Ao aprofundar o estudo da Análise de Jogos Desportivos – conforme a escola de pensadores portugueses convencionou chamar – encontrei diversos pontos de convergência entre a teoria por eles aplicada e correntes da teoria da comunicação. Em especial nas diretrizes da investigação pelo método observacional.

Referência mundial no tema, o professor Júlio Garganta apresenta conceitos desenvolvidos pela norte-americana Lynda Baker na obra “Observation: A Complex Research Method”. Este parágrafo expõe uma excelente reflexão sobre a observação como método de pesquisa:

É o saber ver que suscita um problema profundo, porque não só qualquer teoria depende de uma observação, mas também porque qualquer observação depende de uma teoria. Deste modo, a observação sem propósitos padece, inevitavelmente, de miopia conceitual. Ao pretender entender o jogo, há que explicitar os respectivos níveis de evidência, porque são eles que permitem modelar os indicadores e os critérios que viabilizam a seleção, a identificação e a avaliação dos eventos. Acresce que a observação sistemática é um método de indagação complexo porque requer que o observador desempenhe um conjunto de funções e recorra a diferentes meios, incluindo os cinco sentidos. Por isso, a pesquisa observacional caracteriza-se por requerer um treino especializado dos observadores, no que respeita a ‘o quê, como e quando’”.

Além, evidentemente, de destacar a importância do embasamento teórico alicerçando esta investigação, notem ao final que o “saber ver” na prática é descrito como um “saber perguntar” ao jogo – o que está acontecendo, quando e onde?

O mesmo disse o professor Israel Teoldo Costa – que, apesar de brasileiro, integra a escola portuguesa de pensamento sobre os jogos desportivos – no artigo “Análise e avaliação do comportamento tático no futebol”. Para ele, todos sistemas modernos de observação e análise de jogo procuram responder às seguintes questões:

Quem executa a ação? Qual ação é realizada? Como a ação é realizada? Que tipo de ação é realizada? Onde a ação se realiza? Quando a ação se realiza? Qual é o resultado da ação?

Podemos reunir, entre os advérbios interrogativos utilizados por ele, os principais: o que, quem, onde e quando; podemos, ainda, substituir a ideia de “que tipo” pela palavra “como”, e a ideia “qual o resultado” por um dos porquês.

Neste ponto saímos do espectro futebolístico para ingressar na teoria da comunicação. A jornalista e escritora brasileira Ana Arruda Callado na obra “O texto em veículos impressos” explica o conceito de lead (ou lide), famigerado primeiro parágrafo tido por obrigatório em redações jornalísticas:

Também conhecido como cabeça ou abertura de uma matéria, o lead é o primeiro parágrafo de uma notícia e deve narrar, resumidamente, o fato mais relevante da série de fatos que compõem a notícia. Nele, são respondidos os seis elementos básicos da informação: o quê? (a ação), quem? (o agente), quando? (o tempo), como? (o modo), onde? (o lugar) e por quê? (o motivo)”.

Segundo o também jornalista Ricardo Noblat – no livro “A arte de fazer um jornal diário” o lead surgiu nos Estados Unidos no final do século XIX, “fruto das dificuldades de comunicação enfrentadas pelos jornalistas enviados para cobrir a Guerra de Secessão, entre os anos de 1861 a 1865. Nasceu por um acaso durante esse conflito militar. Embora possa ser interpretado por mentes mais paranóicas como algo arquitetado para acabar com o jornalismo literário, ele não apareceu com esse propósito. Durante a Guerra de Secessão, eram muitos os repórteres e poucas linhas de telégrafo disponíveis para a transmissão das matérias. Com a precariedade do sistema, era necessário que as informações mais importantes fossem passadas primeiro. Uma vez transmitido um único parágrafo de cada matéria, era transmitido o segundo, o terceiro e assim por diante”.

Os mesmos conceitos de investigação jornalística foram desenvolvidos nos anos 40 pelo norte-americano Harold Lasswell. O italiano Mauro Wolf, no livro “Teorias da Comunicação”, descreve desta forma o modelo de Lasswell:

Elaborado inicialmente nos anos 40, exatamente na época, de ouro da teoria hipodérmica, como aplicação de um paradigma para a análise sociopolítica (quem obtém o quê? quando? de que forma?), o modelo lasswelliano, proposto em 1948, explica que uma forma adequada para se descrever um ato de comunicação é responder às perguntas seguintes: quem diz o quê através de que canal com que efeito? O estudo científico do processo comunicativo tende a concentrar-se em uma ou outra destas interrogações”.

Acredito que a convergência entre o método observacional aplicado à análise de jogos desportivos e a teoria da comunicação esteja exatamente neste ponto: as perguntas que se faz ao fato observado.

Ao analista tático (de desempenho, de performance, qualquer que seja a denominação do cargo/função) cabe constantemente fazer estas perguntas enquanto observa o jogo: o que está acontecendo? Em que local do campo? Quais são os jogadores envolvidos? Em que fase do processo de construção ou de contenção? Com qual propósito? Quais as repercussões? E assim sucessivamente…encontrar os protagonistas de cada ação, os “atores” que interagem de forma sincronizada, complexa e reiterada, revelando padrões de comportamento táticos (e também técnicos) relevantes para a compreensão do jogo.

Estas perguntas, é claro, não prescindem do aporte teórico do futebol. Pois de nada adiantaria perguntar ao jogo sem entender as respostas que ele revela através da identificação de padrões de comportamento inerentes ao modelo de jogo sob observação.
O próprio Júlio Garganta falou sobre isso em artigo publicado em 2005:

Admitimos que o jogo pode responder a tudo o que lhe souberem perguntar. Esta convicção dá sentido à necessidade de se desenvolver argumentos fundantes duma teoria dos jogos desportivos, a partir de estudos e reflexões a propósito dos comportamentos táticos específicos reconhecidos como negativos ou como positivos, isto é, os que poluem ou oxigenam o jogo, respectivamente. Como tal, interessa recolher informação a partir da observação e interpretação de comportamentos proximais ou distais em relação aos modelos de organização considerados evoluídos, evitando a redundância de indicadores/variáveis. Na busca da identificação e interpretação dos comportamentos críticos do jogo, destaca-se a utilidade do registro e da interpretação, não tanto das quantidades perse, mas sobretudo das quantidades da qualidade. Por isso, temos vindo a chamar à atenção para a relevância do estudo do “enredo” do jogo, do respectivo fluxo, mais do que do comportamento pontual e avulso dos seus atores. O enredo, estando mais voltado para o processo do que para o produto, vive das interações dos comportamentos, condensadas na dinâmica dos jogadores e das equipes”.

E diz mais:

(…) torna-se decisivo reunir material com potencia informativo, o que se consegue através da classificação de símbolos e das suas ligações numa relação que exprime a organização dum sistema. A informação não está apenas ligada à quantidade, mas também à qualidade, não sendo, portanto plausível procurar obtê-la à custa da tortura dos dados, que consiste em dobrá-los até que nos forneçam os resultados pretendidos. Habitualmente a atenção do analista é dirigida para as regularidades dos comportamentos dos jogadores e das equipes, no mesmo, ou em vários jogos. As regularidades constituem, portanto, informação condensada que faz sentido. Ora, o nível de evidência modela os critérios e é modelado por eles”.

A professora espanhola Maria Teresa Anguera Argilaga, no artigo “Metodologia observacional en el deporte: conceptos básicos” reitera a importância de um método – ou seja, critérios – durante a observação:

Importa passar de uma observação passiva, portanto sem problema definido, com baixo controle externo e carente de sistematização, para uma observação ativa, sistematizada, balizada por um problema e obedecendo a um controle externo”, o que se obtém, acredito, aliando os métodos de observação com as perguntas recorrentes e os parâmetros táticos teóricos modernos – modelo de jogo, momentos do jogo, princípios e sub-princípios, etc.

Por isso o papel do analista de desempenho é similar ao do comunicador. Entendo sob esta perspectiva o modelo de jogo como uma forma de linguagem, elaborada pela mente criativa do técnico – e executada durante as sessões de treinamento – para ser reproduzida nas partidas. Sabendo perguntar ao jogo o analista consegue traduzir esta linguagem, identificar “o que o treinador quis dizer” e transmitir ao seu público (sejam treinador, jogadores, seguidores, ouvintes, espectadores…) o significado dos posicionamentos, movimentos e interações que caracterizam os padrões de comportamento da equipe sob observação.

A base está nos princípios. Pode-se fazer uma analogia entre eles e o que Mauro Wolf conceitua pelo termo “código”. Para haver sucesso nesta comunicação é preciso que emissor e receptor partilhem o mesmo conhecimento sobre estes códigos – no caso da teoria do futebol, os princípios de jogo. Diz Wolf:

Assim se evidencia, no esquema comunicativo, a existência de um outro elemento, o código. Para que o destinatário possa compreender corretamente o sinal, é necessário que, quer no momento da transmissão, quer no momento da recepção, se faça referência a um mesmo código. O código é um sistema de regras que confere a determinados sinais um dado valor“.

Na prática, todo o processo de análise dos jogos desportivos faz do analista um comunicador. Na essência. Não sabendo comunicar (perguntar ao jogo, interpretar as respostas, organizá-las e transmiti-las de forma clara ao seu público-alvo) por mais entendimento da teoria do jogo que ele tenha a mensagem vai se perder no caminho.

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