Popularizou-se com o modelo de jogo elaborado por Jürgen Klopp no Borussia Dortmund o termo “gegenpressing” para caracterizar o momento de transição ataque-defesa no futebol de alto nível. É um sinônimo em alemão para a palavra “counterpressing”, ambas significando para nós brasileiros a “pressão sobre o contra-ataque adversário”. O contra-ataque do contra-ataque.

No capítulo 8 do e-book gratuito reescrito em posts neste blog já foi abordado o tema Transição Defensiva, com os pormenores teóricos desta fase do jogo. Vale recordar, resumidamente, os princípios desta fase – ou seja, as regras gerais que o treinador deve elaborar em seu modelo de jogo para orientar os jogadores (condicionar a tomada de decisão) no momento em que há troca de posse em favor do adversário.

Segundo o professor Rodrigo Leitão, os princípios estruturais dizem respeito a relação numérica entre os jogadores que participam da ação ofensiva, e os jogadores que permanecem atrás da linha da bola – em relação com os espaços no campo defensivo e com os adversários à frente da linha da bola. São eles:

  • Densidade Defensiva: confronta a quantidade de jogadores atrás da linha da bola (em espera) com os adversários à frente da linha da bola, em geral buscando superioridade defensiva;
  • Balanço Defensivo: número de jogadores atrás da linha da bola na fase ofensiva, e a maneira como eles estão distribuídos em campo;
  • Proporção de Defesa: confronta, dentro do próprio time, quantos jogadores participam ativamente da ação ofensiva, e quantos estão “em espera”.

Já os princípios organizacionais são as regras em si estipuladas aos jogadores – os comportamentos que se pretende executar coletivamente no momento da perda da bola:

  • Pressionar o portador da bola;
  • Recompor (retornar);
  • Manter a organização da estrutura.

Todos estes princípios são levados em consideração na “gegenpressing”. Esta transição defensiva agressiva delimita o tempo necessário para se recuperar a posse exercendo imediata pressão a partir da perda.

Em geral, as equipes trabalham com o tempo de 5 segundos: perdeu a bola, os jogadores próximos seguem o plano e pressionam imediatamente; se, em 5 segundos a bola não foi recuperada, muda-se o comportamento para recomposição e reorganização das linhas de defesa, entrando em organização defensiva. No Grêmio trabalha-se com métricas (cálculos matemáticos sobre scouts agrupados em princípios), e entre várias medições é monitorada a REC 5 – exatamente a recuperação em 5 segundos (quantas vezes ocorre, em que quadrantes do campo, com qual percentual de êxito, com quais jogadores) – tanto do Grêmio como dos adversários.

O site spielverlagerung.de publicou há algum tempo um excelente artigo esmiuçando os pormenores táticos elaborados pelos treinadores de ponta no desenvolvimento da transição defensiva agressiva -> cliquem aqui.

No artigo, o autor enumera dois requisitos fundamentais para a execução da gegen – ou counter – pressing, como diz o título do texto:

  • Unidade Ofensiva: atacar de forma organizada, com movimentos sincronizados e jogo posicional claro, mantém os jogadores próximos e permite uma reação coletiva no imediato momento da perda da bola; é um pensamento que funciona “melhor” para os times que valorizam a posse de bola e a circulação em triangulações em passes curtos.

    O que me faz lembrar uma frase do técnico Roger Machado nos treinos do Grêmio: “quem tá próximo para jogar, tá próximo para marcar“.

    Ou seja, o mesmo grupo que articulava-se com aproximações em posse é o responsável por, estando no centro de jogo (no raio de 9,15m ao redor da bola), pressionar os adversários para a recuperação imediata da bola;

  • Balanço Defensivo: como já foi dito, o número de jogadores atrás da linha da bola na fase de organização ofensiva, e sua distribuição em campo (princípio que sustenta – dá segurança – aos jogadores que estão no centro de jogo para que eles pressionem a bola);
  • Eu tomo a liberdade ainda de acrescentar a Preparação Física. Afinal, é um princípio de jogo que exige alto condicionamento dos jogadores, o que será alcançado apenas com treinamentos em periodização tática que atendam à especificidade desta ação.

Thomas Tuchel, sucessor de Klopp, mantém esta “pegada” no Borussia. Pesquei um exemplo da partida contra o próprio Liverpool de Klopp – empate em 1 a 1 na Alemanha, pela Liga Europa. Vejamos:

genge_um.png

O cronômetro marca 6’12” do 1º tempo. O meia 10-Mkhtaryan, pressionado por dois adversários, perde a bola. Estão na periferia do centro de jogo os atacantes 11-Reus e 17-Aubameyang,  e o ala-extremo 37-Durm.

genge_dois.jpg

No cronômetro, vemos que passaram-se 4 segundos (dentro, portanto, do período de “gegenpressing”). Notem que o Borussia agora tem 6 jogadores dentro do centro de jogo. As setas demonstram que pelo menos quatro jogadores tiveram comportamento agressivo de aproximação, tanto para pressionar o portador, como para marcar os dois alvos de passe próximo à frente: tanto os atacantes 11-Reus e 17-Aubameyang, como o próprio 10-Mkhtaryan, e além deles o volante 33-Weigl e o meia oposto 27-Castro (ambos estavam fora do vídeo na primeira imagem), assim como as aproximações em cobertura do 37-Durm e do lateral-direito 26-Piszczek.

O que aconteceu? Em 4 segundos a partir da perda, o portador da bola “apavora-se” com a pressão de 6 adversários e é induzido a tomar a decisão errada com a execução técnica errada: faz o passe nos pés do 10-Mkhtaryan sem que tivesse sequer algum companheiro naquela direção. Livrou-se da bola.

Mas estas regras – os princípios da transição defensiva agressiva – precisam também prever o plano B: o que fazer após os 5 segundos se a recuperação da posse não ocorrer?

Além da equipe perguntar-se quando pressionar? e como pressionar? também precisa perguntar-se (e ter respostas estabelecidas no plano de jogo, treinadas até condicionar o comportamento coletivo dos jogadores) por quanto tempo pressionar? e quando parar de pressionar? Times bem treinados têm ideias claras, e os jogadores são condicionados a tomar decisões de acordo com o modelo, avaliando a cada fração de segundo qual comportamento adotar.

Vejamos este exemplo do mesmo Borussia de Tuchel contra o Liverpool. Há neste lance uma boa concentração de jogadores no centro de jogo e na periferia imediata a ele. Estão próximos do 33-Weigl – que errou o passe e seguiu a trajetória da bola para pressionar imediatamente o portador – outros 4 jogadores do Borussia (Castro, Schmelzer, Reus e Mkhtaryan).

Porém, observem o comportamento do lateral-direito 26-Piszczek. O cronômetro marca 42’40″do 1º tempo.

trans_um.jpg

O portador da bola – parece-me o volante-meia 23-Emre Can – encontra a solução mais indicada sob pressão por trás: jogar em um tempo. Ele faz o passe de primeira para o jogador que se projeta (7-Milner, sinalizado com a linha vermelha), saindo imediatamente da pressão e encontrando espaço para o receptor do passe progredir tendo ainda dois companheiros próximos (14-Henderson e 10-Coutinho, ambos à esquerda de Milner).

Dois segundos depois (cronômetro do 42’42”) vejam qual foi a tomada de decisão de Piszczek: ora, se não dá para pressionar coletivamente e estou em inferioridade numérica, subir o combate abriria um espaço relevante às costas e induziria Milner a acionar Coutinho em velocidade e sem marcação. O que faz o lateral-direito do Borussia?

Plano B: recua em velocidade a ponto de ignorar completamente a bola (vira-se de costas para o portador, tendo como objetivo específico defender o espaço e reorganizar as linhas):

trans_dois.jpg

Nota-se que o volante 27-Castro também toma a mesma decisão. Fica evidente que ambos “pensaram juntos”, avaliaram a situação sob a mesma perspectiva tática e, portanto, agiram coletivamente. Uma demonstração de time bem treinado. Jogadores condicionados a ler cada situação de acordo com os princípios do modelo de jogo em cada fase, e assim avaliando todas as circunstâncias, tomar decisões que atendam a estas regras em sentido de unidade (todos pensando da mesma forma, um antecipando a ação/reação do outro).

Na sequência do lance, os jogadores que garantiam o balanço defensivo (os dois zagueiros) fazem a temporização (atrasam a jogada), dando tempo à recomposição dos jogadores que retornaram em velocidade (comandados pela rápida mudança de comportamento do volante e do lateral-direito) e em superioridade numérica, com os espaços ocupados de forma organizada, o Borussia recupera a bola e estanca o contra-ataque.

O artigo apresenta três tipos de “gegenpressing” utilizados atualmente, sob a perspectiva da cobertura na periferia do centro de jogo:

  • encurtamento com encaixes individuais – pressão individual no portador e fechamento individual das linhas de passe;
  • ênfase na pressão ao portador (alvo é a bola);
  • encurtamento com fechamento dos ângulos de passe (pressão ao portador e aproximação ao centro de jogo dos demais jogadores, fazendo “sombra”à frente das linhas de passe (colocando-se entre o portador e os alvos).

Todas estas regras variando conforme o objetivo, e podem até ser adaptadas ao modelo de jogo adversário (estratégia, princípio específico). Em geral, as metas principais são roubar a bola, isolar o portador, impedir ou atrasar a progressão – fazer recuar, induzir ao erro, bloquear o corredor central – induzir à saída lateral, proteger espaços relevantes…e até mesmo, dependendo da circunstância, parar a jogada (falta).

As vantagens apontadas para a transição defensiva agressiva – gegenpressing, counterpressing ou REC 5, como queiram – são fundamentalmente três, todas elas interligadas:

  • Estabilidade defensiva: hoje as equipes, em especial as de ponta, são exímias em transições ofensivas. Apenas recuar e se reestruturar no momento da perda da bola dá a adversários com jogadores de extrema qualidade técnica, velocidade, controle de bola, qualidade de passe e capacidade de vitória pessoal no 1×1, tempo e espaço para progredir e tomar decisões acertadas. A pressão imediata freia esta progressão, induz ao recuo ou ao erro, e evita a exposição à velocidade e qualidade de extremos e atacantes decisivos;
  • Evitar desorganização: quando se está atacando, os jogadores projetam-se e ocupam espaços ofensivos. A perda da bola pode expor espaços relevantes no campo defensivo. Ao mesmo tempo, quando o adversário recupera a bola, seus jogadores também se projetam, e agora é ele quem tende a se expor. O que leva à terceira vantagem:
  • Atacar: se o adversário, quando rouba a bola, entra em transição ofensiva e projeta seus jogadores, a recuperação imediata da bola permite ao time aproveitar esta saída do bloco rival, identificando e atacando espaços vulneráveis. O contra-ataque do contra-ataque. O que se torna ainda mais vantajoso por ocorrer no campo ofensivo – próximo à zona de criação e finalização.

Cabe aos treinadores elaborar planos claros para esta fase de jogo, estabelecendo as regras e estimulando nos treinos específicos os jogadores a saber identificar/avaliar os momentos de perda de bola para saber quando, como, onde, quem e para que pressionar a bola imediatamente após a perda. Outro elemento importante, realizado no Grêmio, é o monitoramento constante da métrica que mede este princípio (em nosso caso, a REC 5) para saber o percentual de êxito, os locais do campo (e, portanto, os jogadores envolvidos), as situações e os contextos onde ela foi realizada e funcionou – o que vai nortear os treinos específicos e estabelecer metas de evolução.

 

 

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  1. […] Aqui tem um link que fala mais sobre a recuperação em até 5 segundos – a transição defensiva agressiva (Gegenpressing). […]

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  2. Eduardo, bom dia!

    Primeiramente, parabéns pelo ótimo trabalho. O público leigo, como eu, agradece neste deserto que é o jornalismo futebolístico aqui no Brasil.

    Queria saber se o estilo de jogo BIELSISTA, que sou grande fã, de marcação por encaixe, também se enquadra neste paradigma do “gegenpressing”.

    E, se possível, uma visão sobre o assunto: desabastecer as linhas de passe, com “cada um marcando o seu” é mais ou menos eficiente que vários jogadores abafando o portador da bola? Quais as implicações que vocês medem em relação a uma estratégia e outra? Um dos dois tende a recuperar a bola mais rapidamente ou numa região do campo mais interessante?

    Abraço,

    Diego Marangoni

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    • eduardocecconi disse:

      Diego,

      sendo uma inspiração para Guardiola (todos integrantes desta árvore genealógica tática que inicia em Rinus Michels, Cruyff e depois se espalha para Guardiola, Bielsa, Sampaoli e assemelhados) é certo que Bielsa trabalha muito a transição defensiva agressiva.

      Sobre o grau de eficiência, acredito que o contexto do time avaliado é tão importante quanto a medição do êxito. Tanto a pressão individualizada quanto a interceptação às zonas de passe ou a pressão enfática à bola podem ser bem ou mal sucedidas, dependendo dos jogadores envolvidos (time e adversário), local do campo, contexto da partida, etc. O principal é que, estabelecidos os princípios claros, os treinos atendam à especificidade da ação e condicionem os jogadores a, pensando em unidade, tomar coletivamente a decisão apropriada dentro do plano, com rápida identificação do que fazer, e com rápida ação a partir disso.

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  3. Ótimo texto, parabéns.

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  4. […] Aqui tem um link que fala mais sobre a recuperação em até 5 segundos – a transição defensiva agressiva (Gegenpressing). […]

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  5. Eduardo, conheci recentemente seu blog, sou apaixonado por futebol, formado em marketing e muita facilidade para ler padrões táticos (sem ferramentas). Gostaria muito de aprender mais sobre, utilizar as ferramentas de vídeo e me candidatar para uma possível oportunidade de trabalhar com vocês. Estou aberto à testes, aprendizado e adoraria ter uma oportunidade no segmento.
    Desde já, lhe agradeço e parabenizo pelo ótimo trabalho!

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  6. […] é novidade que as equipes de Jürgen Klopp funcionem com 200% de intensidade e entrega dos jogadores. E ai está a grande resposta pelo insaciável desejo de ter o […]

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