica dos jogadores pelo terreno de jogo, de acordo com o respectivo estatuto posicional“.

Entretanto, as equipes passaram a assumir formações quase distintas nas fases de posse e sem a posse, impulsionadas – acredito – pela ênfase nas transições, em especial a partir da perda da bola. E também, como já foi dito, pela união de treinadores-pensadores-inovadores com maior produção de conhecimento, treinos de vanguarda e maior aparato tecnológico.

Começamos a ver José Mourinho “resolver” o problema defensivo dos pontos-cegos do 4-2-3-1 (a grande distância entre laterais e extremos, expondo os volantes e exigindo movimentos coletivos de compensação) ao fazer o time jogar em 4-2-3-1, mas marcar em 4-4-2 com duas linhas de quatro. Hoje, praticamente não há time partindo do 4-2-3-1 que não se defenda em duas linhas de quatro.

Simultaneamente, vimos Guardiola – ainda no Barça, depois no Bayern – promover sensíveis alterações estruturais na comparação entre a defesa posicional e o ataque posicional de suas equipes. Partindo em geral de um 4-3-3 para se defender em 4-1-4-1 e para atacar em 2-3-5 (a reinversão da pirâmide).

Deparamo-nos, então, com um dilema: como definir o sistema tático destas equipes? E, daí em diante, para um reflexão ainda mais contundente: qual a relevância de se determinar um sistema, um rótulo, se as equipes são cada vez mais híbridas?

Vejam este frame ofensivo do Borussia Dortmund  do técnico Thomas Tuchel em confronto de ida contra o Liverpool pela Liga Europa:

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Aparentemente, podemos supôr que o Borussia atue no 4-4-2 losango (o 4-3-1-2). Weigl de primeiro volante, Mktharyan de enganche, Reus e Aubameyang de atacantes, e pelos lados, como “carrilleros”, Castro pela esquerda e Durm pela direita.

Vejam agora, entretanto, o comportamento do 37-Durm quando o Borussia está na fase defensiva. E, em consequência, de seus demais companheiros de meio-campo:

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Ele simplesmente entra na linha defensiva e age como um ala, enquanto Mkhtaryan sai do centro para formar um tripé de contenção no corredor central, desenhando na prática o sistema 5-3-2. Ele guarda o setor, sem se expor ao combate, “segurando” na base enquanto espera o meia se dirigir e fazer a abordagem ao portador.

No lado contrário, porém, o 27-Castro não descia à linha defensiva. Era o lateral Schmelzer quem esperava para abordar pelo lado, enquanto o volante do setor mantinha-se na diagonal para o centro. Uma basculação (balanço, direcionamento) em 5-3-2.

E agora? Dizemos que o Borussia partiu do 5-3-2, ou do 4-3-1-2? Ou pior: seria o frame da fase ofensiva um “frame oportunista”, congelando a imagem em um momento pouco representativo sobre o todo?

Voltemos à teoria, citando novamente Garganta:

No futebol moderno mantém-se a denominação dos jogadores segundo o seu posicionamento no terreno de jogo (defesa, médio, atacante). No entanto, esta nomenclatura, baseada na posição ocupada pelo jogador no terreno, designa apenas o seu papel dominante, pois que, dadas as exigências atuais do futebol, a atividade dos jogadores, ao longo do jogo, transcende largamente o limite imposto por aquela denominação. Deste modo, cada vez mais se esbatem as fronteiras entre os papéis de defensor, médio e avançado. A diferenciação de papéis e funções não se realiza tanto a partir da participação, ou não, de determinados jogadores nas fases do ataque e da defesa, mas sobretudo a partir das características dessa participação, face às configurações particulares do jogo em determinados momentos e zonas do terreno“.

Em resumo, citando agora o francês Jean-François Grehaigne, autor de diversos livros sobre o ensino do futebol e o estudo da tática:

Conhecer o dispositivo não implica conhecer o modo como ele funciona“.

Isto remete à importância da análise de desempenho fixar-se cada vez mais em comportamentos e interações, ou seja, interpretar dados e movimentos dentro de um contexto, identificando e apontando tendências, sem o determinismo e o protagonismo do sistema inicial em si. Na análise do Borussia, nesta partida específica, as formações de defesa (5-3-2) e de ataque (4-3-1-2) são mais importantes do que a identificação de um ponto de conexão fixo entre elas. E, ainda melhor, os comportamentos dos jogadores nestas fases, as interações entre eles, as sincronias de movimentos, são o que mais importa.

Pois vejamos o papel do 37-Durm nesta partida. Além de defender na linha do lateral-direito Piszcek, ele foi o grande responsável por garantir a amplitude máxima na fase ofensiva, absolutamente aberto sobre a linha lateral, em profundidade. Nota-se que este comportamento encontrou sincronia com o lateral-esquerdo Schmelzer – ambos oferecendo amplitude simultânea em profundidade quando o Borussia ocupou o campo do Liverpool, deixando Castro e Piszcek para o retorno/cobertura:

amplitude_dois

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São duas imagens da fase ofensiva apresentando o mesmo comportamento – 37-Durm em amplitude e profundidade pela direita, enquanto o lateral do setor está por trás. E, estando a bola na direita, nos dois lances com Mkhtaryan articulando, a amplitude no lado oposto é concedida pelo lateral Schmelzer. Um padrão, portanto.

Assim que vi esta partida lembrei de um trecho do livro Interting the Pyramid, no qual o jornalista inglês Jonathan Wilson descreve o 4-4-2 que a Itália utilizou na conquista da Copa do Mundo de 1982 – em especial, derrotando o 4-4-2 em quadrado do Brasil de Telê Santana.

Provavelmente não foi esta a inspiração de Tuchel, mas notem como o papel do 37-Durm assemelha-se ao desempenhado por Bruno Conti no modelo de jogo conhecido e imortalizado pela alcunha “gioco all’italiana”. O diagrama que elaborei à época para o blog Preleção reproduz o que foi exposto no livro:

italia

Segundo Wilson, Conti desempenhava o papel de “tornante”, um jogador que ocupava toda a faixa lateral do campo, seja na fase defensiva – recuando até o final – seja na ofensiva, como um ponta. Era uma espécie de 4-4-2 “torto”, com um lateral apoiador na esquerda, um lateral-base na direita, um zagueiro-líbero e um ponta-extremo-ala na direita. Complexo, o sistema estava em declínio, e acabou com o título mundial.

Observado, compreendido, interpretado, contextualizado e descrito este comportamento do 37-Durm, o sistema inicial do Borussia fica em segundo plano frente à complexidade de movimentos que tornam a equipe híbrida. Para concluir, recorro novamente a trechos de textos do professor Julio Garganta:

Todavia, a identificação da tática com os ‘sistemas táticos’ tem feito com que a importância atribuída aos designados sistemas de jogo seja sobrevalorizada“.

“Neste contexto, a organização das ações dos jogadores decorre de sistemas que não se restringem a uma estrutura de base, ou seja, a uma repartição fixa das forças no terreno de jogo, mas, pelo contrário, são configurados sobretudo a partir da evolução das funções. Importa, sobretudo, valorizar o caráter organizacional do jogo, na medida em que é a organização que produz a unidade global do sistema; é ela que transforma, produz, relaciona e mantém o sistema, concedendo características distintas e próprias à totalidade sistêmica“.

Uma equipa possui uma anatomia e uma fisionomia mutáveis, que se vão configurando à medida que o jogo é urdido, sendo atravessada por formas e fluxos de energia e de matéria que evoluem no espaço e no tempo, para produzir informação. De acordo com este entendimento, é cada vez mais reconhecida a importância de se perspectivar o jogo como um confronto de sistemas dinâmicos complexos“.

Com sistemas complexos e híbridos, importa considerar os posicionamentos iniciais e identificar sistemas, mas sabedores destas transformações que as equipes cada vez mais apresentam na comparação entre as fases de posse e sem posse. O que torna mais importante a identificação dos comportamentos, das interações e dos movimentos.

Inverting the Pyramid

Em 2008 o jornalista e pesquisador inglês Jonathan Wilson publicou a primeira edição do hoje consagrado livro “Inverting the Pyramid“. Como bem diz o subtítulo na capa, a obra teve como objetivo apresentar a história da evolução tática no futebol. Desde o primeiro sistema reconhecido até as tendências atuais e perspectivas para o futuro recente. Uma obra-prima, de leitura obrigatória para quem pretende entender o jogo, fruto de exaustiva pesquisa do autor (que viajava aos países dos times e seleções retratados para entrevistar fontes e chafurdar em arquivos de bibliotecas e jornais locais).

No ano seguinte, publiquei no desativado blog Preleção uma série de posts com a resenha do livro, enfatizando esta linha do tempo tática. Sem subdividir o livro em capítulos, mas sim em cada novo sistema identificado.

Resgatei os textos e imagens originais e condenso todo o material que publiquei nesta resenha do “Inverting the Pyramid” – tornando o post bastante extenso – logo abaixo. Encontrei 16 postagens resenhando o livro, e pela memória acredito que tenha faltado uma, sobre o surgimento do 4-2-3-1 e as tendências a partir dele, mas no arquivo do blog desativado não consegui localizá-la.

1. Primeira tática do futebol se inspirou no rugby

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A primeira curiosidade na linha do tempo dos sistemas táticos é a influência do rugby na organização das equipes. Influência esta proporcionada pelo compartilhamento entre ambos os esportes da regra do impedimento, quando houve a divisão entre eles.

O futebol é mais antigo. No século XVIII, chegou a ser banido em algumas regiões britânicas pela violência demasiada. Mas no início do séculoi XIX, ele foi utilizado como ferramenta política de fortalecimento do Império entre os jovens – principalmente por ser um esporte coletivo. Sendo disseminado nas escolas britânicas como atividade física.

Mas cada escola criou regras próprias. Não havia padrão. Em algumas se utilizava o pé, em outras a mão, e em outras ambos. Variava-se ainda o número de jogadores. Diferenças que inviabilizavam os confrontos entre escolas. Houve reuniões entre as instituições de ensino, que por maioria restringiram o toque com as mãos, o que desgostou o pessoal da Rugby School – originando o surgimento do rugby na dissidência.

Em 1848 estas escolas lançaram o primeiro compêndio de regras unificadas do futebol. Com uma ainda bastante ligada ao rugby, como destaca Jonathan Wilson no Inverting the Pyramid. A “Lei 6” determinava que todos os jogadores à frente da linha da bola estariam impedidos de tocá-la. O rugby até hoje é assim.

Como resultado, as primeiras ações técnicas e táticas do futebol foram idênticas às do rugby, trocando apenas as mãos pelos pés. As equipes se organizavam em uma espécie de 1-2-7, com a linha de sete atacantes agrupando-se como os paredões uniformes vistos nos campos de rugby.

Sem poder acionar companheiros à frente da linha da bola, o futebol se tornou um esporte coletivo na teoria, mas quase individual na prática. A “Lei 6” forçava os jogadores a buscar a decisão pessoal, sem trocar passes. Quem recuperasse a bola, partia com ela dominada em velocidade até perdê-la, ou concluir a gol. Terminada a jogada, a outra equipe fazia o mesmo: um jogador pegava a bola e partia correndo, com um enxame de seus colegas vindo atrás. Só condução, sem passes. Chamado por Jonathan Wilson de “kick and run” (chute e corra).

Isso contribuiu para a demora na constatação de que o futebol é um esporte eminentemente tático, e coletivo. Inpirados no rugby, os jogadores queriam decidir sozinhos em grandes arrancadas. Essa noção individualista era tão evidente que os “chefes das turmas” nas escolas formavam a linha de sete atacantes, deixando o trabalho sujo de desarme aos calouros. Foi preciso alterar a regra do impedimento para que o futebol se tornasse um esporte coletivo, com trocas de passes e valorização da organização tática.

2. Novo impedimento provoca 1ª variação tática

dois

Dezoito anos depois de sua criação, a lei de impedimento do futebol abandonou a inspiração no rugby. Os jogos estavam monótonos, tediosos, com sucessões de “kick and run`s” de lado a outro – chutões e correria em jogadas individuais. Quem ultrapassasse a linha da bola estaria impedido, portanto, quem recuperava a bola saía correndo sem passar para ninguém.

Em 1866, foi decidido que bastaria ter pela frente três adversários (o goleiro e mais dois, por exemplo) para legalizar a posição de um jogador. O objetivo era claro: estimular as combinações de jogada. Se antes os atletas partiam correndo para não voltar o jogo (só podiam passar para quem estivesse atrás da linha da bola) agora os companheiros tinham liberdade para se deslocar e criar alternativas mais adiantadas.

À esta época, adotavam-se dois sistemas táticos: o 1-2-7 e o 2-2-6 – que fazia muito sucesso com o escocês Queens Park. Eles atuavam com dois zagueiros, dois meio-campistas e seis atacantes, sendo: dois pontas, dois atacantes internos, e dois centroavantes. Os ingleses ainda usavam o sistema com três centroavantes, somando sete jogadores ofensivos, e apenas um zagueiro.

Ambos os sistemas, entretanto, não ajudavam as equipes a modificar a estratégia. Ainda se jogava no kick and run mesmo com a alteração na lei do impedimento. Era quase um instinto de “fazer rugby com os pés”. Cenário que começou a mudar na década de 70 do século XIX.

Foi quando aconteceu a primeira variação tática que se tem registro no futebol. A Inglaterra abdicou dos dois centroavantes e da linha de sete na frente. Com base no 2-2-6 dos escoceses, os ingleses recuaram o centroavante para a linha de meio-campo, criando o centre-half (centromédio).

Jonathan Wilson chama este novo sistema de “pirâmide”: dois zagueiros, três meio-campistas, e cinco atacantes. O 2-3-5. Ainda vocacionado ao desequilíbrio entre defesa e ataque, ainda com o vício do kick and run, mas com um claro propósito – criar opções para linhas de passe.

Com o centromédio, inaugurou-se também a figura do organizador. Centralizado, ele não era apenas um combatente, mas o jogador que começava ainda que de forma primitiva a articular a saída de jogo, a fazer a distribuição dos passes, a arriscar lançamentos longos. Futebol como esporte coletivo, eminentemente tático, com variações no posicionamento dos jogadores e na estratégia. Tudo isso a partir da percepção de que não bastava correr sozinho com a bola.

3. As primeiras escolas clássicas de futebol

TRES[

No início do século XX, apesar da situação quase amadora do futebol, já se difundiam conceitos que caracterizavam escolas de futebol em formação. Mesmo com bases táticas semelhantes – ou o 2-2-6, ou o 2-3-5 – utilizadas como default`s, países influentes transmitiam também filosofias. Estratégias. Estilos de jogo. No Inverting the Pyramid, é possível identificar pelo menos três estilos de jogo completamente diferentes que se desenvolveram na transição entre os séculos XIX e XX.

A Escola Inglesa baseava-se no kick and run. Força, mas acima de tudo velocidade. Apesar da mudança na lei do impedimento, que passou a permitir passes à frente da linha da bola, os clubes e a seleção da Inglaterra não abandonaram a estratégia de condução em disparada. Principalmente pelos lados. Alguns ainda no embrionário 1-2-7, outros já no 2-3-5, mas todos investindo demais nas jogadas laterais, com os wingers – jogadores que começavam a se destacar com duas prerrogativas fundamentais: alta velocidade e individualismo para decidir sozinho.

Mas, apesar de ter criado o futebol moderno, não foi a Inglaterra quem exerceu influência teórica sobre países da Europa, principalmente na região central do continente. Foi a Escócia, com o 2-2-6 do Queens Park, e um estilo descrito por Jonathan Wilson como o close/quickly-passing (algo como “passes rápidos e curtos”). Uma estratégia de jogo absolutamente diversa da inglesa. Para os escoceses, a nova lei do impedimento surtiu o efeito ambicionado pelos seus idealizadores: incentivar as linhas de passe. Vale ressaltar que esse Queens Park não é o QP Rangers. É só Queens Park, conhecido como “The Spiders”, clube que não deu sequência a seu sucesso. É o mais antigo da Escócia, mas milita nas divisões inferiores agora.

O estilo escocês foi importado por Áustria e Hungria, formando a Danubian School, a partir de uma excursão de clubes escoceses na região. Austríacos e húngaros perceberam que era mais inteligente aproximar seus jogadores, trocar passes curtos e dessa forma abrir espaços, ao invés de fazer ligação direta para os wingers dispararem, como praticavam os ingleses. As duas seleções – Áustria e Hungria – assumiram até certo protagonismo nas primeiras competições e amistosos internacionais pela Europa, mas depois declinaram.

Outra escola clássica da “idade Antiga do futebol” nasceu no Uruguai, com repercussão semelhante na Argentina. Desde cedo resistentes à influência externa, os argentinos e uruguaios de descendência latina não gostavam do futebol de velocidade e força praticado por ingleses na disseminação do futebol pela região do Rio da Prata.

E começaram a improvisar, brincar com a bola, ludibriar adversários. Driblar. Conforme conceitua Jonathan Wilson, nascia o estilo home-grown (em português, algo como “feito em casa”). O futebol de improviso, mantendo a posse de bola em curto espaço. Foi dessa forma que o Uruguai conquistou duas Olimpíadas (24 e 28), dois Mundiais (30 e 50) e seis Copas Américas em curto espaço de tempo (16, 17, 20, 23, 24 e 26).

Ingleses no chutar e correr; escoceses, austríacos e húngaros no passe rápido e curto; uruguaios e argentinos no drible e no improviso em pequenos espaços. Foram estas, segundo o Inverting the Pyramid, as principais escolas de futebol do início do século XX, que influenciaram tantos outros países a adotar estes mesmos estilos de jogo, mesmo que a base tática (o 2-3-5) fosse corriqueira. Muito cedo o futebol já fortalecia o óbvio: sistema tático é uma coisa, estratégia é outra coisa, e apesar da qualidade técnica dos jogadores ser muito importante, o principal é a organização da equipe em um esporte coletivo.

4. O revolucionário W.M de Herbert Chapman

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A organização das equipes, com todos os conceitos norteadores para sistemas e estratégias, tornou-se prerrogativa fundamental a partir da criação do W.M. O pai dessa revolução tática é o técnico Herbert Chapman, que levou o Arsenal a protagonizar a maior inovação tática da história – se levarmos em consideração todos os efeitos consecutivos ao seu surgimento.

Assim como acontecera no final do século XIX, foi uma nova alteração na regra do impedimento que motivou o desenvolvimento desta nova organização. Em 1925, os dirigentes da FA constataram que o Campeonato Inglês estava chato. Marcava-se poucos gols, mesmo com cinco atacantes dispostos no “default” 2-3-5. A solução encontrada foi reduzir para dois, e não mais três, o número de adversários necessários para legalizar a condição de qualquer jogador. Na prática, um goleiro e um zagueiro à frente eram suficientes – regra que perdurou até a criação da “mesma linha”.

Chapman, que desde 1925 treinava o Arsenal no corriqueiro 2-3-5, em 1930 experimentou três alterações de posicionamento: recuou o centromédio, colocando-o entre os dois zagueiros (criando a figura do “zagueiro central”, conhecida até hoje); e criou uma segunda linha de meio-campo, a partir do recuo dos dois atacantes-internos. *A leitura deste diagrama, um 3-4-3 (ou 3-2-2-3, como queiram) formava no campo duas letras – W no ataque, M na defesa. Nascia o W.M.

A estratégia, entretanto, contrariava o objetivo da FA na mudança da lei de impedimento. O W.M do Arsenal primava pelo contra-ataque. Chapman abdicava da figura do organizador – o centromédio, recuado para a zaga. Na frente, abria seus wingers. Sem a bola, o Arsenal recuava, compactando-se com três zagueiros e “dois volantes”; recuperada a posse, a equipe recorria à ligação direta, em lançamentos longos na direção dos wingers.

Ter o recuo estratégio e o contra-ataque veloz pelos lados como estratégias fizeram o W.M consolidar no futebol inglês um estilo conceituado por Jonathan Wilson como o “wing-play” (algo como “jogo para os wingers”). Os wingers, espécie de pontas velocistas e individualistas, ganharam grande destaque. A Inglaterra formou uma verdadeira geração de craques para a função, notabilizando-se Stanley Mathews como seu principal protagonista – um jogador que criava e finalizava as próprias jogadas. Na prática, o wing-play fez o futebol inglês permanecer individualista, contrariando as filosofias coletivas do passe-curto adotadas na maioria dos países.

Aos poucos, os resultados do Arsenal ampararam a disseminação do W.M como novo sistema tático default na Europa. Equipes que mantinham o 2-3-5 assumiam o risco do “atraso”. Mas Chapman teve de lidar também com uma saraivada de críticas. Afinal, sua interpretação tática da nova lei de impedimento surtiu efeito contrário ao desejado pela FA. Ele foi acusado de tornar o futebol “ainda mais feio”, mais defensivo.

Ele também foi responsabilizado pela estagnação do futebol inglês. Os resultados obtidos pelo W.M foram tão significativos que sua influência enrijeceu os demais treinadores locais. A partir do sistema de Chapman, técnicos de outros países desenvolveram variações, novas interpretações, modificações de acordo com as características de seus jogadores, e conforme a cultura tática que os norteava. Enquanto isso, a Inglaterra blindou-se às inovações. A culpa, obviamente, não era de Chapman.

Na verdade, Chapman foi o precursor de uma filosofia de trabalho hoje impossível de se alijar do futebol: a do verdadeiro técnico, um profissional estudioso e dedicado. O comandante do Arsenal, pai do W.M, é tido por Jonathan Wilson como o introdutor do estudo tático. Chapman fazia preleções, com quadro-negro aos jogadores; analisava os adversários, combatendo suas virtudes e explorando suas deficiências; ministrava palestras táticas, debatia com seus atletas posicionamento. Via no futebol a necessidade de organização coletiva. A imprescindibilidade, aliás, desta organização.

5. Itália reúne dois sistemas e cria o W.W

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Na Itália a revolução chegou e foi adaptada às características do futebol local, interpretação que originou um novo sistema. Conforme Wilson lembra em criteriosa apuração histórica, o regime fascista viu no futebol um importante instrumento de propaganda política. Seria necessário criar, principalmente na seleção nacional, uma identidade. O povo precisaria reconhecer na seleção características também atribuídas ao fascismo, e pelos bons resultados vindouros concluir que tudo ia bem no país.

Com o técnico Pozzo no comando, um nacionalista simpático a esta filosofia, a Itália se decidiu pelo futebol-força. Os jogadores teriam de ser atletas, combinando vigor físico e velocidade. Massa muscular e explosão. E, nas atitudades, serem combativos, determinados e dedicados à causa. “Vencer a qualquer custo” era o lema da Azzurra – lema este que levou a Itália a praticar até mesmo certa violência, com intimidação física em campo, como relata Wilson em diveros jogos importantes. Mas, além do comportamento exigido, a Itália também apresentou nesta época uma bela inovação tática.

Pozzo não confiava no 2-3-5, ainda utilizado como padrão na Europa. E também se mostrava resistente ao recém-surgido W.M. A solução foi reunir ambos. De maneira até certo ponto simplista, é possível dizer que o técnico da seleção italiana montou um planejamento com o sistema defensivo do 2-3-5, e o sistema ofensivo do W.M. Nascia o W.W, que pode ser desdobrado em 2-5-3 (ou em 2-3-2-3, como queiram) – reitero, como já avisara ontem, que a tradução do sistema em letras se dá pela leitura do diagrama tático do ataque para a defesa, padronizando a maneira como Jonathan Wilson faz no Inverting the Pyramid.

A Itália passou a jogar com dois zagueiros, protegidos por um centromédio e dois meias lateralizados, tal qual se usava no 2-3-5. Mas acrescentou uma segunda linha no meio-campo, à exemplo do W.M, recuando os atacantes internos para a intermediária. Na frente, permaneceram o centroavante e dois ponteiros abertos pelos lados. Pozzo também foi um dos pioneiros da marcação individual, que adotava sempre para anular o cérebro da equipe adversária – geralmente o centromédio no 2-3-5, ou o centroavante no W.M.

Foi com o W.W que a Itália conquistou duas Copas do Mundo consecutivas, em 1934 e 1938. A inovação tática e a estratégia de futebol-força a ela aplicada deram grande resultado. Subitamente, a Itália tomava da “Danubian School” – Áustria e Hungria – o protagonismo do futebol europeu, desbancando ainda os pragmáticos ingleses e a escola Sul-Americana representada pelo talento individual dos uruguaios e argentinos.

6. Russos inauguram as trocas de posições

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A Rússia demorou a ingressar no cenário do futebol europeu pelo isolamento geográfico, que os impedia de enfrentar adversários estrangeiros, vivendo durante muito tempo de forma praticamente amadora. A situação se alterou a partir de 1937, quando uma equipe do País Basco excursionou pela Rússia vencendo com facilidade as equipes locais. Enquanto os bascos atuavam no W.M de Herbert Chapman, os russos ainda estagnavam-se no 2-3-5 dos primórdios.

E, assim como nos planos de recuperação da imagem do império na Inglaterra, ou na tentativa de fortalecer uma identidade nacional na Itália fascista, a política interferiu no futebol. Os comunistas não gostaram do massacre basco, e exigiram mudanças.

Pressionados, os técnicos russos debruçaram-se sobre as incipientes pranchetas táticas para estudar maneiras de evoluir. O primeiro passo, lógico, foi a disseminação quase imediata do então desconhecido W.M entre as equipes. E, a partir dele, adotaram a mesma política italiana incrementando a tendência tática com características locais. Também se buscou a profissionalização do campeonato nacional e a abertura para excursões, tanto dos russos para fora, como também a recepção aos estrangeiros no país.

Jonathan Wilson descreve o novo estilo russo implementado na década de 40 como a “desordem organizada”. Tendo o Dinamo Moscow como protagonista, o futebol da Rússia apresentou ao futebol uma estratégia pioneira: as trocas de posições. Desde o início, apesar de todo o crescimento do planejamento tático, e da evolução dos sistemas, os jogadores cumpriam funções e assumiam posicionamentos rígidos.

Tanto os meias-atacantes como também os pontas e o centroavante do Dinamo propunham um verdadeiro carrossel de inversões. O centroavante recuava para o meio, um dos pontas ingressava na área, os meias avançavam pelos lados. Mantendo sempre o desenho do “W” na frente, mas alternando os jogadores que ocupavam cada uma das posições. O que desestruturava a marcação adversária.

No W.M, a marcação era idêntica ao do 3-5-2 brasileiro: individual por função. E agravada pela referência numérica: em 1939, a FA inglesa determinou a adoção fixa dos números de 1 a 11, na ordem crescente por posição, tendo o 2-3-5 como default. Medida que impôs ao centroavante jogar com a 9, aos pontas atuar com 7 e 11, e aos meias vestir a 8 e a 10. Os marcadores tomavam os números como referência. No W.M, por exemplo, o zagueiro central “marcava o 9″, seus companheiros pegavam o 7 e o 11, e os meio-campistas centrais perseguiam o 8 e o 10. Encaixe espelhado perfeito. O famoso “cada um pega o seu”.

A movimentação dos russos destruía este paradigma numérico. O zagueiro central se via obrigado a seguir o camisa 9 aonde ele fosse, abrindo espaço para diagonais dos pontas, ou infiltração dos meias. E todos eles circulando, trocando de posições, arrastavam consequentemente seus marcadores como reféns de um recurso tático ainda não utilizado e, portanto, sem um antídoto.

Eles resgataram ainda o estilo escocês, e também da Danubian School, de passes curtos e valorização da posse de bola pelo chão, sem ligação direta ou correria dos wingers, como se fazia na Inglaterra. O capítulo no qual Jonathan Wilson trata da inovação russa é curto, mas revela a importância desta interpretação do Dinamo Moscow ao W.M, e também como a estratégia aplicada a um determinado sistema tático muda completamente seu funcionamento.

7. A interpretação dos húngaros para o W.M

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Se os russos acrescentaram ao W.M de Herbert Chapman a movimentação dos homens de frente, e os italianos sem o recuo do centromédio montaram o W.W, o futebol da Hungria também contribuiu para o desenvolvimento do sistema. Na Hungria, o W.M virou M.M – lembro que a leitura das letras no diagrama tático, para padronizar, é feita do campo ofensivo para o defensivo. A base desta variação tática é o recuo do centrovante para a segunda linha de meio-campo. Evolução tática, como sempre, amparada em uma peculiaridade local. Estratégia conforme as características do futebol húngaro aplicada à base do W.M britânico.

Ao contrário dos ingleses e seus centroavantões de referência que aparavam na área os cruzamentos dos wingers, os húngaros não gostavam do trombador. Preferiam, desde a introdução do estilo passe-curto escocês na região, um centroavante de mobilidade e velocidade. Um jogador que também participasse da criação das jogadas, ao invés de um “poste” finalizador.

Foi o técnico Gusztav Sebes quem implementou o recuo do centroavante Hidegkuti à zona de armação. A Hungria não jogava mais com dois articuladores, mas sim com três. Beneficiando-se da mesma premissa dos russos nas inversões de posição: com a marcação individual por função do W.M, Hidegkuti arrastava consigo o zagueiro central, abrindo espaços para as infiltrações dos pontas e dos meias. Ou, se o zagueiro não o perseguisse, dominava livre de marcação, para organizar com calma a jogada de ataque.

Com o M.M a Hungria conquistou as Olimpíadas de 1949, e poderia ter sido campeã mundial em 1954, não fosse o contra-veneno da Alemanha Ocidental na decisão. Conforme Jonathan Wilson resgata, a Alemanha intensificou a marcação individual sobre Hidegkuti. Homem-a-homem. Matou a fonte de criatividade húngara, e virou uma partida de 2 a 0 para 3 a 2, talvez contando com certa soberba dos húngaros, que estavam há 36 jogos invictos, com grandes atuações.

Esta Hungria de Sebes foi o embrião também do 4-2-4 imortalizado pelo Brasil em 1958. Reparem no diagrama tático que ilustra o post: além do recuo do centroavante para a armação, a Hungria permitia que seus meias-ofensivos alinhassem com os pontas, formando uma linha de quatro na frente. De início, era só um movimento de ida-e-volta, mas depois se consolidou como posição inicial. O segundo passo, que aconteceu mais adiante, foi o recuo de um meia-defensivo para a linha de defesa (figura que se tornaria, no Brasil, o “quarto-zagueiro”).

8. O 4-2-4 do Brasil bicampeão Mundial

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Vários treinadores reivindicaram a paternidade do 4-2-4, ou então tiveram esta paternidade atribuída por alguém. Certo é que Vicente Feola chegou à Copa de 1958 com um forte legado de boas referências para a consolidação de um sistema que foi se desenhando em diversas partes, em equipes treinadas por nomes como Zezé Moreira, Fleitas Solich, Bélla Guttman e Flávio Costa – técnico do Brasil nas copas de 50 e 54.

O principal elemento catalizador da transição, no Brasil, do W.M para o 4-2-4 foi a indisciplina tática dos jogadores brasileiros. Com a imigração de técnicos húngaros, fugindo da Segunda Grande Guerra, o nosso futebol recebeu grande contribuição na evolução tática. Mas todos esbarraram na inviabilidade de aliar qualidade técnica e comprometimento coletivo. Os jogadores brasileiros não queriam obedecer o rígido posicionamento, nem executar a marcação individual por função do W.M.

Flávio Costa fez grande sucesso no início da Copa de 50 aplicando na Seleção Brasileira um desenho tático que Jonathan Wilson chama de “diagonais”. É uma variação do W.M, com meio-campo formando um paralelograma. O problema foi ter retornado ao W.M tradicional na decisão com o Uruguai, em um imperdoável impulso defensivista. Notem, no diagrama tático abaixo, como funcionava. Na prática, ele desfez o quadrado de meio-campo do W.M (um 3-4-3), aproximando um volante da linha defensiva, e um meia-ofensivo dos três atacantes – tornando-o um ponta-de-lança:

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Este desenho estava próximo de um 4-2-4. De mesma forma, quando os húngaros fizeram seu M.M, o recuo do centroavante para a ponta-de-lança e o avanço dos meias ofensivos também configuravam um embrião do eterno sistema brasileiro. Como sempre, a nova tendência viria da inteligência de treinadores que souberam adaptar um padrão tático às características culturais do futebol local.

Feola se beneficiou destas variações húngaras e brasileiras. Zezé Moreira percebeu que os jogadores do Fluminense não conseguiam se adaptar à marcação individual por função e criou a marcação por zona no W.M. Costa lançou as diagonais. Martim Francisco, no Vila Nova-MG, recuou ainda mais o volante, e avançou ainda mais o ponta-de-lança, em movimento que Jonathan Wilson considera o primeiro 4-2-4 identificável, em 1951. Fleitas Solich fez o mesmo no Flamengo de 53, e Bélla Guttman no São Paulo de 56.

Para a Seleção Brasileira de 1958, o 4-2-4 encaixou perfeitamente à característica do elenco. Pelé, na ponta-de-lança, reunia os elementos requeridos pela função de assessorar o centroavante, criando e concluindo. Garrincha, declaradamente indiscplinado taticamente, abriu pela direita e teve liberdade para brincar. A compensação vinha na esquerda, com o estratégico recuo por dentro de Zagallo. Zito e Didi marcavam e faziam a qualificada saída de jogo. E Bellini, recuado para ser o “quarto zagueiro” – função que até hoje recebe este nome por aqui, recebia autorização para ganhar o meio-campo.

Notem que o avanço eventual de Bellini, e o recuo sincronizado de Zagallo, davam ao Brasil vez que outra a cara do 3-4-3 – o W.M. Com a diferença da variação inovadora da linha de quatro na frente, e principalmente a marcação por zona na linha defensiva – que ganhava laterais, o que evitava as perseguições encaixadas do sistema anterior, responsáveis pelos buracos na área. Um sistema novo que, aliado à qualidade técnica e ao improviso incomparável de Pelé, Garrincha, Didi, Zito…, fez o Brasil vencer com sobras as copas de 58 e 62.

9. Zagallo disseminou as variações táticas

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O 4-2-4 nasceu no Brasil e ganhou destaque com o título de 1958, mas desde seus primeiros dias na Seleção já pendia ao 4-3-3. Graças ao movimento de vai-volta do então ponta-esquerda Zagallo, que pela intensidade com que retornava para auxiliar na marcação, acabava se tornando uma espécie de terceiro homem do meio-campo.

Em 1962 o recuo de Zagallo ficou tão configurado que não se via mais uma variação do 4-2-4 para o 4-3-3, e sim o inverso: o posicionamento inicial do “Formiguinha” – assim chamado pelo desvelo na aplicação tática – partia do meio-campo. O Brasil já atuava com três atacantes, e Zagallo era o pioneiro – ou então, o primeiro a ganhar fama neste sentido – da polivalência. Um jogador capaz de desempenhar mais de uma tática individual (função), permitindo à equipe variar dentro da mesma partida seu sistema tático.

O exemplo de Zagallo disseminou pelo futebol mundial diversas variações táticas. Se até a Copa de 1958 sempre havia uma tendência predominante, que influenciava os demais (primeiro o 2-3-5, depois o W.M, depois o 4-2-4), a partir de Zagallo cada treinador passou a estudar como conciliar as características de seus jogadores a um sistema de jogo que pudesse explorar essas virtudes da melhor maneira.

Em 1966, a Inglaterra conquistou sua primeira – e única – Copa do Mundo amparada em duas variações táticas. Alf Ramsey, técnico dos ingleses, convocou jogadores polivalentes, com a clara intenção de consolidar mais de um sistema tático, mais de uma estratégia, mais de um padrão de jogo. Ele percebeu que, a despeito da técnica individual, da importância do jogador, a organização coletiva está acima do brilho singular que antes predominava no kick and rush, embrião do wing play inglês, que por muitos anos fez o país acreditar que o futebol se decidia pelos pés de um velocista habilidoso “resolvendo sozinho”.

Ramsey começou no 4-2-4 sua jornada, mas rapidamente escolheu “um Zagallo” para variar ao 4-3-3. Segundo Jonathan Wilson resgata no livro Inverting the Pyramid, o winger direito Paine reproduzia no English Team o movimento de vai-vem lateralizado do Formiguinha brasileiro. Com grande sucesso nos amistosos prévios da Copa. Desempenho satisfatório que levou Ramsey a esconder o jogo dos adversários – ele atuava no 4-2-4, mas treinava no 4-3-3, com a intenção de lançar uma falsa percepção do estilo inglês para os concorrentes.

As mudanças não pararam. Tanto que o segundo jogador a recuar, de maneira definitiva, foi o centroavante Bobby Charlton. Ele deixou de ser um segundo jogador de área, para atuar centralizado na segunda linha de meio-campo, como organizador. Na frente, dois homens. Um 4-4-2 bem caracterizado. Paine saiu, mas Ramsey fixou Peters e Ball – dois formiguinhas – pelos lados, completando com Bobby Charlton o setor.

Jonathan Wilson reproduz uma excelente definição de Ramsey, justificando sua escolha à época: “ter dois wingers abertos pelos lados é deixar sua equipe com apenas nove jogadores quando está sem a bola”. Foi para ocupar melhor os espaços no meio-campo que o treinador da Inglaterra optou pelo fim do wing play, pelo fim dos pontas, e pelo fim do 4-2-4. Um centroavante recuou, um winger tornou-se meio-campista, e os atacantes alinharam-se para formar uma dupla de área. Na final, este 4-4-2 venceu a Alemanha Ocidental, que se utilizava do “default” do 4-2-4 brasileiro.

O desenho, entretanto, ainda não era o das famosas “duas linhas de quatro”. Havia um volante central à frente do quarteto defensivo, guarnecendo um trio de articuladores que contava com um organizador, e dois apoiadores que faziam o vai-vem pelos lados do campo. Na prática, um ponta-de-lança e dois Zagallos. O sistema tático deu certo – e escondê-lo nos amistosos lançou surpresa sobre o que os ingleses apresentavam na Copa, sem que os adversários tivessem um antídoto.

10. Catenaccio: pai da retranca e do contra-ataque

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Jonathan Wilson debatia com frequência no blog The Question do site The Guardian sobre a influência do 4-4-2 em duas linhas, que ele considera nociva na Inglaterra. E na leitura do livro “Elementi di Tattica Calcistica – Volume 1″, escrito por Franco Ferrari, encontrei o gancho para falar também da cultura tática italiana.

Quando se diz que na Itália se pratica um futebol dos mais defensivistas, a origem está no Catenaccio. O Catenaccio não é bem um sistema tático, mas sim uma estratégia de jogo. E esta estratégia volta-se a duas prerrogativas fundamentais: solidez defensiva e velocidade no contra-ataque.

O surgimento do Catenaccio se deu no início da década de 30. A criação é atribuída a Karl Rappan, técnico do Grasshopers e depois da seleção da Suíça. Mas foi na Itália que esta estratégia se disseminou, tendo a Inter de Milão bicampeã europeia como seu principal propagandista.

Na descrição tática, o Catenaccio original pode ser visto como uma espécie de 4-3-3 sem laterais. Os jogadores eram distribuídos da seguinte forma: um líbero fixo (quase uma contradição, afinal o líbero é um jogador “livre”), que pode ser comparado ao nosso “homem da sobra” do 3-5-2 brasileiro; à frente deste líbero fixo, três zagueiros não menos rígidos; e logo depois do paredão de quatro zagueiros, um volante complementava o bloco defensivo.

No meio-campo, uma linha à frente do volante, posicionavam-se dois meias mais abertos, ainda no campo defensivo. E na frente, três atacantes: dois pontas e um centroavante. Notem no diagrama tático que ilustra o post a grande concentração de jogadores centralizados no campo defensivo, e o espaço entre eles e os atacantes.

Segundo Franco Ferrari, autor do livro citado e instrutor da escola de treinadores da Uefa, o Catenaccio variava o sistema de marcação entre o individual e a zona. E a estratégia de jogo assim é descrita por Ferrari: “o time estacionava no próprio campo, sempre com superioridade numérica, de maneira compacta e sem oferecer espaços; no momento da reconquista da bola, avançava-se em profundidade no campo adversário, com lançamentos longos”.

Sem a bola, retranca; com a bola, contra-ataque veloz. Abdica da posse de bola, atrai estrategicamente o adversário para o próprio campo, assume o risco da pressão, até encontrar o momento certo de encaixar uma precisa transição ofensiva. Foi esta estratégia que durante muitos anos influenciou o futebol italiano, e fez esta escola clássica ser conhecida mundialmente pelo defensivismo e pelo pragmatismo.

11. A gênese da catimba argentina nos anos 60

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Segundo o Inverting the Pyramid, tudo começou com a falsa impressão – entre os argentinos – de que eles praticavam um futebol de exceção, nos anos 50. Percepção que não se sustentava, pelo isolamento do futebol no país, distante dos confrontos com equipes estrangeiras e seleções. Não havia base de comparação.

Ainda no jurássico 2-3-5, a Argentina foi massacrada pela Checoslováquia na Copa de 58, por 6 a 1. Foram à Suécia acreditando-se os melhores, retornaram cheios de dúvidas. De imediato, importaram o 4-2-4 brasileiro, sem passar pelo estágio do W.M que já caía em desuso no Mundo. Abriam-se, portanto, às tendências táticas. Pretendiam evoluir.

Mas os reveses nas copas persistiram. Jogar bonito, ter técnica, procurar o gol, nada disto bastava. A Argentina buscava um padrão, uma característica, uma tradição. Como acontecera aos húngaros e austríacos da Danubian School, ou aos russos da desordem organizada, ou aos ingleses do W.M, ou até mesmo aos vizinhos brasileiros e seus virtuosos jogadores no 4-2-4.

Era preciso ter vontade de vencer. Ou melhor: vencer a qualquer custo. Aos poucos, os clubes argentinos começavam a aplicar ao 4-2-4 uma estratégia de jogo que para os perplexos olhos estrangeiros foi rotulado de anti-jogo, ou catimba. Ao invés de jogar bonito e tentar o gol, a meta passava a ser a marcação forte, o aguerrimento, e a fortaleza defensiva.

Essa característica tomou forma nas conquistas argentinas na Copa Libertadores, nos anos 60. Primeiro com o Racing, depois com o Estudiantes do técnico Zubeldia – equipe tricampeã continental, difusora de uma centena de folclores por eles negados, mas pelo mundo confirmados, de violência física (socos e chutes que até mesmo fraturas provocavam), intimidação psicológica (ameaças a adversários, uso de informações pessoais para desestabilizá-los), e a aplicação de agulhas (“pinchas”) para espetar adversários.

As intimidações relatadas por Jonathan Wilson chegam a ser, de tão absurdas, engraçadas. Comandados por Bilardo, volante que representava em campo as orientações de Zubeldia, os jogadores do Estudiantes esmeravam-se em desestabilizar os oponentes. Em um jogo, descobriu-se que um adversário manteve relacionamento quase incestuoso com a mãe, recém-falecida. Um jogador do Estudiantes se aproximou dele e falou – segundo o Inverting the Pyramid: “parabéns, até que enfim você conseguiu matar a própria mãe”.

Mas o Estudiantes tricampeão da Libertadores não era apenas o precursor da catimba, representante de um futebol que ultrapassava a virilidade para chegar à violência. O time de Zubeldia trouxe à Argentina duas inovações estratégicas aplicadas ao 4-2-4: a marcação-pressão e a linha de impedimento. O Estudiantes se adiantava, mesmo sem a bola posicionava-se à frente da própria intermediária. Retirava espaço do adversário, e combatia quem recebia a bola com dois ou três jogadores. Os pontas – La Bruja Verón e Ribaudo – auxiliavam a preencher o meio-campo, como faziam os “tornantes” do catenaccio italiano (wingers avançados com a bola, recuados sem ela).

Os recursos de anti-jogo ficaram, entretanto, mais conhecidos do que a linha de impedimento e a marcação-pressão adiantada em função dos confrontos com os clubes europes, em dois jogos, nas finais dos Mundiais Interclubes.

12. O futebol total do carrossel holandês

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Segundo Jonathan Wilson, o futebol total holandês se baseava em duas premissas principais: linha de impedimento e marcação sob pressão alta. A estratégia era adiantar o posicionamento inicial de todos os jogadores, sufocando o adversário, ocupando espaços e diminuindo o tempo necessário para o time rival pensar o jogo.

Mas a principal novidade tática eram as trocas de posições verticais. Princípio diferente da desordem organizada dos russos, já analisados aqui, que primavam pelas inversões de posicionamento horizontais – setorizadas, portanto: atacantes saindo da direita para a esquerda, meias fazendo o mesmo. Inversões de lado a outro, sem modificar a formação dos setores (defesa, meio e ataque).

Na Holanda – primeiro com o Ajax (conforme diagrama tático que ilustra o post), depois com a Seleção Nacional – o técnico Rinus Michels instituiu as trocas verticais. Dividido o campo em esquerda, direita e centro, eram nestas faixas que os jogadores invertiam posicionamento. Uma estratégia muito mais difícil de ser diagnosticada pelo adversário.

O básico, ainda utilizado até hoje, é passar o ponta-direita para a esquerda, e o canhoto para a destra – por exemplo. Movimento que não desorganiza o adversário. Agora, se o lateral se torna ponta, se o ponteiro recua para a linha defensiva, se o meia vira líbero, e o líbero aparece na área, aí a marcação adversária – principalmente se houver perseguição individual – naufraga.

O sistema tático era o 4-3-3, mas com um desenho que poderia ser desdobrado em 1-3-3-3: um líbero, três defensores, três meio-campistas, e três atacantes. As inversões de posicionamento se davam, portanto, entre os três jogadores da esquerda, os três da direita, e os quatro do meio-campo. As mais características aconteciam na faixa central, com Cruyff recuando e abrindo espaço para Neeskens, ou com o líbero Hulshoff avançando de surpresa.

No 4-3-3, com líbero, linhas adiantadas, marcação sob pressão alta, uso da linha de impedimento, inversões de posicionamento verticais, estes eram os princípios básicos do futebol total holandês. Acrescidos, é evidente, pela inteligência de Rinus Michels e de seus jogadores: o primeiro, capaz de planejar tal organização complexa; e os demais, de compreender e executar.

13. Brasil de 1970: o último romântico

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O time treinado por Zagallo é o protagonista do capítulo “Fly Me to the Moon”, na obra que apresenta a história e a evolução das táticas no futebol. Jonathan Wilson destaca que o Brasil de 70 é o último dos times que abriu espaço para todos os seus bons jogadores. Zagallo, com muita inteligência, soube encontrar espaço na Seleção Brasileira para cada um dos craques do momento. E conviveu, à época, com dilemas que colocavam Gérson e Rivelino como concorrentes a uma posição, assim como Pelé e Tostão – entre os quatro, alguns diziam, apenas dois poderiam jogar.

A solução de Zagallo se deu a partir do recuo de Gérson, que passou a desempenhar uma função na Itália conhecida por “regista” – uma espécie de segundo volante responsável pela saída de bola qualificada, com passes curtos ou longos, regendo a transição ofensiva. Clodoaldo assumia a responsabilidade de proteger a dupla de zagueiros, que tinha aos lados dois laterais distintos: pela direita, o apoiador Carlos Alberto; na esquerda, o marcador Everaldo.

À frente de Clodoaldo e Gérson, distribuíam-se quatro jogadores ofensivos. Rivelino à esquerda, aproximando-se do trio formado pelo ponta Jairzinho, na direita, e pelos pontas-de-lança Tostão e Pelé, centralizados. Rivelino ocupava um lado, Jairizinho abria o corredor em diagonal para a passagem de Carlos Alberto no outro, e a dupla de frente tratava de acabar com a vida dos zagueiros adversários.

Esta formação, descrita no diagrama tático que ilustra o post, privilegiava os jogadores mais talentosos. Mesmo sob o risco de sobrepôr algumas características semelhantes, Zagallo encontrou lugar para atletas que nos clubes desempenhavam funções equivalentes. E o desenho resultante causa para Jonathan Wilson até mesmo uma certa indefinição:

“Era um 4-4-2, um 4-3-3, um 4-2-4, ou até mesmo um 4-5-1? Era todos, e nenhum. Era apenas jogadores em um campo, que se complementavam perfeitamente. Modernamente, poderia muito bem ser descrito como um 4-2-3-1, mas tais sutilezas não significavam tanto na época”, analisa Jonathan Wilson.

É uma analogia interessante. O desenho lembra o 4-2-4 campeão em 1958. Mas o posicionamento inicial de Rivelino também sugere a variação para 4-3-3 criada pelo próprio jogador Zagallo, entre 58 e 1962. Alguém pode ainda ver um 4-4-2, considerando Jairzinho um meia. Ou então enxergar o 4-5-1 desdobrado em 4-2-3-1, com Tostão à frente de Pelé, Jairzinho e Rivelino. Eram os melhores jogando, no último suspiro do futebol romântico, onde há camisas suficientes para todos os craques, a despeito do sistema tático escolhido.

14. 3-5-2: a culpa é dos argentinos

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O pai do 3-5-2, segundo Jonathan Wilson, é Carlos Bilardo. Técnico da seleção da Argentina na Copa de 1986, ele sempre teve predileção por estratégias cautelosas. Para ele, um time de futebol precisa de sete jogadores defendendo, e três atacando.

A criação do 3-5-2 partiu do seguinte raciocínio: frente à extinção dos pontas, na transição do 4-3-3 para o 4-4-2, por que manter laterais presos à linha defensiva? Não havia, na teoria, quem ser marcado no setor. A partir daí, Bilardo desenvolveu o novo sistema tático, que revolucionou o futebol mundial no final da década, e no início dos anos 90.

Pelos lados, havia três opções: utilizar meio-campistas – como preferiu Bilardo, com Olarticoechea e Giusti; laterais ofensivos, como fez a Alemanha na copa seguinte, com Brehme e Reuter; ou laterais defensivos, configurando o 5-3-2 – a inversão completa da pirâmide tática (afinal, o primeiro sistema tático organizado reconhecido era o 2-3-5, uma pirâmide de base alta).

No 3-5-2 da Argentina, Bilardo se dava ao luxo de manter sete jogadores defendendo, pela presença de Maradona. Em grande fase, o camisa 10 foi utilizado como um segundo atacante livre para se movimentar, ocupar espaços, driblar e levar o time para a frente. Valdano era o homem mais adiantado, e Burruchaga o meia de aproximação, completando o trio ofensivo.

Mas, como era novidade, Bilardo fez mistério. Atuou na primeira fase inteira no 4-4-2, e passou ao 3-5-2 contra a Inglaterra, no mata-mata. Fez sucesso. Combinar um meio-campo ocupado por cinco jogadores, abolir os laterais, e recuperar a figura do líbero pós-Copa de 1966, difundida pela Holanda de Cruyff, abriu um grande precedente entre equipes e seleções. Virou moda. Todos passaram a usar. Principalmente na Itália, onde este “5-3-2″ quase lembrava um catenaccio.

O contexto é muito oportuno, como bem Jonathan Wilson ampara em números: a Copa de 1990, abarrotada de seleções no 3-5-2, teve a pior média de gols da história. Foi uma copa “feia”. Cruyff disse que a substituição dos pontas pelos alas significava a “morte do futebol”. A Euro 92 teve média de gols ainda mais baixa. A Fifa procurou mudar regras para o futebol voltar à vida.

Aos poucos, o 3-5-2 caiu em desuso. Menos no Brasil, onde a prática cada vez mais comum influencia países vizinhos, como Uruguai e Paraguai. E há enclaves de resgate do 3-5-2 também na Itália. Ainda assim, é tido por Jonathan Wilson como um sistema ultrapassado e em extinção.

15. O 4-4-2 do Brasil na Copa de 1982

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O Brasil de Telê Santana jogava em um clássico 4-4-2 brasileiro, com dois volantes e dois meias criativos. Já se partia da tendência lançada poucos anos antes, do “quarto homem do meio de campo”, provocada pelo recuo de um dos pontas. À época, o humorista Jô Soares até pedia com insistência: “bota ponta, Telê”. A opinião pública estava acostumada a ver times e seleções no 4-3-3, mas o Brasil se adaptava a um sistema que lhe caberia muito bem, e por longos anos.

A base tática tinha uma linha de quatro defensores, protegida por dois volantes. A zona de articulação contava com Sócrates pouco mais centralizado, enquanto Zico avançava preferencialmente pela direita. A compensação se dava no ataque, onde Éder era o ponta remanescente, pela esquerda, tendo Serginho na referência de área.

A estratégia era diversificada. Ambos os laterais apoiavam, principalmente Júnior, que ora passava pelo lado, empurrando Éder para o centro, ora fazia a diagonal, permitindo a Éder se utilizar do corredor. Os dois volantes – Falcão e Cerezo – com técnica acima da média para a função, exerciam a saída de bola sempre pelo chão.

O Brasil jogava de pé em pé, com variações de jogadas, aproximações, triangulações, passagens, infiltrações. Era uma equipe sincronizada em seus movimentos ofensivos. Com jogadores qualificados e inteligentes. Pouco previsível pelos adversários, embora algumas vezes vulnerável em função da própria vocação.

Dentro deste contexto, destoava o centroavante Serginho Chulapa. Telê não pôde contar com Careca e Reinaldo, dois jogadores que poderia participar destas combinações pelo chão, e também concluir. Serginho era apenas um definidor, oportunista, dependente dos demais. A eliminação, entretanto, logicamente não passa exclusivamente pela falta de um centroavante mais técnico. Mas este fator contribuiu, assim como a ausência de um goleiro de exceção, para a eliminação quase inacredítavel da Seleção para uma Itália que tinha o declinante gioco all’italiana.

16. O surgimento do 4-4-2 britânico no Liverpool

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A estratégia aplicada a este 4-4-2 em duas linhas nasceu em 1973, no Estádio Anfield Road, casa do Liverpool. Após derrota para o Estrela Vermelha por 2 a 1, que provocou a eliminação na Champions League, dirigentes e integrantes da comissão técnica dos Reds se reuniram para buscar as causas do insucesso. E diagnosticaram: o “pessoal do continente” sabia como ninguém controlar a posse de bola.

Era preciso aprender a jogar com a bola nos pés. E, para isso, a equipe precisaria se compactar. Formar duas linhas, adiantar a primeira, compactar um pelotão de oito jogadores. Assim, o Liverpool teria linhas de passe. A ideia que justificou este planejamento tático partia do seguinte princípio: o jogador que tivesse a bola contaria sempre com pelo menos duas ou três opções de passe curto. Os Reds jogariam sem pressa, trocando passes no campo adversário, “rodando” o jogo, “girando” a bola, de pé em pé, até desorganizar a defesa adversária, abrir espaços, e conseguir uma infiltração pelo chão.

Os pensadores do Liverpool também imaginaram que esta iniciativa de controle da posse de bola deveria partir da defesa. Zagueiros trombadores, sem qualidade, foram trocados por defensores com capacidade de fazer o primeiro passe. A partir dali, os meias-centrais – com opções próximas na direita, na esquerda, à frente, atrás – poderiam antever os próximos movimentos da equipe. E promover uma linha de passe que levasse o Liverpool ao gol adversário.

Este ideal estratégico do 4-4-2 em duas linhas, entretanto, foi adaptado rapidamente à necessidade de times menores. Watford e Wimbledon obtiveram sucesso utilizando-se deste sistema para jogar em contra-ataques. O contrário do que propunha o Liverpool.

Agrupar-se não para trocar passes, e sim para retirar espaços. Adiantar as linhas de marcação e forçar com pressão alta o erro adversário. Recuperada a bola, aqueles jogadores de defesa com qualidade fariam o passe longo na direção dos wingers, em transições ofensivas fulminantes. Logo a figura do centroavante de referência foi incluída nesta nova estratégia. Nascia o criticado estilo de jogo dos ingleses nos anos 80: ligação direta, força física na marcação, bola aérea, e pouca posse de bola.

Há pesquisadores que atribuem à seleção da Inglaterra na Copa de 1966 a criação das duas linhas. Na verdade, como o próprio Wilson explica no Inverting the Pyramid, os ingleses apresentaram naquele Mundial o primeiro 4-4-2 que se tem registro, mas com desenho em losango no meio-campo. Não era, portanto, o 4-4-2 britânico, que nasceria sete anos depois em Anfield Road.

Gegenpressing

Popularizou-se com o modelo de jogo elaborado por Jürgen Klopp no Borussia Dortmund o termo “gegenpressing” para caracterizar o momento de transição ataque-defesa no futebol de alto nível. É um sinônimo em alemão para a palavra “counterpressing”, ambas significando para nós brasileiros a “pressão sobre o contra-ataque adversário”. O contra-ataque do contra-ataque.

No capítulo 8 do e-book gratuito reescrito em posts neste blog já foi abordado o tema Transição Defensiva, com os pormenores teóricos desta fase do jogo. Vale recordar, resumidamente, os princípios desta fase – ou seja, as regras gerais que o treinador deve elaborar em seu modelo de jogo para orientar os jogadores (condicionar a tomada de decisão) no momento em que há troca de posse em favor do adversário.

Segundo o professor Rodrigo Leitão, os princípios estruturais dizem respeito a relação numérica entre os jogadores que participam da ação ofensiva, e os jogadores que permanecem atrás da linha da bola – em relação com os espaços no campo defensivo e com os adversários à frente da linha da bola. São eles:

  • Densidade Defensiva: confronta a quantidade de jogadores atrás da linha da bola (em espera) com os adversários à frente da linha da bola, em geral buscando superioridade defensiva;
  • Balanço Defensivo: número de jogadores atrás da linha da bola na fase ofensiva, e a maneira como eles estão distribuídos em campo;
  • Proporção de Defesa: confronta, dentro do próprio time, quantos jogadores participam ativamente da ação ofensiva, e quantos estão “em espera”.

Já os princípios organizacionais são as regras em si estipuladas aos jogadores – os comportamentos que se pretende executar coletivamente no momento da perda da bola:

  • Pressionar o portador da bola;
  • Recompor (retornar);
  • Manter a organização da estrutura.

Todos estes princípios são levados em consideração na “gegenpressing”. Esta transição defensiva agressiva delimita o tempo necessário para se recuperar a posse exercendo imediata pressão a partir da perda.

Em geral, as equipes trabalham com o tempo de 5 segundos: perdeu a bola, os jogadores próximos seguem o plano e pressionam imediatamente; se, em 5 segundos a bola não foi recuperada, muda-se o comportamento para recomposição e reorganização das linhas de defesa, entrando em organização defensiva. No Grêmio trabalha-se com métricas (cálculos matemáticos sobre scouts agrupados em princípios), e entre várias medições é monitorada a REC 5 – exatamente a recuperação em 5 segundos (quantas vezes ocorre, em que quadrantes do campo, com qual percentual de êxito, com quais jogadores) – tanto do Grêmio como dos adversários.

O site spielverlagerung.de publicou há algum tempo um excelente artigo esmiuçando os pormenores táticos elaborados pelos treinadores de ponta no desenvolvimento da transição defensiva agressiva -> cliquem aqui.

No artigo, o autor enumera dois requisitos fundamentais para a execução da gegen – ou counter – pressing, como diz o título do texto:

  • Unidade Ofensiva: atacar de forma organizada, com movimentos sincronizados e jogo posicional claro, mantém os jogadores próximos e permite uma reação coletiva no imediato momento da perda da bola; é um pensamento que funciona “melhor” para os times que valorizam a posse de bola e a circulação em triangulações em passes curtos.

    O que me faz lembrar uma frase do técnico Roger Machado nos treinos do Grêmio: “quem tá próximo para jogar, tá próximo para marcar“.

    Ou seja, o mesmo grupo que articulava-se com aproximações em posse é o responsável por, estando no centro de jogo (no raio de 9,15m ao redor da bola), pressionar os adversários para a recuperação imediata da bola;

  • Balanço Defensivo: como já foi dito, o número de jogadores atrás da linha da bola na fase de organização ofensiva, e sua distribuição em campo (princípio que sustenta – dá segurança – aos jogadores que estão no centro de jogo para que eles pressionem a bola);
  • Eu tomo a liberdade ainda de acrescentar a Preparação Física. Afinal, é um princípio de jogo que exige alto condicionamento dos jogadores, o que será alcançado apenas com treinamentos em periodização tática que atendam à especificidade desta ação.

Thomas Tuchel, sucessor de Klopp, mantém esta “pegada” no Borussia. Pesquei um exemplo da partida contra o próprio Liverpool de Klopp – empate em 1 a 1 na Alemanha, pela Liga Europa. Vejamos:

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O cronômetro marca 6’12” do 1º tempo. O meia 10-Mkhtaryan, pressionado por dois adversários, perde a bola. Estão na periferia do centro de jogo os atacantes 11-Reus e 17-Aubameyang,  e o ala-extremo 37-Durm.

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No cronômetro, vemos que passaram-se 4 segundos (dentro, portanto, do período de “gegenpressing”). Notem que o Borussia agora tem 6 jogadores dentro do centro de jogo. As setas demonstram que pelo menos quatro jogadores tiveram comportamento agressivo de aproximação, tanto para pressionar o portador, como para marcar os dois alvos de passe próximo à frente: tanto os atacantes 11-Reus e 17-Aubameyang, como o próprio 10-Mkhtaryan, e além deles o volante 33-Weigl e o meia oposto 27-Castro (ambos estavam fora do vídeo na primeira imagem), assim como as aproximações em cobertura do 37-Durm e do lateral-direito 26-Piszczek.

O que aconteceu? Em 4 segundos a partir da perda, o portador da bola “apavora-se” com a pressão de 6 adversários e é induzido a tomar a decisão errada com a execução técnica errada: faz o passe nos pés do 10-Mkhtaryan sem que tivesse sequer algum companheiro naquela direção. Livrou-se da bola.

Mas estas regras – os princípios da transição defensiva agressiva – precisam também prever o plano B: o que fazer após os 5 segundos se a recuperação da posse não ocorrer?

Além da equipe perguntar-se quando pressionar? e como pressionar? também precisa perguntar-se (e ter respostas estabelecidas no plano de jogo, treinadas até condicionar o comportamento coletivo dos jogadores) por quanto tempo pressionar? e quando parar de pressionar? Times bem treinados têm ideias claras, e os jogadores são condicionados a tomar decisões de acordo com o modelo, avaliando a cada fração de segundo qual comportamento adotar.

Vejamos este exemplo do mesmo Borussia de Tuchel contra o Liverpool. Há neste lance uma boa concentração de jogadores no centro de jogo e na periferia imediata a ele. Estão próximos do 33-Weigl – que errou o passe e seguiu a trajetória da bola para pressionar imediatamente o portador – outros 4 jogadores do Borussia (Castro, Schmelzer, Reus e Mkhtaryan).

Porém, observem o comportamento do lateral-direito 26-Piszczek. O cronômetro marca 42’40″do 1º tempo.

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O portador da bola – parece-me o volante-meia 23-Emre Can – encontra a solução mais indicada sob pressão por trás: jogar em um tempo. Ele faz o passe de primeira para o jogador que se projeta (7-Milner, sinalizado com a linha vermelha), saindo imediatamente da pressão e encontrando espaço para o receptor do passe progredir tendo ainda dois companheiros próximos (14-Henderson e 10-Coutinho, ambos à esquerda de Milner).

Dois segundos depois (cronômetro do 42’42”) vejam qual foi a tomada de decisão de Piszczek: ora, se não dá para pressionar coletivamente e estou em inferioridade numérica, subir o combate abriria um espaço relevante às costas e induziria Milner a acionar Coutinho em velocidade e sem marcação. O que faz o lateral-direito do Borussia?

Plano B: recua em velocidade a ponto de ignorar completamente a bola (vira-se de costas para o portador, tendo como objetivo específico defender o espaço e reorganizar as linhas):

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Nota-se que o volante 27-Castro também toma a mesma decisão. Fica evidente que ambos “pensaram juntos”, avaliaram a situação sob a mesma perspectiva tática e, portanto, agiram coletivamente. Uma demonstração de time bem treinado. Jogadores condicionados a ler cada situação de acordo com os princípios do modelo de jogo em cada fase, e assim avaliando todas as circunstâncias, tomar decisões que atendam a estas regras em sentido de unidade (todos pensando da mesma forma, um antecipando a ação/reação do outro).

Na sequência do lance, os jogadores que garantiam o balanço defensivo (os dois zagueiros) fazem a temporização (atrasam a jogada), dando tempo à recomposição dos jogadores que retornaram em velocidade (comandados pela rápida mudança de comportamento do volante e do lateral-direito) e em superioridade numérica, com os espaços ocupados de forma organizada, o Borussia recupera a bola e estanca o contra-ataque.

O artigo apresenta três tipos de “gegenpressing” utilizados atualmente, sob a perspectiva da cobertura na periferia do centro de jogo:

  • encurtamento com encaixes individuais – pressão individual no portador e fechamento individual das linhas de passe;
  • ênfase na pressão ao portador (alvo é a bola);
  • encurtamento com fechamento dos ângulos de passe (pressão ao portador e aproximação ao centro de jogo dos demais jogadores, fazendo “sombra”à frente das linhas de passe (colocando-se entre o portador e os alvos).

Todas estas regras variando conforme o objetivo, e podem até ser adaptadas ao modelo de jogo adversário (estratégia, princípio específico). Em geral, as metas principais são roubar a bola, isolar o portador, impedir ou atrasar a progressão – fazer recuar, induzir ao erro, bloquear o corredor central – induzir à saída lateral, proteger espaços relevantes…e até mesmo, dependendo da circunstância, parar a jogada (falta).

As vantagens apontadas para a transição defensiva agressiva – gegenpressing, counterpressing ou REC 5, como queiram – são fundamentalmente três, todas elas interligadas:

  • Estabilidade defensiva: hoje as equipes, em especial as de ponta, são exímias em transições ofensivas. Apenas recuar e se reestruturar no momento da perda da bola dá a adversários com jogadores de extrema qualidade técnica, velocidade, controle de bola, qualidade de passe e capacidade de vitória pessoal no 1×1, tempo e espaço para progredir e tomar decisões acertadas. A pressão imediata freia esta progressão, induz ao recuo ou ao erro, e evita a exposição à velocidade e qualidade de extremos e atacantes decisivos;
  • Evitar desorganização: quando se está atacando, os jogadores projetam-se e ocupam espaços ofensivos. A perda da bola pode expor espaços relevantes no campo defensivo. Ao mesmo tempo, quando o adversário recupera a bola, seus jogadores também se projetam, e agora é ele quem tende a se expor. O que leva à terceira vantagem:
  • Atacar: se o adversário, quando rouba a bola, entra em transição ofensiva e projeta seus jogadores, a recuperação imediata da bola permite ao time aproveitar esta saída do bloco rival, identificando e atacando espaços vulneráveis. O contra-ataque do contra-ataque. O que se torna ainda mais vantajoso por ocorrer no campo ofensivo – próximo à zona de criação e finalização.

Cabe aos treinadores elaborar planos claros para esta fase de jogo, estabelecendo as regras e estimulando nos treinos específicos os jogadores a saber identificar/avaliar os momentos de perda de bola para saber quando, como, onde, quem e para que pressionar a bola imediatamente após a perda. Outro elemento importante, realizado no Grêmio, é o monitoramento constante da métrica que mede este princípio (em nosso caso, a REC 5) para saber o percentual de êxito, os locais do campo (e, portanto, os jogadores envolvidos), as situações e os contextos onde ela foi realizada e funcionou – o que vai nortear os treinos específicos e estabelecer metas de evolução.