Mecanismos do 3-4-3 – possível tendência em desenvolvimento

Em geral as Copas do Mundo são eventos disseminadores de tendências táticas, principalmente exportando ideias para locais onde a evolução é mais lenta. O exemplo mais recente é o torneio de 2010 do qual, mesmo afirmado na Europa há uma década, o 4-2-3-1 partiu rumo à quase unanimidade.

Quatro anos depois Holanda, Costa Rica e Chile vieram à Copa sediada no Brasil apresentando versões interessantes de sistemas com três zagueiros – Sampaoli mais ofensivo com La Roja, enquanto holandeses e costa-riquenhos apresentando o 5-4-1 na fase defensiva.

Não chamou tanta atenção, até por não ser novidade – Conte à época fazia algo parecido na Juventus. Mas agora o treinador italiano empilha vitórias na Premier League levando ao Chelsea a base híbrida de três zagueiros com a qual fora bem sucedido na própria Juve e na seleção italiana.

Além das Copas, outro ponto disseminador de ideias é: resultado. E as campanhas recentes de Conte começam a influenciar equipes da Inglaterra, da Itália e até do Brasil. Estaríamos assistindo ao próximo capítulo da linha do tempo tática? O 5-4-1 / 3-4-3 de Conte? Autor do livro “A Inversão da Pirâmide” recentemente traduzido pelo jornalista André Kfouri, o também jornalista Jonathan Wilson, disse em entrevista à Zero Hora que não enxerga o modelo de jogo de Conte como algo inovador. Mas pode ser que ele mude de ideia.

Sistema híbrido
Já escrevi como os sistemas táticos têm se tornado cada vez mais híbridos – formações muito distintas entre as fases defensiva e ofensiva. E Conte está surfando nesta vanguarda. Com a bola a equipe parte do 3-4-3, mas sem a bola parte do 5-4-1:

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Linha de 5 ofensiva
As variações na estrutura inicial, entretanto, não me parecem o principal aspecto do modelo de jogo do Chelsea. É interessante ver como a equipe sai da defesa em linha de 5 para o ataque em linha de 5.

Invariavelmente o Chelsea faz a reinversão da pirâmide, saindo do 5-4-1 para o 3-2-5: os dois alas oferecem amplitude e profundidade simultâneas, ambos abertos e espetados sobre a defesa adversária, empurrando o trio ofensivo para o corredor central, deixando os volantes por trás desta linha e mantendo o trio defensivo ao mesmo tempo aberto e adiantado – muitas vezes com dois zagueiros no campo de ataque:

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Esta estrutura favorece o ataque posicional, facilitando a circulação de bola devido à permanência dos alas na amplitude e dos volantes no retorno. Define o lado, tenta progredir, e em caso de bloqueio, circula por trás e chega ao outro lado – ou faz a inversão longa. Enquanto isso, o trio de zagueiros também abre, proporcionando que a circulação se dê desde a primeira linha caso seja necessário, encontrando mais de uma alternativa para trocar o corredor e manter a posse.

Além da circulação facilitada, a linha de 5 ofensiva cria grande tensão sobre os zagueiros adversários, aproximando o trio de atacantes sobre a dupla de zagueiros.

O mais interessante é ver o caos provocado pela ausência de extremos – função muito valorizada nos sistemas em duas linhas, principalmente no 4-2-3-1. No Chelsea são Hazard e Pedro. Eles não jogam abertos. Atuam em uma zona quase central, num ponto-cego entre laterais, zagueiros e volantes adversários.

Na entrevista já citada à Zero Hora, Jonathan Wilson endossa esta observação:

“Esses dois jogadores abertos no trio de ataque são muito difíceis de marcar. Não ficam exatamente no meio, então é complicado saber de quem é a responsabilidade de vigiá-los”.

Os zagueiros já estão preocupados com Diego Costa; se buscarem Pedro e Hazard, ficam em inferioridade numérica. Se os laterais os acompanham, abrem os lados para os alas que estão espetados, forçando que os extremos desçam e formem uma linha defensiva de 6 jogadores para compensar. E se os volantes se ocupam deles, deixam o meia e o centroavante sobrecarregados com os dois volantes e os três zagueiros na construção em franca superioridade. O que fazer?

Reinversão da pirâmide
Embora este 3-4-3 se transforme em um 3-2-5 na fase ofensiva, muitas vezes um dos zagueiros se adianta à linha dos volantes, aumentando a superioridade no corredor central e incrementando ainda mais as possibilidades de circulação e de ataque posicional. Forma-se então o 2-3-5, a famosa Pirâmide consagrada na obra de Jonathan Wilson.

Na maioria das vezes é Azpilicueta quem se apresenta pela direita (lateral de origem utilizado como zagueiro), embora Cahill não esteja proibido de fazer o mesmo na esquerda. O espaço surge exatamente pela tensão que a linha ofensiva de 5 jogadores provoca nos adversários – empurra os extremos rivais para os lados da área e abre grande espaço ao avanço de um dos zagueiros. Este princípio deu origem inclusive a pelo menos dois gols de cruzamentos da direita pelo Azpilicueta: ataca o espaço, recebe livre e coloca na área:

 

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Esta é uma estrutura muito utilizada por Guardiola em todas as suas equipes. Encontrei em meus arquivos duas imagens, uma do Bayern e outra do City – ambas partindo do 4-3-3 para formar o 2-3-5 na fase ofensiva.

Alteram-se apenas os movimentos que levam a esta formação: enquanto Conte prefere alas na amplitude máxima, Guardiola quer os extremos na amplitude, deixando os laterais na linha de organização (na imagem do City podemos considerar muito mais um 3-2-5 pelo posicionamento do volante Fernandinho próximo aos zagueiros):

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Área ocupada
Conte aparenta estar certo quando pensa o jogo com os laterais na amplitude, e não com os extremos. Se fizesse o contrário, teria Hazard e Pedro – seus jogadores mais decisivos em 1×1 e finalização – distantes do gol. Colocando os alas em amplitude, ele aproxima Hazard e Pedro do centroavante Diego Costa e entre si, formando um trio de grande mobilidade e agressividade – como eu já disse, provocando tensão e caos nos zagueiros.

Outra beneficiada deste princípio é a ocupação da área: estando os três atacantes próximos uns dos outros, e no centro, em iminência de cruzamentos eles podem atacar rapidamente a área. Muitas vezes, ganhando a companhia do ala oposto (segunda imagem abaixo), dando ao ala com a bola entre 3 e 4 alvos para o cruzamento se transformar em assistência:

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O mesmo princípio – amplitude máxima com os alas ao mesmo tempo – já era aplicado na Juventus. A diferença é o sistema inicial de base (um 3-1-4-2 que muitas vezes se transformava em 3-4-3 com meio em losango, pelos recuos de Tévez, ao contrário do 3-4-3 com meio em linha do Chelsea). Entretanto, na Juve a linha ofensiva acabava sendo de apenas 4 jogadores – alas abertos, centroavante e mais um por dentro, com os demais na área de criação central logo atrás:

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“Torre defensiva”
A primeira vez que entrei em contato com o conceito de “torre” foi na leitura do excelente livro “La Pizarra de Simeone”, explicando o modelo de jogo do treinador argentino no Atlético de Madri. Lá ele conta que trabalha com a organização em torre na fase ofensiva, mantendo 8 jogadores no corredor central, escalonados em pares – dois zagueiros, dois volantes, dois extremos centralizados e dois atacantes fechados – deixando os lados exclusivamente para os laterais em amplitude simultânea. Ele, inclusive, atribui estas ideia ao futebol brasileiro, principalmente pelo avanço agudo dos laterais:

simeone

No Chelsea, entretanto, a torre também é defensiva. Sem a bola, Conte tem por princípio que a contenção sobre o portador da bola seja feita prioritariamente pelo ala do setor, subindo seu posicionamento e realizando o combate aberto, o que mantém o ponta do setor na cobertura interna:

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Este princípio acaba distribuindo a equipe muitas vezes em duas linhas de quatro sem a bola, porque os três zagueiros fazem a basculação na direção do lado atacado, trazendo consigo o ala oposto na primeira linha, enquanto o atacante do setor fica por trás do ala que ataca a bola e se alinha aos volantes. O mesmo acontecia na Juventus, que também trazia o ala para atacar a bola e o ala oposto para a basculação com os zagueiros:

juve_dois

Mas este 5-4-1 em duas linhas na fase defensiva, seguindo o princípio da contenção com o ala aberto (e não com o “extremo”, que permanece fechado) não apenas forma duas linhas como também apresenta uma torre quase inviolável no corredor central.

Pois vejam…se os dois atacantes marcam prioritariamente fechados (um na cobertura do ala que ataca a bola, o outro bem fechado para impedir a circulação), eles acabam formando um quadrado com os dois volantes logo atrás, sucedendo os zagueiros: uma torre, que pode ter 6 ou 7 jogadores – caso um dos zagueiros tenha saído em cobertura encaixada para os lados, são 6; caso contrário são 7, conforme as imagens abaixo:

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torre_um

Não por acaso, um dos principais entusiastas deste modelo holandês-bielsista de variações dos três zagueiros – Jorge Sampaoli – já fez isso na seleção do Chile, e provavelmente deve continuar fazendo no Sevilla. Abaixo, encontrei nos meus arquivos este frame de uma organização defensiva com encaixes individuais em todos os setores do Chile contra a Espanha, formando uma torre central:

chile

Variação defensiva
Alguns adversários perceberam que Conte prefere seus alas atacando a bola pelo lado para manter esta torre superpovoando o corredor central e impedindo a circulação dos rivais – induz a saída pelo lado e ali cria um brete de difícil saída. E o que fizeram? Jogaram iscas aos alas do Chelsea, também com amplitude simultânea, impedindo-os de subir a pressão sobre o portador da bola.

Em geral, isso se conquista espelhando o 3-4-3 de Conte – já vi Tottenham, City e West Ham fazerem isso nesta temporada – provocando uma sucessão de 1×1’s que mantêm os alas do Chelsea na linha defensiva.

Nestes casos há uma variação, e quem aborda o portador é o atacante do lado, mantendo os alas na primeira linha e marcando em 5-4-1, o que diminui a vantagem no corredor central, desfazendo a “torre”:

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Atalho no contra-ataque
O 5-4-1 que vira 3-4-3 que vira 2-3-5 (ou 3-2-5) proporciona também constantes subidas de pressão encaixadas, sem ser um sistema defensivo e reativo, como Holanda e Costa Rica fizeram com seus 5-4-1’s na última Copa do Mundo:

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Tanto em bloco alto, pressionando com encaixes e adiantando zagueiros, como também em bloco médio, quando o Chelsea consegue executar o princípio de contenção com o ala, os contra-ataques são muito perigosos. Afinal, se os extremos não estão abertos e recuados perseguindo os laterais adversários até lá embaixo, mas sim estão centralizados e à frente dos blocos de marcação, consequentemente o caminho para o campo adversário é mais curto.

Com isso, Hazard e Pedro ao mesmo tempo se desgastam menos para marcar (apenas protegem os alas em coberturas centrais, fecham as possibilidades de retorno pelo meio e adiantam pressão) e ainda menos para contra-atacar. Estão próximos do campo adversário, em região central, e próximos um do outro, chegando em melhor condição no momento da transição ofensiva:

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Discordo de Jonathan Wilson quando ele subdimensiona a importância das ideias de Conte para a evolução tática no futebol. Ele mesmo era autor de uma excelente coluna no jornal inglês The Guardian, chamada ” The Question”, na qual lançava ponderações sobre conceitos que soavam vanguardistas e pioneiros – possíveis tendências, portanto.

Acredito que caberia num “The Question”: seria o 3-4-3 de Conte o próximo capítulo na linha do tempo tática?

Quem sabe. Afinal, é um sistema que inverte e desinverte a pirâmide no mesmo jogo – defende em linha de 5 e ataca com linha de 5 – encontra soluções para alguns paradigmas que estavam na zona de conforto dos enfrentamentos de extremos x laterais, e começa com resultados e bom desempenho a se disseminar por aí.

Vale ficar de olho.

Processos de Comunicação aplicados à Análise de Desempenho

Ao aprofundar o estudo da Análise de Jogos Desportivos – conforme a escola de pensadores portugueses convencionou chamar – encontrei diversos pontos de convergência entre a teoria por eles aplicada e correntes da teoria da comunicação. Em especial nas diretrizes da investigação pelo método observacional.

Referência mundial no tema, o professor Júlio Garganta apresenta conceitos desenvolvidos pela norte-americana Lynda Baker na obra “Observation: A Complex Research Method”. Este parágrafo expõe uma excelente reflexão sobre a observação como método de pesquisa:

É o saber ver que suscita um problema profundo, porque não só qualquer teoria depende de uma observação, mas também porque qualquer observação depende de uma teoria. Deste modo, a observação sem propósitos padece, inevitavelmente, de miopia conceitual. Ao pretender entender o jogo, há que explicitar os respectivos níveis de evidência, porque são eles que permitem modelar os indicadores e os critérios que viabilizam a seleção, a identificação e a avaliação dos eventos. Acresce que a observação sistemática é um método de indagação complexo porque requer que o observador desempenhe um conjunto de funções e recorra a diferentes meios, incluindo os cinco sentidos. Por isso, a pesquisa observacional caracteriza-se por requerer um treino especializado dos observadores, no que respeita a ‘o quê, como e quando’”.

Além, evidentemente, de destacar a importância do embasamento teórico alicerçando esta investigação, notem ao final que o “saber ver” na prática é descrito como um “saber perguntar” ao jogo – o que está acontecendo, quando e onde?

O mesmo disse o professor Israel Teoldo Costa – que, apesar de brasileiro, integra a escola portuguesa de pensamento sobre os jogos desportivos – no artigo “Análise e avaliação do comportamento tático no futebol”. Para ele, todos sistemas modernos de observação e análise de jogo procuram responder às seguintes questões:

Quem executa a ação? Qual ação é realizada? Como a ação é realizada? Que tipo de ação é realizada? Onde a ação se realiza? Quando a ação se realiza? Qual é o resultado da ação?

Podemos reunir, entre os advérbios interrogativos utilizados por ele, os principais: o que, quem, onde e quando; podemos, ainda, substituir a ideia de “que tipo” pela palavra “como”, e a ideia “qual o resultado” por um dos porquês.

Neste ponto saímos do espectro futebolístico para ingressar na teoria da comunicação. A jornalista e escritora brasileira Ana Arruda Callado na obra “O texto em veículos impressos” explica o conceito de lead (ou lide), famigerado primeiro parágrafo tido por obrigatório em redações jornalísticas:

Também conhecido como cabeça ou abertura de uma matéria, o lead é o primeiro parágrafo de uma notícia e deve narrar, resumidamente, o fato mais relevante da série de fatos que compõem a notícia. Nele, são respondidos os seis elementos básicos da informação: o quê? (a ação), quem? (o agente), quando? (o tempo), como? (o modo), onde? (o lugar) e por quê? (o motivo)”.

Segundo o também jornalista Ricardo Noblat – no livro “A arte de fazer um jornal diário” o lead surgiu nos Estados Unidos no final do século XIX, “fruto das dificuldades de comunicação enfrentadas pelos jornalistas enviados para cobrir a Guerra de Secessão, entre os anos de 1861 a 1865. Nasceu por um acaso durante esse conflito militar. Embora possa ser interpretado por mentes mais paranóicas como algo arquitetado para acabar com o jornalismo literário, ele não apareceu com esse propósito. Durante a Guerra de Secessão, eram muitos os repórteres e poucas linhas de telégrafo disponíveis para a transmissão das matérias. Com a precariedade do sistema, era necessário que as informações mais importantes fossem passadas primeiro. Uma vez transmitido um único parágrafo de cada matéria, era transmitido o segundo, o terceiro e assim por diante”.

Os mesmos conceitos de investigação jornalística foram desenvolvidos nos anos 40 pelo norte-americano Harold Lasswell. O italiano Mauro Wolf, no livro “Teorias da Comunicação”, descreve desta forma o modelo de Lasswell:

Elaborado inicialmente nos anos 40, exatamente na época, de ouro da teoria hipodérmica, como aplicação de um paradigma para a análise sociopolítica (quem obtém o quê? quando? de que forma?), o modelo lasswelliano, proposto em 1948, explica que uma forma adequada para se descrever um ato de comunicação é responder às perguntas seguintes: quem diz o quê através de que canal com que efeito? O estudo científico do processo comunicativo tende a concentrar-se em uma ou outra destas interrogações”.

Acredito que a convergência entre o método observacional aplicado à análise de jogos desportivos e a teoria da comunicação esteja exatamente neste ponto: as perguntas que se faz ao fato observado.

Ao analista tático (de desempenho, de performance, qualquer que seja a denominação do cargo/função) cabe constantemente fazer estas perguntas enquanto observa o jogo: o que está acontecendo? Em que local do campo? Quais são os jogadores envolvidos? Em que fase do processo de construção ou de contenção? Com qual propósito? Quais as repercussões? E assim sucessivamente…encontrar os protagonistas de cada ação, os “atores” que interagem de forma sincronizada, complexa e reiterada, revelando padrões de comportamento táticos (e também técnicos) relevantes para a compreensão do jogo.

Estas perguntas, é claro, não prescindem do aporte teórico do futebol. Pois de nada adiantaria perguntar ao jogo sem entender as respostas que ele revela através da identificação de padrões de comportamento inerentes ao modelo de jogo sob observação.
O próprio Júlio Garganta falou sobre isso em artigo publicado em 2005:

Admitimos que o jogo pode responder a tudo o que lhe souberem perguntar. Esta convicção dá sentido à necessidade de se desenvolver argumentos fundantes duma teoria dos jogos desportivos, a partir de estudos e reflexões a propósito dos comportamentos táticos específicos reconhecidos como negativos ou como positivos, isto é, os que poluem ou oxigenam o jogo, respectivamente. Como tal, interessa recolher informação a partir da observação e interpretação de comportamentos proximais ou distais em relação aos modelos de organização considerados evoluídos, evitando a redundância de indicadores/variáveis. Na busca da identificação e interpretação dos comportamentos críticos do jogo, destaca-se a utilidade do registro e da interpretação, não tanto das quantidades perse, mas sobretudo das quantidades da qualidade. Por isso, temos vindo a chamar à atenção para a relevância do estudo do “enredo” do jogo, do respectivo fluxo, mais do que do comportamento pontual e avulso dos seus atores. O enredo, estando mais voltado para o processo do que para o produto, vive das interações dos comportamentos, condensadas na dinâmica dos jogadores e das equipes”.

E diz mais:

(…) torna-se decisivo reunir material com potencia informativo, o que se consegue através da classificação de símbolos e das suas ligações numa relação que exprime a organização dum sistema. A informação não está apenas ligada à quantidade, mas também à qualidade, não sendo, portanto plausível procurar obtê-la à custa da tortura dos dados, que consiste em dobrá-los até que nos forneçam os resultados pretendidos. Habitualmente a atenção do analista é dirigida para as regularidades dos comportamentos dos jogadores e das equipes, no mesmo, ou em vários jogos. As regularidades constituem, portanto, informação condensada que faz sentido. Ora, o nível de evidência modela os critérios e é modelado por eles”.

A professora espanhola Maria Teresa Anguera Argilaga, no artigo “Metodologia observacional en el deporte: conceptos básicos” reitera a importância de um método – ou seja, critérios – durante a observação:

Importa passar de uma observação passiva, portanto sem problema definido, com baixo controle externo e carente de sistematização, para uma observação ativa, sistematizada, balizada por um problema e obedecendo a um controle externo”, o que se obtém, acredito, aliando os métodos de observação com as perguntas recorrentes e os parâmetros táticos teóricos modernos – modelo de jogo, momentos do jogo, princípios e sub-princípios, etc.

Por isso o papel do analista de desempenho é similar ao do comunicador. Entendo sob esta perspectiva o modelo de jogo como uma forma de linguagem, elaborada pela mente criativa do técnico – e executada durante as sessões de treinamento – para ser reproduzida nas partidas. Sabendo perguntar ao jogo o analista consegue traduzir esta linguagem, identificar “o que o treinador quis dizer” e transmitir ao seu público (sejam treinador, jogadores, seguidores, ouvintes, espectadores…) o significado dos posicionamentos, movimentos e interações que caracterizam os padrões de comportamento da equipe sob observação.

A base está nos princípios. Pode-se fazer uma analogia entre eles e o que Mauro Wolf conceitua pelo termo “código”. Para haver sucesso nesta comunicação é preciso que emissor e receptor partilhem o mesmo conhecimento sobre estes códigos – no caso da teoria do futebol, os princípios de jogo. Diz Wolf:

Assim se evidencia, no esquema comunicativo, a existência de um outro elemento, o código. Para que o destinatário possa compreender corretamente o sinal, é necessário que, quer no momento da transmissão, quer no momento da recepção, se faça referência a um mesmo código. O código é um sistema de regras que confere a determinados sinais um dado valor“.

Na prática, todo o processo de análise dos jogos desportivos faz do analista um comunicador. Na essência. Não sabendo comunicar (perguntar ao jogo, interpretar as respostas, organizá-las e transmiti-las de forma clara ao seu público-alvo) por mais entendimento da teoria do jogo que ele tenha a mensagem vai se perder no caminho.

A evolução dos sistemas híbridos

Tem sido tão grande e tão veloz a evolução tática no futebol que em poucos anos paradigmas tidos por irreversíveis são quebrados. Aumentaram exponencialmente a produção de conhecimento teórico e a aplicação prática destas inovações por treinadores extraclasse. Também é cada vez mais farta a disseminação de tecnologias – hardware e software – para a análise, aprofundando a interpretação de dados com mapeamentos ultra-detalhados, quantitativos e principalmente qualitativos. Assim como os processos de treino acompanham esta acelerada evolução. Um a reboque do outro, todos levando o futebol a um elevado grau de excelência tática.

Há poucos anos o posicionamento inicial dos jogadores era determinante para se diagnosticar o sistema tático das equipes. Reconhecer o estatuto posicional dos jogadores (a “soma” das regiões do campo por eles ocupadas com as funções desempenhadas) bastava. Sem a bola, todos voltavam para os posicionamentos de origem, formando um desenho claro e que poucas variações proporcionava com a bola.

Segundo o português Julio Garganta, em referência a este passado recente do qual falávamos, “no futebol o conceito de sistema tem sido utilizado com um significado diverso. O que frequentemente se designa por sistema de jogo ou sistema tático, e se descreve através de siglas como 4-2-4, 4-3-3, 4-4-2, W.M, etc., restringe-se a um dispositivo, a uma distribuição topológica dos jogadores pelo terreno de jogo, de acordo com o respectivo estatuto posicional“.

Entretanto, as equipes passaram a assumir formações quase distintas nas fases de posse e sem a posse, impulsionadas – acredito – pela ênfase nas transições, em especial a partir da perda da bola. E também, como já foi dito, pela união de treinadores-pensadores-inovadores com maior produção de conhecimento, treinos de vanguarda e maior aparato tecnológico.

Começamos a ver José Mourinho “resolver” o problema defensivo dos pontos-cegos do 4-2-3-1 (a grande distância entre laterais e extremos, expondo os volantes e exigindo movimentos coletivos de compensação) ao fazer o time jogar em 4-2-3-1, mas marcar em 4-4-2 com duas linhas de quatro. Hoje, praticamente não há time partindo do 4-2-3-1 que não se defenda em duas linhas de quatro.

Simultaneamente, vimos Guardiola – ainda no Barça, depois no Bayern – promover sensíveis alterações estruturais na comparação entre a defesa posicional e o ataque posicional de suas equipes. Partindo em geral de um 4-3-3 para se defender em 4-1-4-1 e para atacar em 2-3-5 (a reinversão da pirâmide).

Deparamo-nos, então, com um dilema: como definir o sistema tático destas equipes? E, daí em diante, para um reflexão ainda mais contundente: qual a relevância de se determinar um sistema, um rótulo, se as equipes são cada vez mais híbridas?

Vejam este frame ofensivo do Borussia Dortmund  do técnico Thomas Tuchel em confronto de ida contra o Liverpool pela Liga Europa:

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Aparentemente, podemos supôr que o Borussia atue no 4-4-2 losango (o 4-3-1-2). Weigl de primeiro volante, Mktharyan de enganche, Reus e Aubameyang de atacantes, e pelos lados, como “carrilleros”, Castro pela esquerda e Durm pela direita.

Vejam agora, entretanto, o comportamento do 37-Durm quando o Borussia está na fase defensiva. E, em consequência, de seus demais companheiros de meio-campo:

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Ele simplesmente entra na linha defensiva e age como um ala, enquanto Mkhtaryan sai do centro para formar um tripé de contenção no corredor central, desenhando na prática o sistema 5-3-2. Ele guarda o setor, sem se expor ao combate, “segurando” na base enquanto espera o meia se dirigir e fazer a abordagem ao portador.

No lado contrário, porém, o 27-Castro não descia à linha defensiva. Era o lateral Schmelzer quem esperava para abordar pelo lado, enquanto o volante do setor mantinha-se na diagonal para o centro. Uma basculação (balanço, direcionamento) em 5-3-2.

E agora? Dizemos que o Borussia partiu do 5-3-2, ou do 4-3-1-2? Ou pior: seria o frame da fase ofensiva um “frame oportunista”, congelando a imagem em um momento pouco representativo sobre o todo?

Voltemos à teoria, citando novamente Garganta:

No futebol moderno mantém-se a denominação dos jogadores segundo o seu posicionamento no terreno de jogo (defesa, médio, atacante). No entanto, esta nomenclatura, baseada na posição ocupada pelo jogador no terreno, designa apenas o seu papel dominante, pois que, dadas as exigências atuais do futebol, a atividade dos jogadores, ao longo do jogo, transcende largamente o limite imposto por aquela denominação. Deste modo, cada vez mais se esbatem as fronteiras entre os papéis de defensor, médio e avançado. A diferenciação de papéis e funções não se realiza tanto a partir da participação, ou não, de determinados jogadores nas fases do ataque e da defesa, mas sobretudo a partir das características dessa participação, face às configurações particulares do jogo em determinados momentos e zonas do terreno“.

Em resumo, citando agora o francês Jean-François Grehaigne, autor de diversos livros sobre o ensino do futebol e o estudo da tática:

Conhecer o dispositivo não implica conhecer o modo como ele funciona“.

Isto remete à importância da análise de desempenho fixar-se cada vez mais em comportamentos e interações, ou seja, interpretar dados e movimentos dentro de um contexto, identificando e apontando tendências, sem o determinismo e o protagonismo do sistema inicial em si. Na análise do Borussia, nesta partida específica, as formações de defesa (5-3-2) e de ataque (4-3-1-2) são mais importantes do que a identificação de um ponto de conexão fixo entre elas. E, ainda melhor, os comportamentos dos jogadores nestas fases, as interações entre eles, as sincronias de movimentos, são o que mais importa.

Pois vejamos o papel do 37-Durm nesta partida. Além de defender na linha do lateral-direito Piszcek, ele foi o grande responsável por garantir a amplitude máxima na fase ofensiva, absolutamente aberto sobre a linha lateral, em profundidade. Nota-se que este comportamento encontrou sincronia com o lateral-esquerdo Schmelzer – ambos oferecendo amplitude simultânea em profundidade quando o Borussia ocupou o campo do Liverpool, deixando Castro e Piszcek para o retorno/cobertura:

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São duas imagens da fase ofensiva apresentando o mesmo comportamento – 37-Durm em amplitude e profundidade pela direita, enquanto o lateral do setor está por trás. E, estando a bola na direita, nos dois lances com Mkhtaryan articulando, a amplitude no lado oposto é concedida pelo lateral Schmelzer. Um padrão, portanto.

Assim que vi esta partida lembrei de um trecho do livro Interting the Pyramid, no qual o jornalista inglês Jonathan Wilson descreve o 4-4-2 que a Itália utilizou na conquista da Copa do Mundo de 1982 – em especial, derrotando o 4-4-2 em quadrado do Brasil de Telê Santana.

Provavelmente não foi esta a inspiração de Tuchel, mas notem como o papel do 37-Durm assemelha-se ao desempenhado por Bruno Conti no modelo de jogo conhecido e imortalizado pela alcunha “gioco all’italiana”. O diagrama que elaborei à época para o blog Preleção reproduz o que foi exposto no livro:

italia

Segundo Wilson, Conti desempenhava o papel de “tornante”, um jogador que ocupava toda a faixa lateral do campo, seja na fase defensiva – recuando até o final – seja na ofensiva, como um ponta. Era uma espécie de 4-4-2 “torto”, com um lateral apoiador na esquerda, um lateral-base na direita, um zagueiro-líbero e um ponta-extremo-ala na direita. Complexo, o sistema estava em declínio, e acabou com o título mundial.

Observado, compreendido, interpretado, contextualizado e descrito este comportamento do 37-Durm, o sistema inicial do Borussia fica em segundo plano frente à complexidade de movimentos que tornam a equipe híbrida. Para concluir, recorro novamente a trechos de textos do professor Julio Garganta:

Todavia, a identificação da tática com os ‘sistemas táticos’ tem feito com que a importância atribuída aos designados sistemas de jogo seja sobrevalorizada“.

“Neste contexto, a organização das ações dos jogadores decorre de sistemas que não se restringem a uma estrutura de base, ou seja, a uma repartição fixa das forças no terreno de jogo, mas, pelo contrário, são configurados sobretudo a partir da evolução das funções. Importa, sobretudo, valorizar o caráter organizacional do jogo, na medida em que é a organização que produz a unidade global do sistema; é ela que transforma, produz, relaciona e mantém o sistema, concedendo características distintas e próprias à totalidade sistêmica“.

Uma equipa possui uma anatomia e uma fisionomia mutáveis, que se vão configurando à medida que o jogo é urdido, sendo atravessada por formas e fluxos de energia e de matéria que evoluem no espaço e no tempo, para produzir informação. De acordo com este entendimento, é cada vez mais reconhecida a importância de se perspectivar o jogo como um confronto de sistemas dinâmicos complexos“.

Com sistemas complexos e híbridos, importa considerar os posicionamentos iniciais e identificar sistemas, mas sabedores destas transformações que as equipes cada vez mais apresentam na comparação entre as fases de posse e sem posse. O que torna mais importante a identificação dos comportamentos, das interações e dos movimentos.

Inverting the Pyramid

Em 2008 o jornalista e pesquisador inglês Jonathan Wilson publicou a primeira edição do hoje consagrado livro “Inverting the Pyramid“. Como bem diz o subtítulo na capa, a obra teve como objetivo apresentar a história da evolução tática no futebol. Desde o primeiro sistema reconhecido até as tendências atuais e perspectivas para o futuro recente. Uma obra-prima, de leitura obrigatória para quem pretende entender o jogo, fruto de exaustiva pesquisa do autor (que viajava aos países dos times e seleções retratados para entrevistar fontes e chafurdar em arquivos de bibliotecas e jornais locais).

No ano seguinte, publiquei no desativado blog Preleção uma série de posts com a resenha do livro, enfatizando esta linha do tempo tática. Sem subdividir o livro em capítulos, mas sim em cada novo sistema identificado.

Resgatei os textos e imagens originais e condenso todo o material que publiquei nesta resenha do “Inverting the Pyramid” – tornando o post bastante extenso – logo abaixo. Encontrei 16 postagens resenhando o livro, e pela memória acredito que tenha faltado uma, sobre o surgimento do 4-2-3-1 e as tendências a partir dele, mas no arquivo do blog desativado não consegui localizá-la.

1. Primeira tática do futebol se inspirou no rugby

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A primeira curiosidade na linha do tempo dos sistemas táticos é a influência do rugby na organização das equipes. Influência esta proporcionada pelo compartilhamento entre ambos os esportes da regra do impedimento, quando houve a divisão entre eles.

O futebol é mais antigo. No século XVIII, chegou a ser banido em algumas regiões britânicas pela violência demasiada. Mas no início do séculoi XIX, ele foi utilizado como ferramenta política de fortalecimento do Império entre os jovens – principalmente por ser um esporte coletivo. Sendo disseminado nas escolas britânicas como atividade física.

Mas cada escola criou regras próprias. Não havia padrão. Em algumas se utilizava o pé, em outras a mão, e em outras ambos. Variava-se ainda o número de jogadores. Diferenças que inviabilizavam os confrontos entre escolas. Houve reuniões entre as instituições de ensino, que por maioria restringiram o toque com as mãos, o que desgostou o pessoal da Rugby School – originando o surgimento do rugby na dissidência.

Em 1848 estas escolas lançaram o primeiro compêndio de regras unificadas do futebol. Com uma ainda bastante ligada ao rugby, como destaca Jonathan Wilson no Inverting the Pyramid. A “Lei 6” determinava que todos os jogadores à frente da linha da bola estariam impedidos de tocá-la. O rugby até hoje é assim.

Como resultado, as primeiras ações técnicas e táticas do futebol foram idênticas às do rugby, trocando apenas as mãos pelos pés. As equipes se organizavam em uma espécie de 1-2-7, com a linha de sete atacantes agrupando-se como os paredões uniformes vistos nos campos de rugby.

Sem poder acionar companheiros à frente da linha da bola, o futebol se tornou um esporte coletivo na teoria, mas quase individual na prática. A “Lei 6” forçava os jogadores a buscar a decisão pessoal, sem trocar passes. Quem recuperasse a bola, partia com ela dominada em velocidade até perdê-la, ou concluir a gol. Terminada a jogada, a outra equipe fazia o mesmo: um jogador pegava a bola e partia correndo, com um enxame de seus colegas vindo atrás. Só condução, sem passes. Chamado por Jonathan Wilson de “kick and run” (chute e corra).

Isso contribuiu para a demora na constatação de que o futebol é um esporte eminentemente tático, e coletivo. Inpirados no rugby, os jogadores queriam decidir sozinhos em grandes arrancadas. Essa noção individualista era tão evidente que os “chefes das turmas” nas escolas formavam a linha de sete atacantes, deixando o trabalho sujo de desarme aos calouros. Foi preciso alterar a regra do impedimento para que o futebol se tornasse um esporte coletivo, com trocas de passes e valorização da organização tática.

2. Novo impedimento provoca 1ª variação tática

dois

Dezoito anos depois de sua criação, a lei de impedimento do futebol abandonou a inspiração no rugby. Os jogos estavam monótonos, tediosos, com sucessões de “kick and run`s” de lado a outro – chutões e correria em jogadas individuais. Quem ultrapassasse a linha da bola estaria impedido, portanto, quem recuperava a bola saía correndo sem passar para ninguém.

Em 1866, foi decidido que bastaria ter pela frente três adversários (o goleiro e mais dois, por exemplo) para legalizar a posição de um jogador. O objetivo era claro: estimular as combinações de jogada. Se antes os atletas partiam correndo para não voltar o jogo (só podiam passar para quem estivesse atrás da linha da bola) agora os companheiros tinham liberdade para se deslocar e criar alternativas mais adiantadas.

À esta época, adotavam-se dois sistemas táticos: o 1-2-7 e o 2-2-6 – que fazia muito sucesso com o escocês Queens Park. Eles atuavam com dois zagueiros, dois meio-campistas e seis atacantes, sendo: dois pontas, dois atacantes internos, e dois centroavantes. Os ingleses ainda usavam o sistema com três centroavantes, somando sete jogadores ofensivos, e apenas um zagueiro.

Ambos os sistemas, entretanto, não ajudavam as equipes a modificar a estratégia. Ainda se jogava no kick and run mesmo com a alteração na lei do impedimento. Era quase um instinto de “fazer rugby com os pés”. Cenário que começou a mudar na década de 70 do século XIX.

Foi quando aconteceu a primeira variação tática que se tem registro no futebol. A Inglaterra abdicou dos dois centroavantes e da linha de sete na frente. Com base no 2-2-6 dos escoceses, os ingleses recuaram o centroavante para a linha de meio-campo, criando o centre-half (centromédio).

Jonathan Wilson chama este novo sistema de “pirâmide”: dois zagueiros, três meio-campistas, e cinco atacantes. O 2-3-5. Ainda vocacionado ao desequilíbrio entre defesa e ataque, ainda com o vício do kick and run, mas com um claro propósito – criar opções para linhas de passe.

Com o centromédio, inaugurou-se também a figura do organizador. Centralizado, ele não era apenas um combatente, mas o jogador que começava ainda que de forma primitiva a articular a saída de jogo, a fazer a distribuição dos passes, a arriscar lançamentos longos. Futebol como esporte coletivo, eminentemente tático, com variações no posicionamento dos jogadores e na estratégia. Tudo isso a partir da percepção de que não bastava correr sozinho com a bola.

3. As primeiras escolas clássicas de futebol

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No início do século XX, apesar da situação quase amadora do futebol, já se difundiam conceitos que caracterizavam escolas de futebol em formação. Mesmo com bases táticas semelhantes – ou o 2-2-6, ou o 2-3-5 – utilizadas como default`s, países influentes transmitiam também filosofias. Estratégias. Estilos de jogo. No Inverting the Pyramid, é possível identificar pelo menos três estilos de jogo completamente diferentes que se desenvolveram na transição entre os séculos XIX e XX.

A Escola Inglesa baseava-se no kick and run. Força, mas acima de tudo velocidade. Apesar da mudança na lei do impedimento, que passou a permitir passes à frente da linha da bola, os clubes e a seleção da Inglaterra não abandonaram a estratégia de condução em disparada. Principalmente pelos lados. Alguns ainda no embrionário 1-2-7, outros já no 2-3-5, mas todos investindo demais nas jogadas laterais, com os wingers – jogadores que começavam a se destacar com duas prerrogativas fundamentais: alta velocidade e individualismo para decidir sozinho.

Mas, apesar de ter criado o futebol moderno, não foi a Inglaterra quem exerceu influência teórica sobre países da Europa, principalmente na região central do continente. Foi a Escócia, com o 2-2-6 do Queens Park, e um estilo descrito por Jonathan Wilson como o close/quickly-passing (algo como “passes rápidos e curtos”). Uma estratégia de jogo absolutamente diversa da inglesa. Para os escoceses, a nova lei do impedimento surtiu o efeito ambicionado pelos seus idealizadores: incentivar as linhas de passe. Vale ressaltar que esse Queens Park não é o QP Rangers. É só Queens Park, conhecido como “The Spiders”, clube que não deu sequência a seu sucesso. É o mais antigo da Escócia, mas milita nas divisões inferiores agora.

O estilo escocês foi importado por Áustria e Hungria, formando a Danubian School, a partir de uma excursão de clubes escoceses na região. Austríacos e húngaros perceberam que era mais inteligente aproximar seus jogadores, trocar passes curtos e dessa forma abrir espaços, ao invés de fazer ligação direta para os wingers dispararem, como praticavam os ingleses. As duas seleções – Áustria e Hungria – assumiram até certo protagonismo nas primeiras competições e amistosos internacionais pela Europa, mas depois declinaram.

Outra escola clássica da “idade Antiga do futebol” nasceu no Uruguai, com repercussão semelhante na Argentina. Desde cedo resistentes à influência externa, os argentinos e uruguaios de descendência latina não gostavam do futebol de velocidade e força praticado por ingleses na disseminação do futebol pela região do Rio da Prata.

E começaram a improvisar, brincar com a bola, ludibriar adversários. Driblar. Conforme conceitua Jonathan Wilson, nascia o estilo home-grown (em português, algo como “feito em casa”). O futebol de improviso, mantendo a posse de bola em curto espaço. Foi dessa forma que o Uruguai conquistou duas Olimpíadas (24 e 28), dois Mundiais (30 e 50) e seis Copas Américas em curto espaço de tempo (16, 17, 20, 23, 24 e 26).

Ingleses no chutar e correr; escoceses, austríacos e húngaros no passe rápido e curto; uruguaios e argentinos no drible e no improviso em pequenos espaços. Foram estas, segundo o Inverting the Pyramid, as principais escolas de futebol do início do século XX, que influenciaram tantos outros países a adotar estes mesmos estilos de jogo, mesmo que a base tática (o 2-3-5) fosse corriqueira. Muito cedo o futebol já fortalecia o óbvio: sistema tático é uma coisa, estratégia é outra coisa, e apesar da qualidade técnica dos jogadores ser muito importante, o principal é a organização da equipe em um esporte coletivo.

4. O revolucionário W.M de Herbert Chapman

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A organização das equipes, com todos os conceitos norteadores para sistemas e estratégias, tornou-se prerrogativa fundamental a partir da criação do W.M. O pai dessa revolução tática é o técnico Herbert Chapman, que levou o Arsenal a protagonizar a maior inovação tática da história – se levarmos em consideração todos os efeitos consecutivos ao seu surgimento.

Assim como acontecera no final do século XIX, foi uma nova alteração na regra do impedimento que motivou o desenvolvimento desta nova organização. Em 1925, os dirigentes da FA constataram que o Campeonato Inglês estava chato. Marcava-se poucos gols, mesmo com cinco atacantes dispostos no “default” 2-3-5. A solução encontrada foi reduzir para dois, e não mais três, o número de adversários necessários para legalizar a condição de qualquer jogador. Na prática, um goleiro e um zagueiro à frente eram suficientes – regra que perdurou até a criação da “mesma linha”.

Chapman, que desde 1925 treinava o Arsenal no corriqueiro 2-3-5, em 1930 experimentou três alterações de posicionamento: recuou o centromédio, colocando-o entre os dois zagueiros (criando a figura do “zagueiro central”, conhecida até hoje); e criou uma segunda linha de meio-campo, a partir do recuo dos dois atacantes-internos. *A leitura deste diagrama, um 3-4-3 (ou 3-2-2-3, como queiram) formava no campo duas letras – W no ataque, M na defesa. Nascia o W.M.

A estratégia, entretanto, contrariava o objetivo da FA na mudança da lei de impedimento. O W.M do Arsenal primava pelo contra-ataque. Chapman abdicava da figura do organizador – o centromédio, recuado para a zaga. Na frente, abria seus wingers. Sem a bola, o Arsenal recuava, compactando-se com três zagueiros e “dois volantes”; recuperada a posse, a equipe recorria à ligação direta, em lançamentos longos na direção dos wingers.

Ter o recuo estratégio e o contra-ataque veloz pelos lados como estratégias fizeram o W.M consolidar no futebol inglês um estilo conceituado por Jonathan Wilson como o “wing-play” (algo como “jogo para os wingers”). Os wingers, espécie de pontas velocistas e individualistas, ganharam grande destaque. A Inglaterra formou uma verdadeira geração de craques para a função, notabilizando-se Stanley Mathews como seu principal protagonista – um jogador que criava e finalizava as próprias jogadas. Na prática, o wing-play fez o futebol inglês permanecer individualista, contrariando as filosofias coletivas do passe-curto adotadas na maioria dos países.

Aos poucos, os resultados do Arsenal ampararam a disseminação do W.M como novo sistema tático default na Europa. Equipes que mantinham o 2-3-5 assumiam o risco do “atraso”. Mas Chapman teve de lidar também com uma saraivada de críticas. Afinal, sua interpretação tática da nova lei de impedimento surtiu efeito contrário ao desejado pela FA. Ele foi acusado de tornar o futebol “ainda mais feio”, mais defensivo.

Ele também foi responsabilizado pela estagnação do futebol inglês. Os resultados obtidos pelo W.M foram tão significativos que sua influência enrijeceu os demais treinadores locais. A partir do sistema de Chapman, técnicos de outros países desenvolveram variações, novas interpretações, modificações de acordo com as características de seus jogadores, e conforme a cultura tática que os norteava. Enquanto isso, a Inglaterra blindou-se às inovações. A culpa, obviamente, não era de Chapman.

Na verdade, Chapman foi o precursor de uma filosofia de trabalho hoje impossível de se alijar do futebol: a do verdadeiro técnico, um profissional estudioso e dedicado. O comandante do Arsenal, pai do W.M, é tido por Jonathan Wilson como o introdutor do estudo tático. Chapman fazia preleções, com quadro-negro aos jogadores; analisava os adversários, combatendo suas virtudes e explorando suas deficiências; ministrava palestras táticas, debatia com seus atletas posicionamento. Via no futebol a necessidade de organização coletiva. A imprescindibilidade, aliás, desta organização.

5. Itália reúne dois sistemas e cria o W.W

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Na Itália a revolução chegou e foi adaptada às características do futebol local, interpretação que originou um novo sistema. Conforme Wilson lembra em criteriosa apuração histórica, o regime fascista viu no futebol um importante instrumento de propaganda política. Seria necessário criar, principalmente na seleção nacional, uma identidade. O povo precisaria reconhecer na seleção características também atribuídas ao fascismo, e pelos bons resultados vindouros concluir que tudo ia bem no país.

Com o técnico Pozzo no comando, um nacionalista simpático a esta filosofia, a Itália se decidiu pelo futebol-força. Os jogadores teriam de ser atletas, combinando vigor físico e velocidade. Massa muscular e explosão. E, nas atitudades, serem combativos, determinados e dedicados à causa. “Vencer a qualquer custo” era o lema da Azzurra – lema este que levou a Itália a praticar até mesmo certa violência, com intimidação física em campo, como relata Wilson em diveros jogos importantes. Mas, além do comportamento exigido, a Itália também apresentou nesta época uma bela inovação tática.

Pozzo não confiava no 2-3-5, ainda utilizado como padrão na Europa. E também se mostrava resistente ao recém-surgido W.M. A solução foi reunir ambos. De maneira até certo ponto simplista, é possível dizer que o técnico da seleção italiana montou um planejamento com o sistema defensivo do 2-3-5, e o sistema ofensivo do W.M. Nascia o W.W, que pode ser desdobrado em 2-5-3 (ou em 2-3-2-3, como queiram) – reitero, como já avisara ontem, que a tradução do sistema em letras se dá pela leitura do diagrama tático do ataque para a defesa, padronizando a maneira como Jonathan Wilson faz no Inverting the Pyramid.

A Itália passou a jogar com dois zagueiros, protegidos por um centromédio e dois meias lateralizados, tal qual se usava no 2-3-5. Mas acrescentou uma segunda linha no meio-campo, à exemplo do W.M, recuando os atacantes internos para a intermediária. Na frente, permaneceram o centroavante e dois ponteiros abertos pelos lados. Pozzo também foi um dos pioneiros da marcação individual, que adotava sempre para anular o cérebro da equipe adversária – geralmente o centromédio no 2-3-5, ou o centroavante no W.M.

Foi com o W.W que a Itália conquistou duas Copas do Mundo consecutivas, em 1934 e 1938. A inovação tática e a estratégia de futebol-força a ela aplicada deram grande resultado. Subitamente, a Itália tomava da “Danubian School” – Áustria e Hungria – o protagonismo do futebol europeu, desbancando ainda os pragmáticos ingleses e a escola Sul-Americana representada pelo talento individual dos uruguaios e argentinos.

6. Russos inauguram as trocas de posições

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A Rússia demorou a ingressar no cenário do futebol europeu pelo isolamento geográfico, que os impedia de enfrentar adversários estrangeiros, vivendo durante muito tempo de forma praticamente amadora. A situação se alterou a partir de 1937, quando uma equipe do País Basco excursionou pela Rússia vencendo com facilidade as equipes locais. Enquanto os bascos atuavam no W.M de Herbert Chapman, os russos ainda estagnavam-se no 2-3-5 dos primórdios.

E, assim como nos planos de recuperação da imagem do império na Inglaterra, ou na tentativa de fortalecer uma identidade nacional na Itália fascista, a política interferiu no futebol. Os comunistas não gostaram do massacre basco, e exigiram mudanças.

Pressionados, os técnicos russos debruçaram-se sobre as incipientes pranchetas táticas para estudar maneiras de evoluir. O primeiro passo, lógico, foi a disseminação quase imediata do então desconhecido W.M entre as equipes. E, a partir dele, adotaram a mesma política italiana incrementando a tendência tática com características locais. Também se buscou a profissionalização do campeonato nacional e a abertura para excursões, tanto dos russos para fora, como também a recepção aos estrangeiros no país.

Jonathan Wilson descreve o novo estilo russo implementado na década de 40 como a “desordem organizada”. Tendo o Dinamo Moscow como protagonista, o futebol da Rússia apresentou ao futebol uma estratégia pioneira: as trocas de posições. Desde o início, apesar de todo o crescimento do planejamento tático, e da evolução dos sistemas, os jogadores cumpriam funções e assumiam posicionamentos rígidos.

Tanto os meias-atacantes como também os pontas e o centroavante do Dinamo propunham um verdadeiro carrossel de inversões. O centroavante recuava para o meio, um dos pontas ingressava na área, os meias avançavam pelos lados. Mantendo sempre o desenho do “W” na frente, mas alternando os jogadores que ocupavam cada uma das posições. O que desestruturava a marcação adversária.

No W.M, a marcação era idêntica ao do 3-5-2 brasileiro: individual por função. E agravada pela referência numérica: em 1939, a FA inglesa determinou a adoção fixa dos números de 1 a 11, na ordem crescente por posição, tendo o 2-3-5 como default. Medida que impôs ao centroavante jogar com a 9, aos pontas atuar com 7 e 11, e aos meias vestir a 8 e a 10. Os marcadores tomavam os números como referência. No W.M, por exemplo, o zagueiro central “marcava o 9″, seus companheiros pegavam o 7 e o 11, e os meio-campistas centrais perseguiam o 8 e o 10. Encaixe espelhado perfeito. O famoso “cada um pega o seu”.

A movimentação dos russos destruía este paradigma numérico. O zagueiro central se via obrigado a seguir o camisa 9 aonde ele fosse, abrindo espaço para diagonais dos pontas, ou infiltração dos meias. E todos eles circulando, trocando de posições, arrastavam consequentemente seus marcadores como reféns de um recurso tático ainda não utilizado e, portanto, sem um antídoto.

Eles resgataram ainda o estilo escocês, e também da Danubian School, de passes curtos e valorização da posse de bola pelo chão, sem ligação direta ou correria dos wingers, como se fazia na Inglaterra. O capítulo no qual Jonathan Wilson trata da inovação russa é curto, mas revela a importância desta interpretação do Dinamo Moscow ao W.M, e também como a estratégia aplicada a um determinado sistema tático muda completamente seu funcionamento.

7. A interpretação dos húngaros para o W.M

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Se os russos acrescentaram ao W.M de Herbert Chapman a movimentação dos homens de frente, e os italianos sem o recuo do centromédio montaram o W.W, o futebol da Hungria também contribuiu para o desenvolvimento do sistema. Na Hungria, o W.M virou M.M – lembro que a leitura das letras no diagrama tático, para padronizar, é feita do campo ofensivo para o defensivo. A base desta variação tática é o recuo do centrovante para a segunda linha de meio-campo. Evolução tática, como sempre, amparada em uma peculiaridade local. Estratégia conforme as características do futebol húngaro aplicada à base do W.M britânico.

Ao contrário dos ingleses e seus centroavantões de referência que aparavam na área os cruzamentos dos wingers, os húngaros não gostavam do trombador. Preferiam, desde a introdução do estilo passe-curto escocês na região, um centroavante de mobilidade e velocidade. Um jogador que também participasse da criação das jogadas, ao invés de um “poste” finalizador.

Foi o técnico Gusztav Sebes quem implementou o recuo do centroavante Hidegkuti à zona de armação. A Hungria não jogava mais com dois articuladores, mas sim com três. Beneficiando-se da mesma premissa dos russos nas inversões de posição: com a marcação individual por função do W.M, Hidegkuti arrastava consigo o zagueiro central, abrindo espaços para as infiltrações dos pontas e dos meias. Ou, se o zagueiro não o perseguisse, dominava livre de marcação, para organizar com calma a jogada de ataque.

Com o M.M a Hungria conquistou as Olimpíadas de 1949, e poderia ter sido campeã mundial em 1954, não fosse o contra-veneno da Alemanha Ocidental na decisão. Conforme Jonathan Wilson resgata, a Alemanha intensificou a marcação individual sobre Hidegkuti. Homem-a-homem. Matou a fonte de criatividade húngara, e virou uma partida de 2 a 0 para 3 a 2, talvez contando com certa soberba dos húngaros, que estavam há 36 jogos invictos, com grandes atuações.

Esta Hungria de Sebes foi o embrião também do 4-2-4 imortalizado pelo Brasil em 1958. Reparem no diagrama tático que ilustra o post: além do recuo do centroavante para a armação, a Hungria permitia que seus meias-ofensivos alinhassem com os pontas, formando uma linha de quatro na frente. De início, era só um movimento de ida-e-volta, mas depois se consolidou como posição inicial. O segundo passo, que aconteceu mais adiante, foi o recuo de um meia-defensivo para a linha de defesa (figura que se tornaria, no Brasil, o “quarto-zagueiro”).

8. O 4-2-4 do Brasil bicampeão Mundial

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Vários treinadores reivindicaram a paternidade do 4-2-4, ou então tiveram esta paternidade atribuída por alguém. Certo é que Vicente Feola chegou à Copa de 1958 com um forte legado de boas referências para a consolidação de um sistema que foi se desenhando em diversas partes, em equipes treinadas por nomes como Zezé Moreira, Fleitas Solich, Bélla Guttman e Flávio Costa – técnico do Brasil nas copas de 50 e 54.

O principal elemento catalizador da transição, no Brasil, do W.M para o 4-2-4 foi a indisciplina tática dos jogadores brasileiros. Com a imigração de técnicos húngaros, fugindo da Segunda Grande Guerra, o nosso futebol recebeu grande contribuição na evolução tática. Mas todos esbarraram na inviabilidade de aliar qualidade técnica e comprometimento coletivo. Os jogadores brasileiros não queriam obedecer o rígido posicionamento, nem executar a marcação individual por função do W.M.

Flávio Costa fez grande sucesso no início da Copa de 50 aplicando na Seleção Brasileira um desenho tático que Jonathan Wilson chama de “diagonais”. É uma variação do W.M, com meio-campo formando um paralelograma. O problema foi ter retornado ao W.M tradicional na decisão com o Uruguai, em um imperdoável impulso defensivista. Notem, no diagrama tático abaixo, como funcionava. Na prática, ele desfez o quadrado de meio-campo do W.M (um 3-4-3), aproximando um volante da linha defensiva, e um meia-ofensivo dos três atacantes – tornando-o um ponta-de-lança:

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Este desenho estava próximo de um 4-2-4. De mesma forma, quando os húngaros fizeram seu M.M, o recuo do centroavante para a ponta-de-lança e o avanço dos meias ofensivos também configuravam um embrião do eterno sistema brasileiro. Como sempre, a nova tendência viria da inteligência de treinadores que souberam adaptar um padrão tático às características culturais do futebol local.

Feola se beneficiou destas variações húngaras e brasileiras. Zezé Moreira percebeu que os jogadores do Fluminense não conseguiam se adaptar à marcação individual por função e criou a marcação por zona no W.M. Costa lançou as diagonais. Martim Francisco, no Vila Nova-MG, recuou ainda mais o volante, e avançou ainda mais o ponta-de-lança, em movimento que Jonathan Wilson considera o primeiro 4-2-4 identificável, em 1951. Fleitas Solich fez o mesmo no Flamengo de 53, e Bélla Guttman no São Paulo de 56.

Para a Seleção Brasileira de 1958, o 4-2-4 encaixou perfeitamente à característica do elenco. Pelé, na ponta-de-lança, reunia os elementos requeridos pela função de assessorar o centroavante, criando e concluindo. Garrincha, declaradamente indiscplinado taticamente, abriu pela direita e teve liberdade para brincar. A compensação vinha na esquerda, com o estratégico recuo por dentro de Zagallo. Zito e Didi marcavam e faziam a qualificada saída de jogo. E Bellini, recuado para ser o “quarto zagueiro” – função que até hoje recebe este nome por aqui, recebia autorização para ganhar o meio-campo.

Notem que o avanço eventual de Bellini, e o recuo sincronizado de Zagallo, davam ao Brasil vez que outra a cara do 3-4-3 – o W.M. Com a diferença da variação inovadora da linha de quatro na frente, e principalmente a marcação por zona na linha defensiva – que ganhava laterais, o que evitava as perseguições encaixadas do sistema anterior, responsáveis pelos buracos na área. Um sistema novo que, aliado à qualidade técnica e ao improviso incomparável de Pelé, Garrincha, Didi, Zito…, fez o Brasil vencer com sobras as copas de 58 e 62.

9. Zagallo disseminou as variações táticas

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O 4-2-4 nasceu no Brasil e ganhou destaque com o título de 1958, mas desde seus primeiros dias na Seleção já pendia ao 4-3-3. Graças ao movimento de vai-volta do então ponta-esquerda Zagallo, que pela intensidade com que retornava para auxiliar na marcação, acabava se tornando uma espécie de terceiro homem do meio-campo.

Em 1962 o recuo de Zagallo ficou tão configurado que não se via mais uma variação do 4-2-4 para o 4-3-3, e sim o inverso: o posicionamento inicial do “Formiguinha” – assim chamado pelo desvelo na aplicação tática – partia do meio-campo. O Brasil já atuava com três atacantes, e Zagallo era o pioneiro – ou então, o primeiro a ganhar fama neste sentido – da polivalência. Um jogador capaz de desempenhar mais de uma tática individual (função), permitindo à equipe variar dentro da mesma partida seu sistema tático.

O exemplo de Zagallo disseminou pelo futebol mundial diversas variações táticas. Se até a Copa de 1958 sempre havia uma tendência predominante, que influenciava os demais (primeiro o 2-3-5, depois o W.M, depois o 4-2-4), a partir de Zagallo cada treinador passou a estudar como conciliar as características de seus jogadores a um sistema de jogo que pudesse explorar essas virtudes da melhor maneira.

Em 1966, a Inglaterra conquistou sua primeira – e única – Copa do Mundo amparada em duas variações táticas. Alf Ramsey, técnico dos ingleses, convocou jogadores polivalentes, com a clara intenção de consolidar mais de um sistema tático, mais de uma estratégia, mais de um padrão de jogo. Ele percebeu que, a despeito da técnica individual, da importância do jogador, a organização coletiva está acima do brilho singular que antes predominava no kick and rush, embrião do wing play inglês, que por muitos anos fez o país acreditar que o futebol se decidia pelos pés de um velocista habilidoso “resolvendo sozinho”.

Ramsey começou no 4-2-4 sua jornada, mas rapidamente escolheu “um Zagallo” para variar ao 4-3-3. Segundo Jonathan Wilson resgata no livro Inverting the Pyramid, o winger direito Paine reproduzia no English Team o movimento de vai-vem lateralizado do Formiguinha brasileiro. Com grande sucesso nos amistosos prévios da Copa. Desempenho satisfatório que levou Ramsey a esconder o jogo dos adversários – ele atuava no 4-2-4, mas treinava no 4-3-3, com a intenção de lançar uma falsa percepção do estilo inglês para os concorrentes.

As mudanças não pararam. Tanto que o segundo jogador a recuar, de maneira definitiva, foi o centroavante Bobby Charlton. Ele deixou de ser um segundo jogador de área, para atuar centralizado na segunda linha de meio-campo, como organizador. Na frente, dois homens. Um 4-4-2 bem caracterizado. Paine saiu, mas Ramsey fixou Peters e Ball – dois formiguinhas – pelos lados, completando com Bobby Charlton o setor.

Jonathan Wilson reproduz uma excelente definição de Ramsey, justificando sua escolha à época: “ter dois wingers abertos pelos lados é deixar sua equipe com apenas nove jogadores quando está sem a bola”. Foi para ocupar melhor os espaços no meio-campo que o treinador da Inglaterra optou pelo fim do wing play, pelo fim dos pontas, e pelo fim do 4-2-4. Um centroavante recuou, um winger tornou-se meio-campista, e os atacantes alinharam-se para formar uma dupla de área. Na final, este 4-4-2 venceu a Alemanha Ocidental, que se utilizava do “default” do 4-2-4 brasileiro.

O desenho, entretanto, ainda não era o das famosas “duas linhas de quatro”. Havia um volante central à frente do quarteto defensivo, guarnecendo um trio de articuladores que contava com um organizador, e dois apoiadores que faziam o vai-vem pelos lados do campo. Na prática, um ponta-de-lança e dois Zagallos. O sistema tático deu certo – e escondê-lo nos amistosos lançou surpresa sobre o que os ingleses apresentavam na Copa, sem que os adversários tivessem um antídoto.

10. Catenaccio: pai da retranca e do contra-ataque

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Jonathan Wilson debatia com frequência no blog The Question do site The Guardian sobre a influência do 4-4-2 em duas linhas, que ele considera nociva na Inglaterra. E na leitura do livro “Elementi di Tattica Calcistica – Volume 1″, escrito por Franco Ferrari, encontrei o gancho para falar também da cultura tática italiana.

Quando se diz que na Itália se pratica um futebol dos mais defensivistas, a origem está no Catenaccio. O Catenaccio não é bem um sistema tático, mas sim uma estratégia de jogo. E esta estratégia volta-se a duas prerrogativas fundamentais: solidez defensiva e velocidade no contra-ataque.

O surgimento do Catenaccio se deu no início da década de 30. A criação é atribuída a Karl Rappan, técnico do Grasshopers e depois da seleção da Suíça. Mas foi na Itália que esta estratégia se disseminou, tendo a Inter de Milão bicampeã europeia como seu principal propagandista.

Na descrição tática, o Catenaccio original pode ser visto como uma espécie de 4-3-3 sem laterais. Os jogadores eram distribuídos da seguinte forma: um líbero fixo (quase uma contradição, afinal o líbero é um jogador “livre”), que pode ser comparado ao nosso “homem da sobra” do 3-5-2 brasileiro; à frente deste líbero fixo, três zagueiros não menos rígidos; e logo depois do paredão de quatro zagueiros, um volante complementava o bloco defensivo.

No meio-campo, uma linha à frente do volante, posicionavam-se dois meias mais abertos, ainda no campo defensivo. E na frente, três atacantes: dois pontas e um centroavante. Notem no diagrama tático que ilustra o post a grande concentração de jogadores centralizados no campo defensivo, e o espaço entre eles e os atacantes.

Segundo Franco Ferrari, autor do livro citado e instrutor da escola de treinadores da Uefa, o Catenaccio variava o sistema de marcação entre o individual e a zona. E a estratégia de jogo assim é descrita por Ferrari: “o time estacionava no próprio campo, sempre com superioridade numérica, de maneira compacta e sem oferecer espaços; no momento da reconquista da bola, avançava-se em profundidade no campo adversário, com lançamentos longos”.

Sem a bola, retranca; com a bola, contra-ataque veloz. Abdica da posse de bola, atrai estrategicamente o adversário para o próprio campo, assume o risco da pressão, até encontrar o momento certo de encaixar uma precisa transição ofensiva. Foi esta estratégia que durante muitos anos influenciou o futebol italiano, e fez esta escola clássica ser conhecida mundialmente pelo defensivismo e pelo pragmatismo.

11. A gênese da catimba argentina nos anos 60

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Segundo o Inverting the Pyramid, tudo começou com a falsa impressão – entre os argentinos – de que eles praticavam um futebol de exceção, nos anos 50. Percepção que não se sustentava, pelo isolamento do futebol no país, distante dos confrontos com equipes estrangeiras e seleções. Não havia base de comparação.

Ainda no jurássico 2-3-5, a Argentina foi massacrada pela Checoslováquia na Copa de 58, por 6 a 1. Foram à Suécia acreditando-se os melhores, retornaram cheios de dúvidas. De imediato, importaram o 4-2-4 brasileiro, sem passar pelo estágio do W.M que já caía em desuso no Mundo. Abriam-se, portanto, às tendências táticas. Pretendiam evoluir.

Mas os reveses nas copas persistiram. Jogar bonito, ter técnica, procurar o gol, nada disto bastava. A Argentina buscava um padrão, uma característica, uma tradição. Como acontecera aos húngaros e austríacos da Danubian School, ou aos russos da desordem organizada, ou aos ingleses do W.M, ou até mesmo aos vizinhos brasileiros e seus virtuosos jogadores no 4-2-4.

Era preciso ter vontade de vencer. Ou melhor: vencer a qualquer custo. Aos poucos, os clubes argentinos começavam a aplicar ao 4-2-4 uma estratégia de jogo que para os perplexos olhos estrangeiros foi rotulado de anti-jogo, ou catimba. Ao invés de jogar bonito e tentar o gol, a meta passava a ser a marcação forte, o aguerrimento, e a fortaleza defensiva.

Essa característica tomou forma nas conquistas argentinas na Copa Libertadores, nos anos 60. Primeiro com o Racing, depois com o Estudiantes do técnico Zubeldia – equipe tricampeã continental, difusora de uma centena de folclores por eles negados, mas pelo mundo confirmados, de violência física (socos e chutes que até mesmo fraturas provocavam), intimidação psicológica (ameaças a adversários, uso de informações pessoais para desestabilizá-los), e a aplicação de agulhas (“pinchas”) para espetar adversários.

As intimidações relatadas por Jonathan Wilson chegam a ser, de tão absurdas, engraçadas. Comandados por Bilardo, volante que representava em campo as orientações de Zubeldia, os jogadores do Estudiantes esmeravam-se em desestabilizar os oponentes. Em um jogo, descobriu-se que um adversário manteve relacionamento quase incestuoso com a mãe, recém-falecida. Um jogador do Estudiantes se aproximou dele e falou – segundo o Inverting the Pyramid: “parabéns, até que enfim você conseguiu matar a própria mãe”.

Mas o Estudiantes tricampeão da Libertadores não era apenas o precursor da catimba, representante de um futebol que ultrapassava a virilidade para chegar à violência. O time de Zubeldia trouxe à Argentina duas inovações estratégicas aplicadas ao 4-2-4: a marcação-pressão e a linha de impedimento. O Estudiantes se adiantava, mesmo sem a bola posicionava-se à frente da própria intermediária. Retirava espaço do adversário, e combatia quem recebia a bola com dois ou três jogadores. Os pontas – La Bruja Verón e Ribaudo – auxiliavam a preencher o meio-campo, como faziam os “tornantes” do catenaccio italiano (wingers avançados com a bola, recuados sem ela).

Os recursos de anti-jogo ficaram, entretanto, mais conhecidos do que a linha de impedimento e a marcação-pressão adiantada em função dos confrontos com os clubes europes, em dois jogos, nas finais dos Mundiais Interclubes.

12. O futebol total do carrossel holandês

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Segundo Jonathan Wilson, o futebol total holandês se baseava em duas premissas principais: linha de impedimento e marcação sob pressão alta. A estratégia era adiantar o posicionamento inicial de todos os jogadores, sufocando o adversário, ocupando espaços e diminuindo o tempo necessário para o time rival pensar o jogo.

Mas a principal novidade tática eram as trocas de posições verticais. Princípio diferente da desordem organizada dos russos, já analisados aqui, que primavam pelas inversões de posicionamento horizontais – setorizadas, portanto: atacantes saindo da direita para a esquerda, meias fazendo o mesmo. Inversões de lado a outro, sem modificar a formação dos setores (defesa, meio e ataque).

Na Holanda – primeiro com o Ajax (conforme diagrama tático que ilustra o post), depois com a Seleção Nacional – o técnico Rinus Michels instituiu as trocas verticais. Dividido o campo em esquerda, direita e centro, eram nestas faixas que os jogadores invertiam posicionamento. Uma estratégia muito mais difícil de ser diagnosticada pelo adversário.

O básico, ainda utilizado até hoje, é passar o ponta-direita para a esquerda, e o canhoto para a destra – por exemplo. Movimento que não desorganiza o adversário. Agora, se o lateral se torna ponta, se o ponteiro recua para a linha defensiva, se o meia vira líbero, e o líbero aparece na área, aí a marcação adversária – principalmente se houver perseguição individual – naufraga.

O sistema tático era o 4-3-3, mas com um desenho que poderia ser desdobrado em 1-3-3-3: um líbero, três defensores, três meio-campistas, e três atacantes. As inversões de posicionamento se davam, portanto, entre os três jogadores da esquerda, os três da direita, e os quatro do meio-campo. As mais características aconteciam na faixa central, com Cruyff recuando e abrindo espaço para Neeskens, ou com o líbero Hulshoff avançando de surpresa.

No 4-3-3, com líbero, linhas adiantadas, marcação sob pressão alta, uso da linha de impedimento, inversões de posicionamento verticais, estes eram os princípios básicos do futebol total holandês. Acrescidos, é evidente, pela inteligência de Rinus Michels e de seus jogadores: o primeiro, capaz de planejar tal organização complexa; e os demais, de compreender e executar.

13. Brasil de 1970: o último romântico

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O time treinado por Zagallo é o protagonista do capítulo “Fly Me to the Moon”, na obra que apresenta a história e a evolução das táticas no futebol. Jonathan Wilson destaca que o Brasil de 70 é o último dos times que abriu espaço para todos os seus bons jogadores. Zagallo, com muita inteligência, soube encontrar espaço na Seleção Brasileira para cada um dos craques do momento. E conviveu, à época, com dilemas que colocavam Gérson e Rivelino como concorrentes a uma posição, assim como Pelé e Tostão – entre os quatro, alguns diziam, apenas dois poderiam jogar.

A solução de Zagallo se deu a partir do recuo de Gérson, que passou a desempenhar uma função na Itália conhecida por “regista” – uma espécie de segundo volante responsável pela saída de bola qualificada, com passes curtos ou longos, regendo a transição ofensiva. Clodoaldo assumia a responsabilidade de proteger a dupla de zagueiros, que tinha aos lados dois laterais distintos: pela direita, o apoiador Carlos Alberto; na esquerda, o marcador Everaldo.

À frente de Clodoaldo e Gérson, distribuíam-se quatro jogadores ofensivos. Rivelino à esquerda, aproximando-se do trio formado pelo ponta Jairzinho, na direita, e pelos pontas-de-lança Tostão e Pelé, centralizados. Rivelino ocupava um lado, Jairizinho abria o corredor em diagonal para a passagem de Carlos Alberto no outro, e a dupla de frente tratava de acabar com a vida dos zagueiros adversários.

Esta formação, descrita no diagrama tático que ilustra o post, privilegiava os jogadores mais talentosos. Mesmo sob o risco de sobrepôr algumas características semelhantes, Zagallo encontrou lugar para atletas que nos clubes desempenhavam funções equivalentes. E o desenho resultante causa para Jonathan Wilson até mesmo uma certa indefinição:

“Era um 4-4-2, um 4-3-3, um 4-2-4, ou até mesmo um 4-5-1? Era todos, e nenhum. Era apenas jogadores em um campo, que se complementavam perfeitamente. Modernamente, poderia muito bem ser descrito como um 4-2-3-1, mas tais sutilezas não significavam tanto na época”, analisa Jonathan Wilson.

É uma analogia interessante. O desenho lembra o 4-2-4 campeão em 1958. Mas o posicionamento inicial de Rivelino também sugere a variação para 4-3-3 criada pelo próprio jogador Zagallo, entre 58 e 1962. Alguém pode ainda ver um 4-4-2, considerando Jairzinho um meia. Ou então enxergar o 4-5-1 desdobrado em 4-2-3-1, com Tostão à frente de Pelé, Jairzinho e Rivelino. Eram os melhores jogando, no último suspiro do futebol romântico, onde há camisas suficientes para todos os craques, a despeito do sistema tático escolhido.

14. 3-5-2: a culpa é dos argentinos

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O pai do 3-5-2, segundo Jonathan Wilson, é Carlos Bilardo. Técnico da seleção da Argentina na Copa de 1986, ele sempre teve predileção por estratégias cautelosas. Para ele, um time de futebol precisa de sete jogadores defendendo, e três atacando.

A criação do 3-5-2 partiu do seguinte raciocínio: frente à extinção dos pontas, na transição do 4-3-3 para o 4-4-2, por que manter laterais presos à linha defensiva? Não havia, na teoria, quem ser marcado no setor. A partir daí, Bilardo desenvolveu o novo sistema tático, que revolucionou o futebol mundial no final da década, e no início dos anos 90.

Pelos lados, havia três opções: utilizar meio-campistas – como preferiu Bilardo, com Olarticoechea e Giusti; laterais ofensivos, como fez a Alemanha na copa seguinte, com Brehme e Reuter; ou laterais defensivos, configurando o 5-3-2 – a inversão completa da pirâmide tática (afinal, o primeiro sistema tático organizado reconhecido era o 2-3-5, uma pirâmide de base alta).

No 3-5-2 da Argentina, Bilardo se dava ao luxo de manter sete jogadores defendendo, pela presença de Maradona. Em grande fase, o camisa 10 foi utilizado como um segundo atacante livre para se movimentar, ocupar espaços, driblar e levar o time para a frente. Valdano era o homem mais adiantado, e Burruchaga o meia de aproximação, completando o trio ofensivo.

Mas, como era novidade, Bilardo fez mistério. Atuou na primeira fase inteira no 4-4-2, e passou ao 3-5-2 contra a Inglaterra, no mata-mata. Fez sucesso. Combinar um meio-campo ocupado por cinco jogadores, abolir os laterais, e recuperar a figura do líbero pós-Copa de 1966, difundida pela Holanda de Cruyff, abriu um grande precedente entre equipes e seleções. Virou moda. Todos passaram a usar. Principalmente na Itália, onde este “5-3-2″ quase lembrava um catenaccio.

O contexto é muito oportuno, como bem Jonathan Wilson ampara em números: a Copa de 1990, abarrotada de seleções no 3-5-2, teve a pior média de gols da história. Foi uma copa “feia”. Cruyff disse que a substituição dos pontas pelos alas significava a “morte do futebol”. A Euro 92 teve média de gols ainda mais baixa. A Fifa procurou mudar regras para o futebol voltar à vida.

Aos poucos, o 3-5-2 caiu em desuso. Menos no Brasil, onde a prática cada vez mais comum influencia países vizinhos, como Uruguai e Paraguai. E há enclaves de resgate do 3-5-2 também na Itália. Ainda assim, é tido por Jonathan Wilson como um sistema ultrapassado e em extinção.

15. O 4-4-2 do Brasil na Copa de 1982

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O Brasil de Telê Santana jogava em um clássico 4-4-2 brasileiro, com dois volantes e dois meias criativos. Já se partia da tendência lançada poucos anos antes, do “quarto homem do meio de campo”, provocada pelo recuo de um dos pontas. À época, o humorista Jô Soares até pedia com insistência: “bota ponta, Telê”. A opinião pública estava acostumada a ver times e seleções no 4-3-3, mas o Brasil se adaptava a um sistema que lhe caberia muito bem, e por longos anos.

A base tática tinha uma linha de quatro defensores, protegida por dois volantes. A zona de articulação contava com Sócrates pouco mais centralizado, enquanto Zico avançava preferencialmente pela direita. A compensação se dava no ataque, onde Éder era o ponta remanescente, pela esquerda, tendo Serginho na referência de área.

A estratégia era diversificada. Ambos os laterais apoiavam, principalmente Júnior, que ora passava pelo lado, empurrando Éder para o centro, ora fazia a diagonal, permitindo a Éder se utilizar do corredor. Os dois volantes – Falcão e Cerezo – com técnica acima da média para a função, exerciam a saída de bola sempre pelo chão.

O Brasil jogava de pé em pé, com variações de jogadas, aproximações, triangulações, passagens, infiltrações. Era uma equipe sincronizada em seus movimentos ofensivos. Com jogadores qualificados e inteligentes. Pouco previsível pelos adversários, embora algumas vezes vulnerável em função da própria vocação.

Dentro deste contexto, destoava o centroavante Serginho Chulapa. Telê não pôde contar com Careca e Reinaldo, dois jogadores que poderia participar destas combinações pelo chão, e também concluir. Serginho era apenas um definidor, oportunista, dependente dos demais. A eliminação, entretanto, logicamente não passa exclusivamente pela falta de um centroavante mais técnico. Mas este fator contribuiu, assim como a ausência de um goleiro de exceção, para a eliminação quase inacredítavel da Seleção para uma Itália que tinha o declinante gioco all’italiana.

16. O surgimento do 4-4-2 britânico no Liverpool

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A estratégia aplicada a este 4-4-2 em duas linhas nasceu em 1973, no Estádio Anfield Road, casa do Liverpool. Após derrota para o Estrela Vermelha por 2 a 1, que provocou a eliminação na Champions League, dirigentes e integrantes da comissão técnica dos Reds se reuniram para buscar as causas do insucesso. E diagnosticaram: o “pessoal do continente” sabia como ninguém controlar a posse de bola.

Era preciso aprender a jogar com a bola nos pés. E, para isso, a equipe precisaria se compactar. Formar duas linhas, adiantar a primeira, compactar um pelotão de oito jogadores. Assim, o Liverpool teria linhas de passe. A ideia que justificou este planejamento tático partia do seguinte princípio: o jogador que tivesse a bola contaria sempre com pelo menos duas ou três opções de passe curto. Os Reds jogariam sem pressa, trocando passes no campo adversário, “rodando” o jogo, “girando” a bola, de pé em pé, até desorganizar a defesa adversária, abrir espaços, e conseguir uma infiltração pelo chão.

Os pensadores do Liverpool também imaginaram que esta iniciativa de controle da posse de bola deveria partir da defesa. Zagueiros trombadores, sem qualidade, foram trocados por defensores com capacidade de fazer o primeiro passe. A partir dali, os meias-centrais – com opções próximas na direita, na esquerda, à frente, atrás – poderiam antever os próximos movimentos da equipe. E promover uma linha de passe que levasse o Liverpool ao gol adversário.

Este ideal estratégico do 4-4-2 em duas linhas, entretanto, foi adaptado rapidamente à necessidade de times menores. Watford e Wimbledon obtiveram sucesso utilizando-se deste sistema para jogar em contra-ataques. O contrário do que propunha o Liverpool.

Agrupar-se não para trocar passes, e sim para retirar espaços. Adiantar as linhas de marcação e forçar com pressão alta o erro adversário. Recuperada a bola, aqueles jogadores de defesa com qualidade fariam o passe longo na direção dos wingers, em transições ofensivas fulminantes. Logo a figura do centroavante de referência foi incluída nesta nova estratégia. Nascia o criticado estilo de jogo dos ingleses nos anos 80: ligação direta, força física na marcação, bola aérea, e pouca posse de bola.

Há pesquisadores que atribuem à seleção da Inglaterra na Copa de 1966 a criação das duas linhas. Na verdade, como o próprio Wilson explica no Inverting the Pyramid, os ingleses apresentaram naquele Mundial o primeiro 4-4-2 que se tem registro, mas com desenho em losango no meio-campo. Não era, portanto, o 4-4-2 britânico, que nasceria sete anos depois em Anfield Road.

Gegenpressing

Popularizou-se com o modelo de jogo elaborado por Jürgen Klopp no Borussia Dortmund o termo “gegenpressing” para caracterizar o momento de transição ataque-defesa no futebol de alto nível. É um sinônimo em alemão para a palavra “counterpressing”, ambas significando para nós brasileiros a “pressão sobre o contra-ataque adversário”. O contra-ataque do contra-ataque.

No capítulo 8 do e-book gratuito reescrito em posts neste blog já foi abordado o tema Transição Defensiva, com os pormenores teóricos desta fase do jogo. Vale recordar, resumidamente, os princípios desta fase – ou seja, as regras gerais que o treinador deve elaborar em seu modelo de jogo para orientar os jogadores (condicionar a tomada de decisão) no momento em que há troca de posse em favor do adversário.

Segundo o professor Rodrigo Leitão, os princípios estruturais dizem respeito a relação numérica entre os jogadores que participam da ação ofensiva, e os jogadores que permanecem atrás da linha da bola – em relação com os espaços no campo defensivo e com os adversários à frente da linha da bola. São eles:

  • Densidade Defensiva: confronta a quantidade de jogadores atrás da linha da bola (em espera) com os adversários à frente da linha da bola, em geral buscando superioridade defensiva;
  • Balanço Defensivo: número de jogadores atrás da linha da bola na fase ofensiva, e a maneira como eles estão distribuídos em campo;
  • Proporção de Defesa: confronta, dentro do próprio time, quantos jogadores participam ativamente da ação ofensiva, e quantos estão “em espera”.

Já os princípios organizacionais são as regras em si estipuladas aos jogadores – os comportamentos que se pretende executar coletivamente no momento da perda da bola:

  • Pressionar o portador da bola;
  • Recompor (retornar);
  • Manter a organização da estrutura.

Todos estes princípios são levados em consideração na “gegenpressing”. Esta transição defensiva agressiva delimita o tempo necessário para se recuperar a posse exercendo imediata pressão a partir da perda.

Em geral, as equipes trabalham com o tempo de 5 segundos: perdeu a bola, os jogadores próximos seguem o plano e pressionam imediatamente; se, em 5 segundos a bola não foi recuperada, muda-se o comportamento para recomposição e reorganização das linhas de defesa, entrando em organização defensiva. No Grêmio trabalha-se com métricas (cálculos matemáticos sobre scouts agrupados em princípios), e entre várias medições é monitorada a REC 5 – exatamente a recuperação em 5 segundos (quantas vezes ocorre, em que quadrantes do campo, com qual percentual de êxito, com quais jogadores) – tanto do Grêmio como dos adversários.

O site spielverlagerung.de publicou há algum tempo um excelente artigo esmiuçando os pormenores táticos elaborados pelos treinadores de ponta no desenvolvimento da transição defensiva agressiva -> cliquem aqui.

No artigo, o autor enumera dois requisitos fundamentais para a execução da gegen – ou counter – pressing, como diz o título do texto:

  • Unidade Ofensiva: atacar de forma organizada, com movimentos sincronizados e jogo posicional claro, mantém os jogadores próximos e permite uma reação coletiva no imediato momento da perda da bola; é um pensamento que funciona “melhor” para os times que valorizam a posse de bola e a circulação em triangulações em passes curtos.

    O que me faz lembrar uma frase do técnico Roger Machado nos treinos do Grêmio: “quem tá próximo para jogar, tá próximo para marcar“.

    Ou seja, o mesmo grupo que articulava-se com aproximações em posse é o responsável por, estando no centro de jogo (no raio de 9,15m ao redor da bola), pressionar os adversários para a recuperação imediata da bola;

  • Balanço Defensivo: como já foi dito, o número de jogadores atrás da linha da bola na fase de organização ofensiva, e sua distribuição em campo (princípio que sustenta – dá segurança – aos jogadores que estão no centro de jogo para que eles pressionem a bola);
  • Eu tomo a liberdade ainda de acrescentar a Preparação Física. Afinal, é um princípio de jogo que exige alto condicionamento dos jogadores, o que será alcançado apenas com treinamentos em periodização tática que atendam à especificidade desta ação.

Thomas Tuchel, sucessor de Klopp, mantém esta “pegada” no Borussia. Pesquei um exemplo da partida contra o próprio Liverpool de Klopp – empate em 1 a 1 na Alemanha, pela Liga Europa. Vejamos:

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O cronômetro marca 6’12” do 1º tempo. O meia 10-Mkhtaryan, pressionado por dois adversários, perde a bola. Estão na periferia do centro de jogo os atacantes 11-Reus e 17-Aubameyang,  e o ala-extremo 37-Durm.

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No cronômetro, vemos que passaram-se 4 segundos (dentro, portanto, do período de “gegenpressing”). Notem que o Borussia agora tem 6 jogadores dentro do centro de jogo. As setas demonstram que pelo menos quatro jogadores tiveram comportamento agressivo de aproximação, tanto para pressionar o portador, como para marcar os dois alvos de passe próximo à frente: tanto os atacantes 11-Reus e 17-Aubameyang, como o próprio 10-Mkhtaryan, e além deles o volante 33-Weigl e o meia oposto 27-Castro (ambos estavam fora do vídeo na primeira imagem), assim como as aproximações em cobertura do 37-Durm e do lateral-direito 26-Piszczek.

O que aconteceu? Em 4 segundos a partir da perda, o portador da bola “apavora-se” com a pressão de 6 adversários e é induzido a tomar a decisão errada com a execução técnica errada: faz o passe nos pés do 10-Mkhtaryan sem que tivesse sequer algum companheiro naquela direção. Livrou-se da bola.

Mas estas regras – os princípios da transição defensiva agressiva – precisam também prever o plano B: o que fazer após os 5 segundos se a recuperação da posse não ocorrer?

Além da equipe perguntar-se quando pressionar? e como pressionar? também precisa perguntar-se (e ter respostas estabelecidas no plano de jogo, treinadas até condicionar o comportamento coletivo dos jogadores) por quanto tempo pressionar? e quando parar de pressionar? Times bem treinados têm ideias claras, e os jogadores são condicionados a tomar decisões de acordo com o modelo, avaliando a cada fração de segundo qual comportamento adotar.

Vejamos este exemplo do mesmo Borussia de Tuchel contra o Liverpool. Há neste lance uma boa concentração de jogadores no centro de jogo e na periferia imediata a ele. Estão próximos do 33-Weigl – que errou o passe e seguiu a trajetória da bola para pressionar imediatamente o portador – outros 4 jogadores do Borussia (Castro, Schmelzer, Reus e Mkhtaryan).

Porém, observem o comportamento do lateral-direito 26-Piszczek. O cronômetro marca 42’40″do 1º tempo.

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O portador da bola – parece-me o volante-meia 23-Emre Can – encontra a solução mais indicada sob pressão por trás: jogar em um tempo. Ele faz o passe de primeira para o jogador que se projeta (7-Milner, sinalizado com a linha vermelha), saindo imediatamente da pressão e encontrando espaço para o receptor do passe progredir tendo ainda dois companheiros próximos (14-Henderson e 10-Coutinho, ambos à esquerda de Milner).

Dois segundos depois (cronômetro do 42’42”) vejam qual foi a tomada de decisão de Piszczek: ora, se não dá para pressionar coletivamente e estou em inferioridade numérica, subir o combate abriria um espaço relevante às costas e induziria Milner a acionar Coutinho em velocidade e sem marcação. O que faz o lateral-direito do Borussia?

Plano B: recua em velocidade a ponto de ignorar completamente a bola (vira-se de costas para o portador, tendo como objetivo específico defender o espaço e reorganizar as linhas):

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Nota-se que o volante 27-Castro também toma a mesma decisão. Fica evidente que ambos “pensaram juntos”, avaliaram a situação sob a mesma perspectiva tática e, portanto, agiram coletivamente. Uma demonstração de time bem treinado. Jogadores condicionados a ler cada situação de acordo com os princípios do modelo de jogo em cada fase, e assim avaliando todas as circunstâncias, tomar decisões que atendam a estas regras em sentido de unidade (todos pensando da mesma forma, um antecipando a ação/reação do outro).

Na sequência do lance, os jogadores que garantiam o balanço defensivo (os dois zagueiros) fazem a temporização (atrasam a jogada), dando tempo à recomposição dos jogadores que retornaram em velocidade (comandados pela rápida mudança de comportamento do volante e do lateral-direito) e em superioridade numérica, com os espaços ocupados de forma organizada, o Borussia recupera a bola e estanca o contra-ataque.

O artigo apresenta três tipos de “gegenpressing” utilizados atualmente, sob a perspectiva da cobertura na periferia do centro de jogo:

  • encurtamento com encaixes individuais – pressão individual no portador e fechamento individual das linhas de passe;
  • ênfase na pressão ao portador (alvo é a bola);
  • encurtamento com fechamento dos ângulos de passe (pressão ao portador e aproximação ao centro de jogo dos demais jogadores, fazendo “sombra”à frente das linhas de passe (colocando-se entre o portador e os alvos).

Todas estas regras variando conforme o objetivo, e podem até ser adaptadas ao modelo de jogo adversário (estratégia, princípio específico). Em geral, as metas principais são roubar a bola, isolar o portador, impedir ou atrasar a progressão – fazer recuar, induzir ao erro, bloquear o corredor central – induzir à saída lateral, proteger espaços relevantes…e até mesmo, dependendo da circunstância, parar a jogada (falta).

As vantagens apontadas para a transição defensiva agressiva – gegenpressing, counterpressing ou REC 5, como queiram – são fundamentalmente três, todas elas interligadas:

  • Estabilidade defensiva: hoje as equipes, em especial as de ponta, são exímias em transições ofensivas. Apenas recuar e se reestruturar no momento da perda da bola dá a adversários com jogadores de extrema qualidade técnica, velocidade, controle de bola, qualidade de passe e capacidade de vitória pessoal no 1×1, tempo e espaço para progredir e tomar decisões acertadas. A pressão imediata freia esta progressão, induz ao recuo ou ao erro, e evita a exposição à velocidade e qualidade de extremos e atacantes decisivos;
  • Evitar desorganização: quando se está atacando, os jogadores projetam-se e ocupam espaços ofensivos. A perda da bola pode expor espaços relevantes no campo defensivo. Ao mesmo tempo, quando o adversário recupera a bola, seus jogadores também se projetam, e agora é ele quem tende a se expor. O que leva à terceira vantagem:
  • Atacar: se o adversário, quando rouba a bola, entra em transição ofensiva e projeta seus jogadores, a recuperação imediata da bola permite ao time aproveitar esta saída do bloco rival, identificando e atacando espaços vulneráveis. O contra-ataque do contra-ataque. O que se torna ainda mais vantajoso por ocorrer no campo ofensivo – próximo à zona de criação e finalização.

Cabe aos treinadores elaborar planos claros para esta fase de jogo, estabelecendo as regras e estimulando nos treinos específicos os jogadores a saber identificar/avaliar os momentos de perda de bola para saber quando, como, onde, quem e para que pressionar a bola imediatamente após a perda. Outro elemento importante, realizado no Grêmio, é o monitoramento constante da métrica que mede este princípio (em nosso caso, a REC 5) para saber o percentual de êxito, os locais do campo (e, portanto, os jogadores envolvidos), as situações e os contextos onde ela foi realizada e funcionou – o que vai nortear os treinos específicos e estabelecer metas de evolução.

 

 

Princípios Específicos do Jogo

No post com o capítulo 5 do e-book gratuito reescrito, sobre Organização Ofensiva, foi apresentado um resumo do trabalho do professor-doutor Rodrigo Leitão sobre os princípios operacionais e fundamentais do futebol na fase de posse de bola. No livro “Para um futebol jogado com ideias” o também professor-doutor Israel Teoldo apresentou outra forma de agrupar as mesmas ideias, em uma abordagem extremamente científica, profunda e elaborada.

Para Teoldo, existem quatro grandes grupos de princípios, descritos em seu livro. Além dos operacionais e fundamentais, ele também fala dos gerais e dos específicos. E, dentro dos fundamentais, condensa ideias que encontramos separadas no trabalho de Leitão.

No livro, inclusive, Teoldo nos oferece um quadro elucidativo sobre cada um dos três grupos de princípios abrangentes – os gerais, os operacionais e os fundamentais:

teoldo

Nota-se que, na comparação com o trabalho de Leitão, o número de princípios fundamentais da fase ofensiva caiu de 7 para 5, assim como os da fase Defensiva caíram de 8 também para 5. O que fomenta um debate entre os cientistas do esporte, beneficiando todos os interessados no tema – em especial os profissionais da área – ao nos permitir a análise de abordagens diferentes sobre ideias semelhantes, como eu já disse.

Ali no princípio “Espaço” na nomenclatura de Teoldo inserem-se, na prática, os conceitos de “Amplitude” e “Profundidade” que estão individualizados no trabalho de Leitão, por exemplo.

Em resumo, para diversos autores, os princípios gerais são aqueles comuns aos demais princípios (operacionais e fundamentais), assim como a todas as fases do jogo (com bola e sem bola, assim como transições), referindo-se à constante busca pela superioridade numérica; os princípios operacionais se relacionam a conceitos atitudinais nas duas fases maiores – impedir a progressão e a finalização adversárias, e conquistar ao mesmo tempo progressão e finalização contra o adversário; e os princípios fundamentais são conjuntos de regras que orientam as ações táticas dos jogadores, conforme o planejamento estabelecido no modelo de jogo norteador do trabalho.

Na prática, os princípios fundamentais são mesmo as “regras” para os jogadores executarem a maneira de jogar pensada pelo técnico e sua comissão. Como conquistar a amplitude, de que forma, por quem, em qual local do campo; como oferecer profundidade, onde, quando, por quem…tudo conforme a posição da bola, dos companheiros e dos adversários, criando referências para ocupação de espaços de forma inteligente e sincronizada, induzindo os atletas a avaliar cada lance e escolher entre as alternativas apresentadas pelo contexto da jogada a melhor decisão. E assim sucessivamente, formando uma unidade de pensamento.

Pode-se observar a análise de alguns destes princípios do Real Madrid, na fase ofensiva, no vídeo produzido pelo Renato Rodrigues no Data ESPN:

Mas, e os princípios específicos citados nos estudos de Teoldo? Bem, são as referências para as ações dos adversários, dentro do modelo de jogo desenvolvido, mas com aplicação obviamente específica naquela partida em questão. Dentro do plano macro o técnico faz ajustes que buscam aproveitar-se de pontos vulneráveis do rival, assim como prevenir-se das virtudes dele. Uma zona de pressão mais agressiva sem a bola, por exemplo, ou um local mais propício para oferecer amplitude com a bola…

Ainda sem saber a autenticidade do documento, o jornal espanhol AS publicou uma imagem atribuída ao técnico Zinedine Zidane, com o plano tático elaborado para o confronto com o Barcelona. À mão, percebe-se a descrição dos princípios ESPECÍFICOS – as regras que os jogadores devem aplicar especificamente nesta partida, em função das virtudes e vulnerabilidades identificadas na análise prévia do adversário:

zidane

Entre dois temas-título (pressão alta sobre o tiro de meta adversário e bloco médio) Zidane supostamente descreve como princípios específicos, escalonados conforme o Barcelona progrida no campo – as seguintes regras (ações táticas):

  • Fechar linhas de passe por dentro (e consequentemente, na sequência, pede que induzam o Barça a jogar por fora no lateral) – ideia reiterada duas vezes
  • Não permitir que Iniesta e Rakitic recebam – se receberem, que não girem
  • Cuidar a “saída de 3” com Busquets construindo de frente
  • Ajustar marcações conforme quem aborda (princípio de contenção, portanto) o lateral portador da bola, enfatizando que Casemiro “afundaria” para a linha defensiva quando  a contenção fosse de lateral x lateral, fazendo o zagueiro do setor cobrir espaço fechando linha de passe do extremo
  • Ajustar marcações conforme Messi recuar para a construção
  • Cuidar as diagonais de Suárez às costas da defesa quando a bola estiver em amplitude
  • Cuidar a inferioridade numérica pelos lados em 1×2, principalmente no setor de Neymar

Sendo um manuscrito original de Zidane ou não, vale para exemplificar no que consiste os princípios específicos do jogo, contextualizando informações dos princípios fundamentais com as características do adversário.

11.Análise de jogo

Diversos pesquisadores, em especial na escola portuguesa, criaram métodos de análise dos jogos de futebol, alguns vinculados a números de scout, com equações cruzando dados para estabelecer diagnósticos. Não cabe aqui, entretanto, descrever estes métodos – alguns deles já obsoletos, servindo apenas à curiosidade sobre a evolução do estudo científico do futebol, sem aplicação útil na prática. Basta saber que é uma ciência em constante evolução, com grande repertório/precedente bibliográfico.

Em resumo, a base da análise chega a um óbvio consenso: observar e anotar. É o que diz o professor-doutor Júlio Garganta:

Quando se pretende analisar o conteúdo de um jogo é necessário observá-lo, para anotar ou registrar as informações consideradas pertinentes“.

Ou seja, não existe analista de melhores momentos. Se estiver com pressa, não faça. Ninguém chega a conclusões em 10 minutos. É preciso assistir ao jogo completo – se a análise é específica deste confronto – ou pelo menos entre dois a três jogos completos (quanto mais melhor) para se reunir um bom volume de informações.

Por quê? Ora, porque já foi exaustivamente repetido que o mantra da análise de jogos desportivos é “identificar padrões de comportamento“. Estes padrões, coletivos e individuais, em todos os momentos de organização da equipe (ataque, defesa, transições e bolas paradas) revelam as diretrizes do modelo de jogo, permitindo assim identificar e interpretar as ideias aplicadas pelo técnico e sua comissão a partir dos treinamentos.

E em 10 minutos, com pressa, ninguém consegue uma amostragem suficiente para identificar padrões. Analisar melhores momentos abre margem para erros de análise. Vale lembrar que análise tática não é opinião, é informação. O analista, após exaustiva observação, anotação e interpretação dos comportamentos e dados, reúne as informações relevantes e transmite (seja no clube, seja na imprensa, seja nas redes sociais) ao seu público-alvo.

Não há espaço para o “eu acho”, e principalmente, não há espaço para o “eu prefiro”. Opinar demais, achar demais, contamina a analise e a torna um artigo, impreciso. Além do vício pela opinião, a pressa também provoca erros ao se confundir posicionamentos e movimentos. Identificar as peças fora de lugar no sistema tático que compromete a análise dos movimentos.

Isto é um erro de informação, tomando o movimento pelo posicionamento. Recentemente vi um time distribuído no 4-2-3-1 ser descrito como sistema de três zagueiros porque na saída de bola um volante recuava para fazer o primeiro passe na linha dos defensores. Não eram três zagueiros, mas sim uma linha defensiva de quatro jogadores, com – por vezes – o recuo de um dos volantes para realizar a construção inicial, projetando assim os dois laterais ao mesmo tempo no campo ofensivo. Movimento, por sinal, cada vez mais difundido para dar espaço e tempo ao volante na saída de bola, saindo da pressão e organizando de frente para o campo ofensivo.

Ainda segundo Garganta, “a análise do jogo permite interpretar a organização das equipes e das ações que concorrem para a qualidade do jogo; planificar e organizar o treino; estabelecer planos táticos adequados em função do adversário; e regular o treino“. Isto, claro, no âmbito dos clubes. Na imprensa e na internet em geral (sites, blogs e redes sociais) serve para a difusão de conhecimento, para o aprofundamento do debate, e para a veiculação de informações mais qualificadas.

A anotação se dá, primariamente, com o velho papel e caneta. Durante muitos anos não assisti a um único jogo sem ter o bloquinho e a esferográfica por perto. Vai observando, vai identificando, vai colocando no papel – posicionamentos iniciais (configurando, na soma, o sistema tático) movimentos que se repetem, sincronias e interações entre os jogadores, comportamentos coletivos, de pequenos grupos ou individuais. Tudo vai para o papel. E, se a ideia é ilustrar o texto com frames do jogo (ou com um vídeo editado), cabe anotar também os minutos de incidência dos lances que chamaram atenção, para facilitar a prospecção futura das imagens.

Esta análise observacional e notacional pode ser quantitativa ou qualitativa. A quantitativa traz os números de scout, é absolutamente precisa e objetiva, associada às ações técnicas individuais na maior parte das vezes; já a qualitativa refere-se a comportamentos e movimentos, padrões mais complexos e, portanto, mais ligados à análise coletiva, interpretativa.

O ideal é que ambas caminhem juntas. Assim como é impossível ser “comentarista de melhores momentos”, também não é possível se analisar um jogo sem assistí-lo com base nos scouts, por mais detalhados que eles sejam; no entanto, estes dados são importantes para endossar comportamentos táticos identificados na observação das imagens, incrementando a análise e explicando o porquê de movimentos se repetirem – ou o resultado da repetição destes movimentos.

Mais recentemente, inúmeras empresas especializadas em análise de performance/desempenho têm surgido no mundo oferecendo avançados serviços de vídeo e scouting. Boa parte delas já entrega ao clube contratante uma “pré-análise”, cruzando os dados de scout com os comportamentos táticos, o que facilita o trabalho do analista que pode dedicar seu tempo a interpretar, realizar diagnósticos e transmitir à comissão as informações sem se ater a trabalhos braçais como a prospecção dos dados de scout (chamada “medição) ou o corte de vídeos. Posso citar pelo menos dois bastante difundidos entre os clubes brasileiros – o Wyscout e o InStat Football.

Há ainda softwares que conciliam protocolos de scout e de edição de vídeo. Cada lance anotado na medição gera um corte automático na linha do tempo do vídeo, o que pode ser feito simultaneamente no jogo, separando assim – conforme os eventos listados no protocolo – os lances por fundamento e por jogador, agilizando a busca pelas imagens. Algumas das empresas de scouting geram documentos compatíveis com estes programas de vídeo, com o mesmo propósito – cortar automaticamente o jogo separando eventos e jogadores em linhas do tempo distintas. O mais conhecido – e muito disseminado no Brasil – para criar protocolos e cortar vídeos desta forma é o Sportscode.

Outros softwares servem como organização e apresentação dos dados de scout. É preciso abastecê-los com os scouts (produzidos pelo próprio clube ou contratados de uma empresa terceirizada – posso citar as mundiais Opta e Squawka, ou a nacional Footstats) para que as informações sejam mais rapidamente processadas, apresentando os números de forma clara e permitindo diversos cruzamentos de dados para geração de planilhas customizadas conforme o usuário deseja no momento, no chamado sistema de “cubo”- como faz a empresa alemã SAP, entre muitos produtos que ela oferece.

Mais um serviço, avançado e bastante incipiente no futebol mundial – no Brasil, acredito que apenas o Grêmio o utilize, desde o segundo semestre de 2015 – é a análise de métricas. Estas métricas reúnem dados de scout em conjuntos que atendem a cálculos baseados em teorias estatísticas aplicadas ao futebol.

Para isso, o scout deve ser extremamente complexo, confiável e preciso – inclusive no tempo exato de execução de cada ação, além da coleta de desdobramentos de cada fundamento. A cada passe, por exemplo, dizendo o autor e o receptor, a direção (para frente, para o lado, para trás), a localização exata de ambos – autor e receptor – no campo (coordenadas X e Y), o comprimento (em metros, definindo o que é curto, médio ou longo), o tipo (rasteiro, por cima, de cabeça, etc) além do segundo exato de saída e de chegada da bola.

Estas métricas, conforme as demandas da comissão técnica, podem apresentar dados sobre os quadrantes do campo onde a circulação de passes é mais rápida (ou mais lenta), onde é mais precisa, onde é mais objetiva (passes para frente), assim como – aplicada a itens defensivos como roubadas, interceptações, etc – pode ajudar a entender quanto tempo o time leva para roubar a bola, qual o grau de eficiência nos “tackles”em cada quadrante…tudo isto aplicado à própria equipe, e aos futuros adversários.

Este trabalho de métricas aponta tendências (padrões de comportamento, portanto), permitindo fazer projeções amparadas em dados concretos. Na análise de determinado adversário, gerando os cálculos de acordo com os scouts das partidas anteriores dele, é possível identificar tendências ofensivas e defensivas, como por exemplo em qual quadrante a pressão defensiva é menor, o que pode auxiliar a comissão técnica a encontrar caminhos mais vulneráveis.

Os matemáticos/estatísticos responsáveis pelo cálculo destas métricas podem ainda criar parâmetros de rendimento – metas a ser atingidas pelo time a cada partida, com base no próprio desempenho anterior e nos números alcançados pelos times de ponta no mundo. Cabe ao analista, novamente, reunir estes dados precisos e objetivos, interpretá-los conforme o modelo de jogo das equipes (a própria e os adversários) e apresentar diagnósticos à comissão sobre os motivos táticos/comportamentais que levam àqueles números. Ligando os pontos entre este parágrafo e o anterior, após assistir ao maior número possível de jogos, o analista encontra o porquê da pressão mais baixa exercida pelo adversário em determinado quadrante (algum comportamento individual e/ou coletivo determinante) – é o número incrementando e dando subsídios à análise, à observação.

Além do mantra “identificar padrões de comportamento” – a análise de desempenho também entoa o “futebol é a ocupação inteligente dos espaços relevantes“. Afinal, apenas um dos 22 jogadores pode ser o portador da bola, os outros precisam ocupar espaços em relação com os companheiros e os oponentes, identificando a cada fração de segundo qual decisão está de acordo com o modelo de jogo, frente a todas as possibilidades que se apresentam.

Diz Garganta: “estudos descritivos têm apontado que, na maior parte do tempo útil de jogo, tanto o jogador quanto a equipe jogam sem ter a posse da bola. Dos noventa minutos regulamentares, em média, um jogador e uma equipe passam, respectivamente, 97% e 50% do tempo sem a bola“.

Para quem cursou jornalismo, e pretende realizar análises táticas, um bom caminho para se criar um método é lembrar-se do famigerado lead (ou lide), que busca condensar na abertura das matérias as respostas às seguintes perguntas: o quê?, quem?, aonde? quando?, como? e por quê?

Segundo o professor Israel Teoldo Costa – um dos autores do fantástico livro “Para um futebol jogado com ideias“- no artigo Análise e avaliação do comportamento tático no futebol” todos estes sistemas modernos de observação e análise de jogo procuram responder às seguintes questões sobre as ações no jogo:

  • quem executa a ação?
  • qual ação é realizada?
  • como a ação é realizada?
  • que tipo de ação é realizada?
  • onde a ação se realiza?
  • quando a ação se realiza?
  • qual é o resultado da ação?

Logicamente, estas perguntas precisam ser respondidas com base em critérios. Critérios teóricos/científicos. Não se pode analisar um jogo, uma equipe ou um jogador, com base em determinados conceitos, e na partida seguinte utilizar outras referências – correndo o risco de criar diagnósticos diferentes para duas situações absolutamente iguais, ou vice-versa. Estudar, adquirir conhecimento, praticar com base em critérios, e assim evoluir a ponto de conseguir responder às questões relacionadas pelo professor Israel é fundamental.

Retorno às palavras do professor Israel para reforçar esta ideia na busca pela criação de um método pessoal de análise que esteja de acordo com os conceitos teóricos, estabelecendo critérios claros e cruzando as informações com o contexto de cada partida ou situação:

Acrescenta-se a isso a necessidade de qualificar os dados quantitativos, ou seja, de avaliar as ações no contexto em que elas ocorrem. A possibilidade de avaliar os dados decorrentes de uma partida de acordo com o modelo de jogo da equipe e os conteúdos desenvolvidos nos treinamentos oferece vantagem para a contextualização do desempenho, pois permite conhecer as ações dos jogadores de acordo com um conjunto de referências que conferem ou que deixam de dar sentido aos comportamentos adotados. Deste modo, é possível aceder à comparação entre o desempenho ideal e o desempenho efetivo do jogador e da equipe“. 

É preciso, portanto, conhecer os princípios de cada momento do jogo, e as ações táticas requisitadas. Recomendo a leitura do livro já citado – “Para um futebol jogado com ideias” – porque nele constam tabelas extremamente claras e completas sobre estas particularidades dos momentos ofensivo, defensivo, transições e bolas paradas.

Por exemplo, ao analisar-se o momento ofensivo de uma equipe (sub-dividido nas fases de construção, preparação, criação e finalização) um dos enfoques pode ser no princípio do apoio (também chamado de cobertura ofensiva por outros autores). As ações táticas exigidas pelo apoio são: aproximação dando linha de passe, criação de triângulos e superioridade numérica. Desta forma, o analista pode diagnosticar se o portador da bola, nas fases de preparação/criação, recebe ofertas de linhas de passe próximas, se a equipe cria triângulos (e de que forma são estes triângulos, compostos por quem, em que parte do campo, etc), e se existe busca pela superioridade numérica no setor.

Quanto mais informações são reunidas a respeito de cada princípio de jogo referente a cada momento – vocês podem revisá-los nos capítulos sobre Organização Ofensiva, Organização Defensiva, Transição Ofensiva, Transição Defensiva e Bolas Paradas, com base nos estudos publicados pelo professor Rodrigo Leitão – mais comportamentos são identificados e interpretados, e mais diagnósticos são realizados.

Em geral, o analista iniciante prende-se demasiadamente ao posicionamento inicial (o sistema tático, os numerozinhos). Também já fui assim, basta navegar nos meus blogs antigos. Desde 2008/09, quando criei o que se pode considerar o primeiro blog dedicado exclusivamente à análise tática na grande imprensa (o Prancheta, que viria a se chamar Preleção, no clicRBS – com os campinhos customizados), é possível acompanhar a evolução nas minhas análises, amparada na aquisição de conhecimento – mais estudo, mais referências para se identificar mais padrões e realizar mais diagnósticos, com maior complexidade. É uma profissão/prática que logicamente exige essa constante atualização – muitas ideias novas ou reinterpretações de antigas criam mais precedentes táticos para se incorporar ao repertório.

Além da ênfase nos sistemas, existe também a ânsia pela opinião, pelo “certo ou errado”, e pela projeção (tentar adivinhar escalações e sistemas, e “sugerir” quais seriam os mais efetivos, ignorando-se que o papel tudo aceita, que não existe certo ou errado no futebol, e que tudo pode dar certo se for bem treinado e bem executado). O que, na imprensa e nas redes sociais, movimenta mais a interatividade – mesmo que seja uma interatividade menos qualificada, por vezes “raivosa” e folclórica. Análise superficial, opinião e predição, são problemas comuns que vão se abandonando à medida que agrega-se mais conhecimento. Afinal, análise é informação.

Não é o caso, entretanto, de se subestimar a importância do sistema tático. Pelo contrário. Os posicionamentos iniciais dos jogadores, que apresentam os “numerozinhos” com os quais se descrevem os sistemas, são extremamente importantes. Afinal, para analisar movimentos, é preciso saber de onde o jogador saiu. Ele vai do ponto A para o B. Se o analista ignora o ponto A, prestando atenção apenas ao B, ele vai transmitir uma informação equivocada, e novamente tomar o movimento pelo posicionamento.

Podemos pegar como exemplo para um rápido exercício de análise o Napoli que tem apresentado excelentes atuações nesta temporada 2016. Na partida contra a Juventus (derrota fora de casa por 1 a 0, perdendo também a liderança do Campeonato Italiano), a equipe partiu do sistema tático 4-1-4-1. A informação é confirmada neste frame, com o posicionamento inicial dos seis jogadores de ataque e meio-campo:

inicial.png

Seria suficiente escrever na imprensa ou na internet um texto sobre o Napoli apenas com este frame? Seria. Na prática, superficialmente, identificado o posicionamento inicial o complemento poderia vir de avaliações de desempenho individuais, contextos do jogo, leituras sobre possibilidades (projeções de outros sistemas e/ou jogadores).

Mas, assistindo a todo o jogo, pode-se avançar para a identificação de comportamentos. Na fase defensiva, por exemplo, o Napoli chamou a atenção pelas constantes subidas de pressão, muitas vezes comandadas pelo 5-Allan, jogador que parte do lado direito do tripé de meio-campo, “embretando” a Juventus em um canto lateral do campo defensivo:

allan_um.png

Na imagem acima, é o 5-Allan quem comanda a subida de pressão, trazendo junto com ele seis jogadores, todos com DIRECIONAMENTO para o lado da bola, com ênfase na pressão ao portador e no fechamento das linhas de passe (ou com encaixes por trás do adversário, ou tomando a frente e cortando a possibilidade de passar a bola), além de ESTREITAMENTO e COMPACTAÇÃO DEFENSIVA. Vários princípios e sub-princípios.

Nota-se no frame do posicionamento inicial, e no frame abaixo, que muitas vezes é o passe para trás que desencadeia esta subida de pressão do 5-Allan. Ele pressiona, na imagem abaixo, o 10-Pogba, e assim que o portador faz o passe para trás ele segue A TRAJETÓRIA DA BOLA, chegando junto com ela ao receptor do passe. O que força o adversário a continuar passando para trás (recuo ao goleiro), e traz junto todos os demais jogadores para posicionar novamente a primeira linha de pressão à frente da área da Juventus.

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Mas o comportamento é coletivo, não individual. Em momento no qual o 5-Allan está fora de lugar, é o primeiro volante – o 8-Jorginho – quem está mais à frente, acompanhando a subida do extremo 7-Callejón, novamente DIRECIONANDO a Juventus a uma zona lateral no próprio campo, sem opções a não ser errar, ceder a posse ou buscar a saída longa.

allan_tres.png

E para dar certo, este subida de pressão é acompanhada pela defesa, que sobe junto, como se vê no frame abaixo – mantendo a COMPACTAÇÃO DEFENSIVA, o que diminui ainda mais as opções de saída da Juventus. Neste lance, o atacante é acionado em bola longa e entra em impedimento. Para jogar desta forma, destaca-se individualmente a velocidade dos jogadores de defesa, em especial o zagueiro 26-Koulibaly. Além da rápida RECOMPOSIÇÃO das linhas no 4-1-4-1 em bloco baixo assim que o adversário consegue sair da primeira pressão – quem subiu retorna em velocidade para ocupar novamente o posicionamento inicial à frente da área.

linha_defesa.png

Com a bola, outro padrão bastante identificável na fase de construção (a primeira das fases ofensivas, um sinônimo para “saída de bola”) foi o recuo do meia-esquerda 17-Hamsik no espaço entre o zagueiro 26-Koulibaly e o lateral-esquerdo 31-Ghoulam. Praticamente, uma “saída de 3”, mas com o meia, não com o volante.

Desta forma, o meia 17-Hamsik – jogador móvel, com visão de jogo e qualidade de passe – conquista tempo e espaço para organizar a saída de frente. A consequência deste recuo do meia-esquerda na fase de construção, é a sincronia entre a projeção do lateral 31-Ghoulam (atraindo a marcação e abrindo espaço para o 17-Hamsik entrar no campo defensivo) e a flutuação do extremo 24-Insigne do lado para o centro – afinal, se o lateral avança em amplitude, ele precisa sair do corredor e ocupar um espaço central entre-linhas.

Tudo isso na mesma fração de segundos, conforme se observa nos quatro frames abaixo. Afinal, se aconteceu tantas vezes, não é acaso. É um padrão. Fruto de treinamento. Ao analista, cabe observá-lo, anotá-lo, identificá-lo, contextualizá-lo e interpretá-lo, transmitindo ao seu público-alvo (comissão ou audiência) conforme o objetivo de seu trabalho.

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Este é um exemplo de comunicação no caso de análise para imprensa/internet/redes sociais. Identificação de sistema, comportamentos, análise de contextos, diagnósticos, encadeados por um “gancho” que justifique a abordagem desta pauta no momento – falando do Napoli, o gancho é o desempenho de uma equipe capaz de rivalizar com a hegemonia recente da Juventus.

A apresentação do conteúdo varia pouco, dependendo da mídia (papel, tevê, blogs, sites, etc) partirá de frames ou de trechos de vídeo, alterando a aparência conforme os softwares empregados na edição. Para frames, pode-se usar desde o arcaico Paint, passando pelo PowerPoint, pelo Photoshop, e até pelo Pré-Visualizador de imagens dos Mac’s. Em vídeo também, existem vários – desde o Video Maker quase artesanal, até Pinnacle Studio, Premiere, Final Cut, até o vanguardista TOG Sports, que vemos nas emissoras de tevê com o sistema de “tracking” – as edições “seguem” os jogadores em movimento.

Mas nos clubes é preciso produzir mais material, mais conteúdo, seguindo uma rotina – um protocolo de tarefas e produtos-finais – para atender às demandas da diretoria, da comissão técnica e dos jogadores. Também, é claro, utilizando-se destes softwares de edição de frames e vídeos, criação de apresentações e transmissão de dados.

Tem sido muito comum a aquisição de softwares que combinem os processos de edição com os de transmissão – o já citado Sportscode, por exemplo, permite que os jogadores, instalando o Player do programa gratuitamente, recebam os vídeos diretamente em seus iPads. Sem isso, mas no mesmo dispositivo móvel (iPad), a transmissão pode se dar por mp4 via iTunes. Os velhos DVD’s e até os pen drives estão cada vez mais em desuso.

Outros caminhos são o “upload” via Dropbox e assemelhados, ou em sites como o Weetransfer em caso de vídeos mais pesados. Recentemente o envio dos vídeos e demais informações por Whatsapp – convertendo os vídeos para formatos até 16mb, o máximo permitido pelo aplicativo – tornou-se uma excelente ferramenta. Assim, tanto comissão quanto jogadores podem assistir a análises de adversários ou feedbacks da equipe diretamente em seus celulares. Já os relatórios com os frames e descrições por escrito podem ser salvos em pdf e enviados rapidamente por e-mail ou celular.

Saber comunicar também é essencial. Se, obviamente, carecer de conhecimento sobre teoria tática inviabiliza o trabalho sério, não saber transmitir a informação também provoca inúmeros problemas. Compreender o jogo e saber manipular o aparato técnico cada vez mais complexo cria uma demanda não menos importante ao profissional da área: ser compreendido.

A mensagem precisa chegar de forma simples e objetiva, desde a escolha das melhores imagens até a correção na linguagem e a clareza do conteúdo. Afinal, analisar também é comunicar – a não ser que o consumo seja restrito ao próprio analista. Se você analisa para alguém, precisa fazê-los compreender a mensagem, e a prerrogativa deste entendimento é do emissor, nunca do receptor. O mesmo vale para jornalistas/blogueiros, o mesmo vale para analistas de desempenho: conhecimento teórico, domínio das ferramentas, adaptabilidade frente às constantes inovações (na teoria e nas ferramentas) e capacidade de se comunicar com clareza e objetividade, entregando um produto de qualidade.

10.Inteligência de Jogo e Tomada de Decisão

Mas será que os jogadores entendem essa história de losango, linha, quadrado…?“, questionam os céticos e detratores da análise tática, no comum afã humano por atacar e diminuir aqueles/aquilo que não se compreende. A resposta está no campo, quando qualquer observador capaz (não basta ver, mas saber ver, como já foi dito) consegue identificar não apenas os desenhos proporcionados pelo posicionamento inicial dos jogadores, mas também os complexos movimentos e comportamentos que caracterizam o modelo de jogo das equipes.

Obviamente, a base de tudo é o treinamento. Os jogadores são diariamente estimulados a compreender as regras concernentes ao modelo de jogo em todas as suas fases – o que fazer nas mais diversas situações de posse, transições, posse do adversário ou bolas paradas. Com este acervo de informações, também são estimulados a tomar as melhores decisões, a cada fração de segundo, em sintonia com os companheiros e em confronto com os adversários.

O professor argentino Pablo Juan Greco bem definiu esta relação entre jogadores, treinamento e tomada de decisão:

Do ponto de vista dos jogos esportivos coletivos, toda a decisão é uma decisão tática e pressupõe uma atitude cognitiva do jogador, que lhe possibilita reconhecer, orientar-se e regular suas ações motoras. Portanto, observa-se a necessidade de se compreender a importância do desenvolvimento do conhecimento através dos processos de ensino-aprendizagem-treinamento.

Por isso o papel do treinador e de sua comissão técnica, cada vez mais multidisciplinar, é tão importante. Esta equipe de trabalho precisa construir um modelo de jogo ao mesmo tempo complexo e claro, criar atividades que transmitam este conteúdo nos treinamentos aos jogadores, analisar seus comportamentos nas partidas e buscar soluções constantemente. Fica evidente a necessidade de haver um modelo de jogo e um microciclo de treinos em mais alto nível.

Segundo o professor/treinador Jorge Castelo, “os princípios de jogo estabelecem um quadro de referências para os jogadores, orientando o pensamento tático dos mesmos e, consequentemente, o comportamento tático-técnico com vista à resolução eficiente das diversas situações que a competição em si encerra.

É evidente que dentro de campo “quem decide” é o jogador. Mas esta decisão, em cada lance, precisa estar amparada no acervo de referências adquiridas nos treinamentos, análises de vídeos, palestras e demais meios de estímulo ao jogador. Cria-se, desta forma, um pensamento coletivo, interligando as decisões de todos os jogadores entre si, fazendo com que o time mova-se como um organismo vivo, com as decisões de cada um sendo não apenas assimiladas, mas antecipadas pelos companheiros.

O professor-doutor Júlio Garganta produziu diversos artigos sobre inteligência de jogo e tomada de decisão, dos quais recortei muitos trechos para esclarecer este aspecto importantíssimo do desenvolvimento do jogo de futebol: a capacidade que o jogador tem de saber o que fazer, onde fazer, quando fazer, e como fazer.

Garganta, embora grande estudioso das complexidades táticas dos jogos desportivos coletivos, não ignora a presença de aleatoriedade e da imprevisibilidade no desenvolvimento das partidas, em especial do futebol. Mas, ao contrário do que se poderia pensar, o ingrediente do aleatório não isenta os jogadores do conhecimento tático. Na verdade, isso exige ainda mais inteligência de jogo, estimulando-os a prever até mesmo o imprevisível:

O futebol é considerado o jogo desportivo coletivo mais imprevisível e aleatório, características que resultam do envolvimento aberto, do elevado número de jogadores e da dimensão do espaço de jogo, bem como da duração do tempo de jogo. Neste sentido o jogo de futebol reclama dos praticantes uma elevada capacidade perceptiva e maiores exigências relativamente à componente visual que os restantes jogos desportivos coletivos.

Seguindo o caminho dos ensinamentos do professor Garganta, ele reitera a necessidade de desenvolvimento desta “inteligência de jogo” para que o atleta tome as decisões certas:

O sucesso nos jogos táticos depende largamente do nível de desenvolvimento das faculdades perceptivas e intelectuais dos atletas, especialmente em associação com outros fatores que determinam a performance. Em cada ação o jogador avalia as possibilidades de êxito e prepara mentalmente a ação a realizar em função da antecipação do comportamento dos adversários e da ação que os companheiros preveem realizar-se nesse contexto, exigindo-se decisões inteligentes através de processos cognitivos.

Os pesquisadores J.E Rink, K.E French e B.L Tjeerdsma descreveram em um artigo sobre o aprendizado nos esportes e jogos, relacionando traços cognitivos e motores que levam a se identificar o jogador mais capaz de tomar boas decisões – e executá-las – devido à sua inteligência de jogo e refino técnico:

  • Conhecimento declarativo e processual mais organizado
    e estruturado;
  • Processo de captação de informação mais eficiente;
  • Processo decisional mais rápido e preciso;
  • Mais rápido e preciso reconhecimento dos padrões de jogo (sinais pertinentes);
  • Superior conhecimento tático;
  • Maior capacidade de antecipação dos eventos do jogo
    e das respostas do oponente;
  • Superior conhecimento das probabilidades situacionais (evolução
    do jogo);
  • Elevada taxa de sucesso na execução das técnicas durante o
    jogo;
  • Maior consistência e adaptabilidade nos padrões de movimento;
  • Movimentos automatizados, executados com superior economia de esforço;
  • Superior capacidade de detecção de erros e de correção de execução.

Estas informações nos permitem estabelecer um paralelo com aqueles que ironizam a capacidade de um jogador assimilar instruções que eles próprios (jornalistas formados em curso superior, por exemplo) não conseguem. Recorro a mais uma citação do professor Júlio Garganta para que se compreenda essa diferença:

O indivíduo que sabe jogar é um indivíduo conhecedor, não no que diz respeito a conhecimentos acadêmicos, mas no que se refere a convenções interativas, nas quais saber fazer, e saber quando fazer, são o mesmo saber.

Com o desenvolvimento desta inteligência de jogo, através dos estímulos transmitidos em elaborados treinamentos e demais meios de levar a informação ao grupo de atletas, os jogadores precisam tomar as decisões certas durante a partida. Segundo Garganta, este aspecto é um dos mais importantes para o êxito da equipe.

Como já foi dito, estes estímulos táticos de forma alguma agem no sentido de desconstruir a criatividade. Pelo contrário, a técnica e a habilidade estão a serviço deste processo, auxiliando o jogador a encontrar soluções favoráveis mesmo que em momentos imprevisíveis. Ou seja, até o improviso pode ser treinador e estimulado, permitindo que o jogador tome boas decisões mesmo frente a situações inesperadas. É como escreveu Garganta no longo trecho abaixo:

Os comportamentos dos jogadores e das equipes, embora repousando sobre uma organização sustentada numa isonomia de princípios (os mesmos princípios valem para todos) movem-se entre dois pólos: o vínculo, ou seja, o estabelecido, as regras; e a possibilidade, a inovação. O jogo existe, portanto, na confluência de uma dimensão mais previsível, induzida pelas leis e princípios do jogo, com outra menos previsível, materializada a partir da autonomia dos jogadores, que fomentam a diversidade e a singularidade dos acontecimentos, a partir do confronto entre sistemas concorrentes, caracterizados pela alternância de circunstâncias de ordem e desordem, estabilidade e instabilidade, uniformidade e variedade.

Integrante das equipes multidisciplinares vinculadas às comissões técnicas, o setor de Análise de Desempenho tem papel importante na difusão do conhecimento sobre o modelo de jogo do próprio time e dos adversários, oferecendo conteúdo relevante aos jogadores. Com mais informações, observando vídeos e recebendo feedbacks, ele consegue agregar mais elementos para auxiliar nas tomadas de decisão, desenvolvendo seu entendimento sobre o jogo.

Garganta ressalta a importância não apenas dos treinamentos, mas como deste fluxo de informação sobre o jogo, para incrementar o conhecimento e estimular os jogadores a tomar as melhores decisões – de acordo com o modelo de jogo, em sintonia com os companheiros, nos momentos e espaços certos, com execução técnica e em confronto com as vulnerabilidades do oponente:

Outra tendência que se perfila prende-se com o incremento da informação sobre a performance, de modo a facilitar e a tornar mais eficaz a tomada de decisão sobre as táticas de jogo e os modelos de preparação para os operacionalizar. Por isso, a análise dos comportamentos dos jogadores e das equipas estende-se, cada vez mais, aos processos de treino, procurando-se avaliar a efetividade de programas, no que respeita à respectiva congruência com as ideias/conceitos de jogo que se pretende implementar.

No futebol esta inteligência de jogo – fortemente vinculada ao entendimento do que se deve fazer, como e quando fazer – foi durante muito tempo subestimada. No Brasil, em especial, o senso comum ainda acredita que o jogo é um sucessão de aleatoriedades, e que cabe exclusivamente ao instinto dos jogadores impulsioná-los à vitória. Mas em outros esportes coletivos, com destaque para o futebol americano, a compreensão sobre a importância dos treinos e da análise de desempenho para estabelecer um fluxo de informações e de estímulos elaborados é enorme, e evidente.

É bastante comum nas transmissões da NFL percebermos à beira do campo, enquanto a equipe ofensiva tenta marcar pontos, os jogadores de defesa analisando fotos impressas ou em tablets, para identificar eventuais erros, pontos vulneráveis ou virtudes do adversário, e assim preparar-se para tomar boas decisões.

Existem inclusive o termo “read option”, conceito aplicado fortemente nas ações ofensivas, mas também nas defensivas, em jogadas que exigem dos jogadores leituras instantâneas do comportamento adversário, para que a decisão seja tomada em uma fração de segundos sob o cruzamento das duas ou três alternativas treinadas e previstas frente aos movimentos revelados pelos oponentes.

Digo isso para citar, no desfecho deste capítulo, o treinador de futebol americano Howard Schnellenberger, que também escreveu sobre inteligência de jogo e tomada de decisão nos esportes coletivos:

A tomada de decisão consiste na capacidade de tomar decisões rápidas e taticamente exatas, constituindo uma das mais importantes capacidades do atleta. Ela determina muitas vezes o sucesso dos jogos técnico-táticos e é frequentemente responsável pelas diferenças na performance individual.

9.Bola Parada

Considerada há algum tempo o 5º momento do jogo sob a perspectiva tática – separada, assim, dos aspectos de organizações ofensiva e defensiva, e das transições ofensiva e defensiva – a bola parada ainda é uma das searas menos exploradas da teoria do futebol. De fato, boa parte dos autores aplicam a ela os mesmos conceitos das fases ofensivas e defensivas, adaptando-os aos lances de bola parada em função de suas peculiaridades.

Mais recentemente, além dos usuais escanteio, falta lateral, falta direta e pênalti, os arremessos laterais também são utilizados como ferramentas ofensivas na bola parada, exigindo que se elaborem planos defensivos para conter eventuais adversários que se utilizem destas ações de arremesso manual diretamente para a área, quase reproduzindo situações de escanteio.

Mas neste capítulo os escanteios serão abordados com maior profundidade – e quase com exclusividade – por serem as ações de bola parada que, principalmente na fase defensiva, mostram-se mais elaboradas e diversificadas nas escolhas dos treinadores.

Os estudos nesta área crescem não apenas pelo potencial (aumento de demanda versus bibliografia escassa) mas pela constatação de sua influência cada vez maior no resultado das partidas.

Segundo o professor Jorge Castelo, entre 25 e 50% das situações de finalização e de criação das situações de finalização são originadas a partir de soluções táticas de bola parada. Para ele, confrontos entre equipes semelhantes são cada vez mais decididos por gols derivados de escanteios, faltas laterais, faltas diretas, pênaltis ou arremessos laterais:

As situações de bola parada, como todos nós sabemos, são muito importantes, porque elas conduzem a situações que podem dar gol, ou que podem também, sofrer o gol, isto é, preparar armadilhas para na fase defensiva nós podermos contra atacar e podermos ter condições para fazer o nosso jogo.

Os professores Mário Bonfanti e Angelo Pereni, autores do livro “Fútbol a Balón Parado“, também levantaram um número próximo a 50% dos gols marcados no futebol moderno originados em lances de bola parada, ou em consequência destes lances. Outros estudos chegaram a marcas semelhantes, apontando em 47% o número de gols resultantes de bola parada.

Segundo Bonfanti e Pereni,  nas situações ofensivas de bola parada deve-se:

  • realçar a organização da jogada;
  • elaborar a surpresa e a oportunidade de variar as jogadas;
  • explorar as habilidades de um jogador do seu time e as debilidades de um adversário;
  • ter atenção a lapsos de concentração e à confiança.

O britânico Charles Hughes, diretor de treinadores da Football Association (FA) que gere o futebol inglês e autor, entre outras obras, do manual de futebol para o curso de treinadores da instituição enumerou cinco vantagens dos lances de bola parada:

  • a bola parada elimina automaticamente a necessidade de controle da bola;
  • os adversários precisam se colocar a uma distância mínima do cobrador, o que elimina a pressão sobre a bola;
  • um grande número de atacantes e/ou de jogadores com potencial de jogo aéreo deslocam-se para área ofensivas de perigo;
  • os jogadores se posicionam em zonas pré-planejadas, por vezes atendendo ao estudo de deficiências na marcação adversária;
  • o treinamento sistemático destes lances produz níveis de sincronização dos movimentos.

Mais especificamente no que diz respeito aos escanteios ofensivos, Hughes caracteriza três tipos de cobrança: longa (direta para a área); média (segundo jogador acionado em aproximação ao batedor, para cruzamento após o primeiro toque); e curta (segundo jogador próximo ao cobrador, recebe o passe curto para o cruzamento ou a combinação).

Castelo vai além, e expande essa divisão com mais dois pormenores, ligados à cobrança longa (direta): efeito para dentro (pé fechado) ou para fora (pé aberto), o que influencia diretamente no posicionamento tanto da defesa quanto dos atacantes dos lances de bola parada. Estudos recentes apontam que mais de 85% dos escanteios são cobrados diretamente para a área, restando apenas 15% de cobranças em dois tempos (curtas ou médias).

Diversos autores ressaltam ainda, nos lances ofensivos de bola parada, a importância das movimentações sincronizadas entre os atacantes, combinando este aspecto ao estudo da marcação adversária. Ou seja, aplicar os movimentos pré-treinados às carências identificadas nos comportamentos defensivos do rival, explorando espaços ou jogadores que possam comprometer a eficácia da marcação, potencializando a oportunidade de gol.

Em geral, pela observação de jogos das competições mais recentes de todas as principais ligas mundiais, o padrão quase absoluto das equipes em escanteio ofensivo é ingressar na área com 5 jogadores à espera do cruzamento, variando numericamente apenas no número de jogadores no rebote (1, 2 ou até mesmo 3) e na possibilidade de haver aproximação para cobrança curta.

Uma das formações mais encontradas é uma linha de 4 jogadores, no espaço entre pequena área e marca do pênalti, com um 5º jogador próximo ao goleiro – por vezes até buscando o contato, como na imagem abaixo:

esc_of_linha

Contra marcações individuais, alguns treinadores buscam a aglomeração de seus principais cabeceadores, criando uma zona de acúmulo de atacantes e defensores, o que pode proporcionar erros de marcação. No lance abaixo vemos três cabeceadores sobrepostos, atraindo três marcadores, completando a área com um na 1ª trave e um na 2ª trave:

esc_of_pilha

Existe ainda, entre muitas outras possibilidades, a movimentação de jogadores que estão fora da área, para surpreender o adversário e atacar a bola em velocidade. Nesta jogada a equipe aparenta ter apenas 3 jogadores na área e 4 no rebote, mas 2 destes entram em velocidade por trás dos 3 primeiros, completando no momento da batida 5 na área e 2 no rebote próximo:

esc_of_fora

Se aglomerar jogadores em “escadinha” pode funcionar contra marcações individuais, o técnico André Jardine (de excelentes trabalhos nas categorias de base de Inter, Grêmio e São Paulo) tem uma boa fórmula para combater a marcação por zona em escanteios:

Bloqueio e superioridade numérica no setor“, ele me disse, certa vez.

É um conceito que já foi observado na prática. A imagem abaixo é de uma vitória do Chelsea sobre o Galatasaray, há algumas temporadas, sob comando de José Mourinho. Contra a linha setorizada turca, Mourinho transformou o zagueiro Terry em um Offensive Tackle do futebol americano, buscando contato corporal e empurrando o responsável pela zona para trás, enquanto Ivanovic vem detrás em velocidade e “ataca a bola” exatamente naquele setor espaçado – contando com a qualidade da cobrança de Oscar.

Ou seja, bloqueio e superioridade no setor. Foi gol:

chelsea

Outro gol semelhante foi marcado na temporada 2014/15 pelo Barcelona, com dois bloqueios levando marcadores para dentro da pequena área, permitindo ao pequeno Messi cabecear livre. São apenas alguns entre tantos exemplos de soluções encontradas nos treinos e praticadas nos jogos.

Vale o mesmo dos escanteios para as faltas laterais – combinar estudo do adversário e sincronia de movimentos. Neste tipo de bola parada, Hughes indica ainda o posicionamento de dois batedores – um destro e um canhoto – o que dificulta a decisão da defesa na hora de posicionar a linha, e abre a possibilidade de uma cobrança combinada.

Já nos lances de bola parada defensiva, o professor José Maria Yagüe Cabezón define o processo da seguinte forma:

“Consiste nas soluções tático-técnicas individuais e coletivas da equipe, com a finalidade de neutralizar e anular as ações de bola parada ofensivas do adversário”. Cabezón enumerou ainda três princípios básicos dos lances de bola parada defensiva:

  • manter elevada a concentração durante o lance;
  • dispor de uma organização defensiva bem estruturada, tanto a nível
    individual como coletivo;
  • possuir estratégias definidas para a transição ofensiva.

E o professor Jorge Castelo divide os tipos de marcação em três: por zona, individual ou mista. Neste aspecto existe muita discussão sobre a eficácia de cada modelo, por vezes até com defesas exasperadas de pontos de vista entre defensores da zona e da individual nas bolas paradas defensivas.

  • Individual: cada elemento da equipe que defende tem responsabilidade por um adversário em particular, nunca se afastando dele; é próxima, rígida e agressiva, aumentando de intensidade à medida que se aproxima do gol;
  • Zona: cada jogador é responsável por uma zona do terreno, intervindo ativamente a partir do momento em que a bola ou o adversário com a bola entrem em seu raio de ação; visa a fechar os espaços mais perigosos e a condicionar o comportamento do adversário;
  • Mista: combina elementos das duas anteriores, com alguns jogadores respeitando a referência por zona, e outros as referências individualizadas, na mesma ação.

Alguns estudos têm sido publicados, principalmente nas escolas portuguesas, sobre a utilização dos três modelos, e os consequentes percentuais de eficácia. Um sobre a Eurocopa de 2004 aponta que 79,5% dos escanteios tiveram defesa mista, 17% individual e apenas 3,5% por zona; outra competição de 2004 apontou 84% mista, 14% zona e 2% individual; e um levantamento sobre a Eurocopa de 2008 encontrou 49,6% mista, 27% zona e 23,4% individual.

Variam muito os números, mas em geral a marcação mista é sempre a mais utilizada. Sobre ela, Manuel Casanova – autor de um excelente estudo sobre a eficácia dos diversos modelos de bola parada pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto – faz uma importante subdivisão:

Este método pode ter uma variedade muito grande: por um lado, pode ser composta na sua maioria por jogadores a defender à zona e desse modo assemelhar-se mais ao método defensivo zonal; por outro lado, pode ter mais jogadores a realizar defesa individual e desse modo assemelhar-se mais com o método de defesa individual.

Tem sido este, ao menos no futebol brasileiro, o principal ponto de observação nas bolas paradas defensivas: o crescimento da utilização da marcação mista com supremacia da zona. Na prática, muitos jogadores marcando por setor, e poucos individualmente, como veremos nas imagens a seguir.

É difícil de se encontrar uma equipe que marque exclusivamente por zona as bolas paradas, assim como é muito raro uma exclusivamente individual – se levarmos em consideração que os jogadores posicionados nos postes estão marcando “setores”, por exemplo. Isso faz com que a quase totalidade das defesas de bola parada no futebol brasileiro sejam mistas, variando na supremacia do número de jogadores – uns com mais homens por setor, outros com mais individuais.

Encontrei em todo o Campeonato Brasileiro apenas um bom exemplo de defesa exclusivamente por zona em escanteios. É nesta imagem. Embora aparente que um jogador está marcando individual, ele é na verdade o responsável pelo setor da 2ª trave, permanecendo ali (para dentro da linha em diagonal que vem definindo os setores desde a 1ª trave) mesmo se o adversário em questão não estivesse em seu setor:

zona

Observam-se 3 jogadores na 1ª trave, formando um triângulo; 4 alinhados na zona em diagonal e 1 na zona da 2ª trave, somando com os 2 do rebote a presença de todos os jogadores de linha na marcação do escanteio.

Mas lá no alto da imagem vemos que o adversário cobra com “pé fechado”. Contra o mesmo adversário, em situação de “pé aberto”, esta equipe modifica o comportamento e sai da zona para a marcação mista devido a uma simples variação: o jogador da 2ª trave sai deste setor e transforma-se em bloqueador individual na altura do pênalti, utilizado como recurso para atrapalhar a corrida dos melhores cabeceadores, evitando que ingressem com velocidade nas zonas e vençam os defensores pela maior impulsão e agressividade:

zona_dois

Este é o padrão mais observado empiricamente entre as equipes das principais ligas de futebol do mundo quando a defesa é por zona na essência: a existência de entre 1 e 3 bloqueadores individuais, configurando assim o modelo como defesa mista com supremacia setorizada.

Aqui é possível, pela proximidade da imagem, perceber com maior clareza esta defesa mista com supremacia setorizada. São 2 jogadores no setor da 1ª trave, 4 marcando por zona alinhados e 1 no bloqueio individual na altura do pênalti, “atrapalhando” a corrida dos adversários. Na prática, é uma defesa de zona com um bloqueador, mas na teoria é uma “defesa mista” unicamente pela presença deste jogador circulado:

zona_ponte

Falando-se em marcação por zona (mesmo que na teoria seja “mista” pela presença de bloqueadores) é impossível não se abordar o Corinthians do técnico Tite, que ingressa na própria área com todos os seus jogadores de linha para defender.

zona_cor

Percebe-se na imagem acima que 2 jogadores ocupam o setor da 1ª trave; outros 4 marcam alinhados por zona, sendo o último deles o responsável pela 2ª trave, “quebrando” a linha para dentro; mais 3 jogadores fazem os bloqueios individuais (2 estão na altura do pênalti e outro está mais afastado perseguindo um alvo que ameaça receber cobrança curta); e o 10º jogador está na saída da área, para o rebote.

Se as marcações por zona na maioria das vezes contam com um ou mais bloqueadores individuais, as marcações essencialmente individuais também são mistas na prática – em razão dos jogadores que defendem a 1ª trave. Podemos perceber esta diferença entre a letra fria da teoria e a prática nas imagens abaixo, com diversos modelos de marcações individuais, mas sempre contando com 1, 2 ou 3 defensores setorizados na 1ª trave.

Time de camisas claras com 2 na 1ª trave, 5 marcando 5 individualmente e 2 no rebote encaixado:

individual

Time de camisas escuras com 2 na 1ª trave, 5 marcando 5 individualmente e 2 no rebote:

indiv

Agora o time de camisas claras tem 3 na 1ª trave e 4 marcando 4 individualmente:

indiv_tres_trave

Assim como nas defesas por zona, as defesas individuais têm inúmeras combinações possíveis. Outro aspecto interessante de se observar é o posicionamento do goleiro, por vezes mais para fora da pequena área, por vezes mais próximo à linha.

Feita a interceptação, outra parte importante do plano defensivo nas bolas paradas é o contra-ataque. Segundo o professor Júlio Garganta, as transições ofensivas em bolas paradas precisam levar em consideração os seguintes aspectos:

  • Aproveitar a desorganização adversária, em uma ação na qual os zagueiros e demais defensores altos costumam ir ao ataque;
  • É aconselhável trocas poucos passes – entre quatro e cinco, no máximo;
  • Estes passes devem ser longos e para a frente;
  • Toda a ação precisa levar entre 5 e 10 segundos, no máximo 12 segundos;
  • Até 4 jogadores devem se envolver no contra-ataque;
  • Deve-se buscar a superioridade numérica sobre a defesa na zona de finalização.

8.Transição Defensiva

Muito da teoria sobre as transições já foi dito no capítulo anterior, que tratou especificamente dos contra-ataques. O que nos permite ser mais objetivo na abordagem dos princípios estruturais e organizacionais da transição defensiva agora.

Vale lembrar que a transição defensiva é o momento da mudança de posse da equipe sob análise passando de ter a bola para perdê-la. A partir deste instante os jogadores precisam também mudar rapidamente de comportamento, saindo da fase ofensiva para buscar – seguindo o modelo de jogo – novamente a posse, além de impedir que o adversário progrida em seu campo.

Rapidamente enumero abaixo os princípios estruturais descritos pelo professor Rodrigo Leitão. São três:

  1. Densidade defensiva: é a relação entre o número de jogadores que participam da fase de defesa de uma equipe com o número de jogadores que participam do ataque adversário. Novamente, é a comparação entre o time X defendendo-se com 9 jogadores e o Y atacando com 7, por exemplo;
  2. Balanço defensivo: é o número e a forma de disposição dos jogadores defensivos enquanto sua equipe promove um ataque. Este princípio é mais claro. Em geral, as equipes quando atacam preparam seus jogadores atrás da linha da bola para a transição defensiva.É comum perceber que o time com a bola deixa “em espera” seus dois zagueiros e pelo menos um lateral e um volante, por vezes formando um “losango defensivo” atrás da linha da bola. Estes jogadores ficam próximos dos
    adversários que, do contrário, estão à frente mesmo que sua equipe se defenda, preparando-se para a transição ofensiva. Nesta imagem nota-se que o time de uniformes brancos, em função do alto número de adversários adiantados, mesmo estando em organização ofensiva deixa quatro defensores atrás, formando seu balanço defensivo, com encaixes individualizados e superioridade numérica – como escrevi antes, formando um losango:

    trans_def_balanco

  3. Proporção de defesa: é a relação entre o número de jogadores que participam efetivamente da fase de defesa com o número de jogadores que se preocupam predominantemente com o ataque durante a fase defensiva. É a contraposição dentro do próprio time entre 8 jogadores defendendo e 2 à frente da linha da bola, por exemplo.

Já nos princípios organizacionais, é possível se ter uma visualização mais clara destes conceitos aplicados em campo. E Leitão relaciona outros três, relacionados abaixo:

  1. Pressionar o portador da bola: é o que se vê cada vez mais no futebol moderno, muito em função do êxito das equipes treinadas pelo Pep Guardiola. Assim que o time perde a bola, a primeira “regra” do modelo de jogo é que os jogadores próximos – em especial quem estava com a bola, levando consigo os companheiros mais imediatos ao setor em questão – exerçam forte pressão sobre o adversário. Isso possibilita não apenas que a posse seja rapidamente recuperada, como também atrasa a progressão adversária.Nesta imagem temos um exemplo de pressão imediata ao portador da bola no momento da perda. São 3 jogadores cercando o portador da bola:

    trans_def_pressao
    Aqui tem um link que fala mais sobre a recuperação em até 5 segundos – a transição defensiva agressiva (Gegenpressing).

  2. Recompor-se: neste caso, a referência é a linha da bola. Se no modelo de jogo a ordem principal na transição defensiva é a recomposição, os jogadores priorizam o retorno a seus respectivos setores – dando ênfase à reorganização da linha defensiva à frente da área. Este movimento é bastante comum quando vemos um jogador de meio-campo (um volante, como se diz aqui no Brasil) saindo para os lados em cobertura ao lateral que atacava e na perda se vê fora de lugar.O time exemplificado abaixo, que praticava uma proposta defensiva – poucos jogadores à frente da linha da bola – priorizou uma transição voltada à recomposição por ver este princípio facilitado (seus laterais e volantes já estavam próximos dos zagueiros). Assim, no momento da perda, já apresentava a linha defensiva e os dois volantes reagrupados, com superioridade numérica, jogo posicional, compactação e pressão sobre a bola:

    trans_def_recompor

  3. Manter as estruturas: se não foi possível pressionar, alguns treinadores optam por orientar seus jogadores a “correr para trás” na transição defensiva. Permitem que o adversário progrida com a bola, sem pressioná-lo, para guardar a defesa de setor. A imagem abaixo é bem clara – o lateral do time de uniformes claros poderia ter escolhido adiantar-se para combater o adversário com a bola, mas preferiu manter-se atrás para não desorganizar a estrutura da primeira linha, correndo para trás:

    trans_def_estrutura

Neste ponto, recorro mais uma vez ao complemento proporcionado pelo artigo do professor Leandro Zago, que também sub-divide a transição defensiva em dois momentos. Segundo ele, no 1º momento a equipe pode pressionar o portador da bola ou recompor-se; feita a escolha, caso tenha optado pela pressão imediata no 2º momento é necessário temporizar ou recuperar a posse; caso a opção tenha sido a recomposição, no 2º momento é hora de proteger o próprio campo e, consequentemente, o alvo (o gol).

“Temporizar” é sinônimo de “atrasar”. Como dito antes, a pressão imediata visa ou à roubada no campo de ataque, ou ao atraso/impedimento da progressão adversária, permitindo que os demais jogadores reorganizem a estrutura defensiva.

Acredito que exista ainda um 4º princípio organizacional, não citado nos artigos/livros que consultei, mas bastante observado na prática em diversas equipes brasileiras, principalmente as que utilizam modelos de jogo mais arcaicos: a falta. Não é piada, mas muitos treinadores acreditam que o anti-jogo é uma forma de transição defensiva, referindo-se a ele como “falta tática” para impedir contra-ataques adversários. E, se um time recorre frequentemente às faltas no momento da perda de bola, é necessário que o analista registre este comportamento.

Para encerrar o capítulo, deixo para reflexão esse trecho do artigo de Leandro Zago, ressaltando a importância do treino e da clareza do modelo de jogo para que os jogadores tenham recursos na hora de analisar as possibilidades e, em uma fração de segundos, tomar a melhor decisão:

“Para se treinar as transições defensivas e ofensivas são necessários princípios de jogo bem estabelecidos. Quando recupera a bola a equipe deve saber se é o momento de contra atacar, tirar simplesmente a bola da zona de pressão, ou alternar entre ambos de acordo com o comportamento do adversário. Ao perder a bola, deve-se definir referências para pressionar o portador da bola rapidamente, reorganizar-se em linhas mais recuadas ou coordenar as duas respostas numa análise rápida da situação que o jogo está propondo. Essa coordenação tem que estar muito bem construída, porque a transição tem como uma de suas características um pequeno tempo para sua ocorrência, não permitindo na maioria das vezes que as dúvidas sejam solucionadas em tempo hábil de resolver o problema”.